Que Congresso é Este?

As justificativas dos votos desvendam os problemas da representação política no Brasil

por Valdemar Pereira de Pinho

O espetáculo deprimente da votação do impeachment na Câmara Federal merece uma reflexão sobre os seus significados. Artigo da vice presidente do Cebes, Carmen Teixeira analisa os discursos dos “sim sim sim” e conclui que esses deputados, o chamado “baixo clero”, a maioria do Congresso, não tem “qualificação para o exercício de funções públicas de relevância… aprenderam a fazer política nos bastidores da pequena política eleitoreira… sem treinamento para falar em público, sem capacidade de articulação clara do pensamento… treinados na utilização de gestos melodramáticos, palavras de efeito… acostumados a trocar o grito pelo argumento…”.

Valdemar Pereira de Pinho é professor aposentado da Unesp e membro do Partido dos Trabalhadores, em Botucatu.

Valdemar Pereira de Pinho é professor aposentado da Unesp e membro do Partido dos Trabalhadores, em Botucatu.

Reflexo dos posicionamentos na internet, onde muitos que comungam das mesmas concepções trocam os argumentos pelos xingamentos? Por que a maioria do Congresso é assim? As justificativas dos votos desvendam os problemas da representação política no Brasil. Os votos pela esposa, pelo marido, pelos filhos… demonstram a convicção dos deputados (e de seus eleitores???) de que “ingressar na carreira política é apenas uma forma de ascensão social, um caminho para o enriquecimento e o aumento do prestígio pessoal e de seus familiares, comportamento semelhante aos membros da “famiglia”, da máfia…”

O uso do nome de Deus como justificativa para o voto é uma “tentativa de fundamentar e legitimar sua (do deputado) suposta ‘autoridade’ apelando à religião entendida como fonte de conhecimento e poder”. Uma das offshores do Eduardo Cunha que recebeu dinheiro de propina chama-se “JESUS. COM”!!! Deus deve estar furioso com tanta hipocrisia. A Constituição garante o Estado é laico. Essa concepção tem sofrido ataques no nosso parlamento e em várias partes do mundo, sendo os mais exacerbados o do Estado Islâmico e outros grupos fundamentalistas, que, em nome de Deus (no caso, Alah), exterminam os infiéis (os que não comungam com suas crenças) opondo “de um lado, o humanismo iluminista, que consagra o caráter laico do Estado e do outro, o obscurantismo medieval que renasce das cinzas”.

As corrupção como justificativa na boca de corruptos o que é? “Considerando a quantidade de deputados que estão respondendo a processo, acusados de desvio de dinheiro público, esse discurso é, no mínimo, uma hipocrisia.” E com Eduardo Cunha comandando o circo.

Por que os representantes do povo são, em sua maioria, tão desqualificados? As causas são complexas e interligadas, uma se alimentando da outra: a nossa história com passado escravocrata, com o caráter patrimonialista do Estado brasileiro; a desigualdade social, que é econômica como base para todas as outras; a desigualdade tributária, penalizando os mais pobres e liberando os muito ricos; a mídia monopolista e partidária como instrumento principal de (des)informação da opinião pública… Mas, a principal responsável, é uma legislação eleitoral e partidária que garante a manutenção e reprodução de mecanismos que despolitizam a política, dificultando a alteração do quadro atual.

Mas isso são assuntos pra outras reflexões que pretendo fazer aqui nas próximas semanas.

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