Ah, esse verbo haver…

Saibamos usar não só o verbo haver, mas toda a nossa gramática nas mais variadas situações, sejam elas formais ou informais

por Nelson Letras*

Muitas palavras são polissêmicas, ou seja, possuem mais de um sentido. É o caso do verbo “haver”. Ele pode ser usado no sentido de obter, receber – houvemos notícias de sua chegada -; possuir – já houvemos muitos bens -; existir – há muita paixão nisso tudo -; estar em algum lugar ou situação – há alguém lá fora -; ter transcorrido – há tempos não falo com ela -; acontecer, realizar-se – houve muita diversão na festa -; julgar, considerar – a justiça não houve por verdadeira a inocência dele -; proceder socialmente – eles se houveram com cordialidade no jantar -; dar conta de – os candidatos houveram-se muito bem na prova -; prestar contas – quem não se comportar vai haver-se comigo -.Ele também é utilizado em construções como “há cerca de”, “haja o que houver”, e como verbo auxiliar que costumamos substituir por “ter” em nosso cotidiano – eu já havia (tinha) saído.

Professor Nelson é formado pela Unesp de Assis

Professor Nelson é formado pela Unesp de Assis

Mas não é apenas a polissemia que faz desse verbo algo a ser visto com mais atenção. Quando ele for utilizado no sentido de existir, de estar em algum lugar ou situação, de acontecer, realizar-se, ele é impessoal, não possui sujeito.

De acordo com a Norma Culta da Língua Portuguesa, nesses sentidos, o verbo haver não pode ir para o plural; ele deve permanecer no singular. Portanto frases como “haviam poucos deputados na sessão”, “houveram alegrias em minha juventude” estão erradas de acordo com a Gramática Tradicional. Nos dois exemplos, “poucos deputados” e “alegrias” não desempenham a função de sujeito na oração, mas sim de complementos dos verbos, de objetos diretos.

Na linguagem popular, é muito comum concordar o verbo haver aos complementos, entretanto a linguagem formal deve mantê-lo (nesses casos) no singular: “havia poucos deputados na sessão”, “houve alegrias em minha juventude”.

Um dos maiores sucessos do saudoso cantor Raul Seixas é “Eu nasci há dez mil anos atrás”. A música de 1976, apesar de seus 40 anos, ainda é muito conhecida até hoje; mesmo por aqueles que são mais jovens. Nela encontramos o nosso polissêmico verbo haver no sentido de “ter transcorrido”. Percebam que ele está no singular, ele não foi usado no plural “hão”, isso porque a ideia é a seguinte: que eu nasci faz (há) dez mil anos. O Raul estabeleceu a concordância imposta pela Norma Culta. Mas isso foi feito porque, nesse caso, a Linguagem Popular e a Norma Culta seguem a mesma regra gramatical, tanto que ninguém vai dizer “eu nasci hão muitos anos”. Porém o nosso querido Maluco Beleza transgrediu a Gramática Normativa ao usar o advérbio “atrás”. O verbo haver já está indicando um tempo transcorrido, assim utilizar o vocábulo “atrás” é ser redundante, falar o mesmo duas vezes. Esse vício de linguagem é muito comum na informalidade, e outra: se o Raul cantasse apenas “eu nasci há dez mil anos”, haveria uma perda na melodia.

Outra curiosidade é a forma que adquire esse verbo quando conjugado em determinados tempos. Quando o usarmos, referindo-o a uma ação já concluída, devemos dizer “eu houve, ele houve, nós houvemos”, e a uma ação futura hipotética “se eu houver, se nós houvermos”. O mesmo ocorre com seu verbo derivado “reaver”. Por isso as formas “eu reavi, ele reaveu” ou “se eu reaver, se nós reavermos” estão erradas. A conjugação deve ser a mesma do haver: “eu reouve, ele reouve”, “se eu reouver, se nós reouvermos”. Uma vez que essas maneiras são pouco usadas na linguagem do dia a dia, elas podem até causar um pouco de estranhamento, mas situações de formalidade exigem o uso como prescreve a Norma Culta.

Falando ainda sobre situações informais, não posso me esquecer de comentar sobre o verbo ter. A linguagem popular se aproveita do verbo ter no sentido de existir, de estar em algum lugar: “tem suspense no filme”, “tem muita gente no estádio”; todavia isso não é aceito pela Gramática Tradicional. Em situações que requeiram formalidade, não podemos usar o verbo ter, mas sim o haver: “há suspense no filme”, “há muitas pessoas no estádio”. E assim é nossa Língua Portuguesa, fascinante para uns, complicada para outros. O verbo haver é apenas um exemplo dos múltiplos usos que fazemos de/com uma única palavra. Haja o que houver, o importante é estabelecer comunicação, é compreender e ser compreendido. Saibamos usar não só o verbo haver, mas toda a nossa gramática nas mais variadas situações, sejam elas formais ou informais.

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