O estudo errado da geração zapping

Meu objetivo, neste texto, é fazer uma análise sobre a maneira como muitos alunos estudam nessa era da internet: é o estudo errado do século 21

por Professor Nelson*

O ano era 1995, quando o cantor e compositor Gabriel, o Pensador, lançou a música “Estudo Errado”, pela qual ele criticava o sistema educacional brasileiro; porém uma crítica que era mais direcionada ao “conteúdo ensinado” aos meninos e meninas em nossas escolas. Por meio do “rapp”, Gabriel demonstrava sua revolta: “Decorei, copiei, memorizei, mas não entendi/ Decoreba: esse é o método de ensino/ Eles me tratam como ameba e assim eu não raciocino”. O cantor falava da obrigatoriedade em tirar notas apenas pra passar de ano, pois o conteúdo exigido não era algo necessário para o dia a dia, para a vida. Gabriel, de forma sarcástica, dizia “Mas eu prefiro que eles me ensinem alguma coisa que preste/ – O que é corrupção? Pra que serve um deputado?/ Não me diga que o Brasil foi descoberto por acaso!”. Este era o estudo errado da época! Pobre Gabriel, não sabia que o pior ainda estava por vir…

Quase nada foi feito pra melhorar o conteúdo e deixá-lo mais “concreto”. Os vestibulares começaram a priorizar mais a interpretação e o raciocínio, entretanto isso é muito pouco. E outra: aí está o grande problema “estudar por causa do vestibular”. O estudo deve acontecer pelo fato de se aprender, ampliar o conhecimento de mundo, desenvolver raciocínio, aperfeiçoar a comunicação. Mas isso tudo o Gabriel já criticou pouco depois de eu terminar o ensino médio. Meu objetivo, neste texto, é fazer uma análise sobre a maneira como muitos alunos estudam nessa era da internet: é o estudo errado do século 21.

Nossas universidades têm enfrentado uma situação paradoxal, pois é nelas que ocorrem as pesquisas teóricas e práticas nas principais áreas do saber humanístico, tecnológico e artístico; entretanto uma boa parte dos responsáveis por estas não estão capacitados para desenvolvê-las. É claro que há muitas pessoas extremamente competentes nas universidades. A situação paradoxal a que me refiro diz respeito aos quase 40% de universitários que são “analfabetos funcionais”. Isso significa que “quase 40%” dos universitários brasileiros são capazes de ler e escrever, todavia não conseguem interpretar e associar informações.

Esse número absurdo é consequência de vários fatores. Vamos falar sobre alguns. Além da Progressão Continuada – que na verdade é uma aprovação automática -, da obrigatoriedade de se estudar com o objetivo de passar numa prova e não o de realmente aprender etc., podemos falar sobre a influência da tevê, da internet (a pouca cultura do brasileiro que se deixa conduzir pela mídia e seus programas deseducativos; pela banalidade existente nas redes sociais…). Embora a tevê e a internet possam ser positivas para o desenvolvimento do ser humano, a falta de um alicerce educativo as transforma em antagonistas da ética, da virtude.

Essas duas mídias fizeram com que a sociedade supervalorizasse a imagem em detrimento da escrita e do pensamento. E mais do que isso, elas trouxeram ao homem a ilusão da possibilidade de buscar saídas de problemas sem a preocupação em solucioná-los. Como assim? A geração da internet vem recebendo o nome de “Geração Zapping”: assim como mudamos de canal quando não gostamos de algum programa, muitos usuários do mundo virtual, “zappeiam” (mudam de canal) quando se deparam com algum problema. A internet cria uma ilusão de que não é necessário enfrentar um problema, pois há várias outras possibilidades. “Abrimos um site e começamos a leitura de uma matéria, contudo, ao observarmos melhor, vemos que aquela matéria é muito extensa. O que fazemos? Já que a leitura requererá tempo e atenção, simplesmente deixamos de ler e procuramos uma matéria mais curta (e que também tenha imagens…)” – é assim que agem muitos jovens os quais nasceram conhecendo o computador, ligados no mundo das informações rápidas e globais.

Essa busca pelo caminho mais fácil, pelo caminho que não requer dedicação, esmero proporcionou um grave problema pedagógico. E não me refiro apenas à internet. Esse problema existe hoje em muitas escolas. A grade curricular é muito extensa para poucos anos de estudo (na verdade ela não precisava ser assim, pois muito do que se é trabalhado na escola deve ser estudado na universidade, na área que o jovem escolheu como profissão); além disso, o tempo se torna mais escasso pelas muitas horas perdidas com a indisciplina em sala de aula. A maneira que o aluno encontrou para estudar para a prova é a mesma da internet: o caminho mais fácil, mais curto; aquele que não exige muito tempo, não exige muita concentração. Esse caminho vai desde a leitura do “resumo” de um livro até o estudo rápido por tópicos.

Muitos jovens estão estudando errado! Eles se preocupam em copiar o que o professor passa na lousa de forma resumida, muitas vezes em tópicos, para, posteriormente, pouco antes da prova, estudarem, somente, por aquele conteúdo conciso. O aprendizado superficial é inevitável. Provavelmente esse aluno não prestou a atenção necessária na explicação dada pelo professor, uma vez que estava preocupado em copiar a matéria da lousa. Ao estudar pelo resumo, pelos tópicos ele não se aprofundou no conteúdo do assunto. Assim ele terá apenas um conhecimento superficial. E isso prejudica o aprendizado não apenas da disciplina “estudada”, mas também, a capacidade de interpretar e de escrever textos. Imaginemos o aluno adotando essa maneira de estudar desde o ensino fundamental. Ele ficará anos sem a prática da leitura. Aprender a ler, interpretar, escrever não ocorre simplesmente nas aulas de Língua Portuguesa. Esse desenvolvimento ocorre também na prática diária da leitura de outras áreas do conhecimento.

Essa forma de estudar faz com que o jovem termine o ensino médio com uma deficiência em interpretar, em produzir textos. E assim surge o futuro universitário analfabeto funcional, surge o futuro profissional diplomado, porém pouco qualificado para a profissão a ser exercida. Precisamos deixar o “jeitinho brasileiro” de lado. Chega de “zappear”! A dificuldade deve ser enfrentada! Soluções precisam ser encontradas! Vamos estudar corretamente: leiamos os livros, e não os resumos; estudemos pelos livros; façamos resenhas dos assuntos; questionemos; duvidemos; pesquisemos; conversemos, discutamos sobre os conteúdos; entendamos… E quem sabe um dia a música “Estudo Errado” de Gabriel, o Pensador, e esse texto sejam apenas objetos de estudo que falavam sobre uma pseudoescola pedagógica que deixou de existir…

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