Educação democrática

Se o meio pode nos moldar, é claro que buscamos ambientes os quais possibilitem o nosso crescimento moral, intelectual etc

por Nelson Letras*

Ainda garoto, estudante do EECA, escola que já foi uma das melhores do país, meu professor de Língua Portuguesa, Oswaldo Guerreiro, pediu para que os alunos lessem a obra “O Cortiço” do maranhense Aluísio Azevedo. Por aquela leitura, pude compreender melhor como o ambiente influi no modo de agir das pessoas. Muito do que nós somos é fruto do cenário em que vivemos. É óbvio que também não podemos generalizar, pois, por exemplo, em meios de maldade, podem surgir, e surgem, pessoas que seguem o bem. Mas, voltando ao assunto “literatura”, por isso ela é tão fascinante: ela nos mostra, de forma prazerosa, algo que os livros de História muitas vezes não conseguem fazer: abrir nossa compreensão do mundo; entender sentimentos; visualizar aspectos da natureza humana sob ângulos até então ocultos por uma barreira que também é invisível.

Professor Nelson é formado pela Unesp de Assis

Professor Nelson é formado pela Unesp de Assis

Se o meio pode nos moldar, é claro que buscamos ambientes os quais possibilitem o nosso crescimento moral, intelectual etc. Assim os pais veem na escola esse lugar para uma boa educação dos filhos. Entretanto não são todos os pais que veem a escola desse modo. Começa a ganhar forma, em nosso país, um movimento, que já existe em outros lugares do planeta, chamado de “educação domiciliar”. Trata-se de os pais não colocarem seus filhos na escola, mas sim, eles mesmos serem os responsáveis pela educação “escolar” dos filhos. A alegação pela “transgressão” educacional vigente se baseia em inúmeras situações, seja pelo fato de crianças sofrerem bullying no ambiente escolar, seja por questões religiosas, morais, e até pelo simples fato de os pais desejarem mais envolvimento na criação dos filhos.

Alguns educadores, psicólogos são contra o “homeschooling”, expressão em inglês para designar a educação domiciliar. Eles alegam que as crianças passariam a viver numa “bolha”, pois não haveria contato com outras crianças, com situações que são necessárias para o desenvolvimento infantil. Também questionam a falta de compromisso social, pois, para eles, se há problemas na escola, os pais deveriam trabalhar para modificá-la, para resolver-lhe os problemas, e não simplesmente resolver a situação dos filhos, salvando assim apenas “a própria pele”.

A alegação sobre as crianças necessitarem de uma vivência com colegas de mesma faixa etária é muito fácil de ser rebatida, pois esse contato pode existir em outras situações, como, por exemplo, com amigos da vizinhança, com familiares, ou em locais como clubes, igrejas etc. Em circunstâncias desse tipo também pode ocorrer bullying, entretanto não se trata de uma imposição. Quanto ao “salvar a própria pele”, mudar toda uma instituição não é tão simples assim, uma vez que isso envolve muitas pessoas. A impressão que tenho é a de que aqueles que se dizem educadores e pensam assim, não fazem ideia de como está o ambiente escolar atual, vivem rodeados de teorias que estão muito, mas muito longe do que acontece na prática.

Como disse anteriormente, são muitos os motivos pelos quais alguns pais querem, eles próprios, educar seus filhos em casa, tirando-os da escola. Mas o mais importante consiste em querer participar mais da vida da criança. O método educacional de nosso país e também o sistema organizacional a que nos submetemos estão dificultando em muito a relação pai e filho (as crianças ficam o dia inteiro fora de casa – ou então no computador, celular, na internet – e os pais também, pois trabalham com o objetivo de dar o melhor para os filhos, assim não passam muito tempo com eles). E isso é prejudicial, pois dificulta o controle, a ordem, além do maior problema: o fato de não estar junto, oras!

Mas e quanto ao conteúdo? Como esses pais ensinam seus filhos? Antes de pensarmos em possíveis respostas, é bom analisarmos o conteúdo que a escola trabalha. Em muitos centros educacionais – além de toda a indisciplina discente, a qual impede os professores de realizarem uma boa aula – os alunos são submetidos a semanas de provas que cobram o conteúdo visto naqueles dias (se é que foi visto). Eles “estudam” para aquela prova, apenas para a prova… Tendo passado por essa avaliação, passa-se a outra matéria, ou seja, o conteúdo não é acumulativo. As crianças, os jovens são bombardeados por exames para tirar uma nota, mas, conseguindo esta, o conteúdo não é revisto; logo, em pouco tempo, ele é esquecido. Além disso, a maioria da matéria vista é desnecessária para vida (a preocupação é o vestibular), muito do que se ensina na escola, deveria ser ensinado na universidade, no curso para o qual ele é necessário, não na escola – e nessa bola de neve encontramos outro problema: algumas universidades não trabalham parte do conteúdo que deveriam trabalhar por afirmarem que seus alunos, como passaram no vestibular, já o sabem; portanto não seria necessário ensinar. Agora podemos pensar sobre a segunda pergunta “como esses pais ensinam seus filhos”: ainda que eles não tenham conhecimento profundo, podem estudar ao lado, com as crianças (seria mais um aprendizado para os pupilos: “aprender a aprender e a ensinar”). É claro que esses pais precisam de um tempo livre, precisam de certo conhecimento, e muitos devem, se necessário, recorrer a professores particulares.

Mas o fato é que o desenvolvimento intelectual da criança ocorrerá. Pouco importa se ela não conseguiu decorar algo que não usará na vida (e ainda por cima, esquecer-se alguns dias depois). O importante é que ela, muitas vezes, não precisará de alguém para explicar, pois ela aprendeu a buscar o conteúdo, a esforçar-se por compreendê-lo. Se formos avaliar o conteúdo aprendido pelos jovens na escola, devemos observar, por exemplo, o Exame Nacional do Ensino Médio, Enem, pelo qual constatamos que a maioria dos diplomados sabe sequer escrever um texto simples ou fazer operações básicas da matemática. A própria avaliação organizada pelo MEC prova que as escolas não estão conseguindo ensinar o que deveriam.

De acordo com a “Aned”, Associação Nacional de Educação Domiciliar (www.aned.org.br), existem aproximadamente duas mil famílias associadas ao grupo cujo objetivo é educar os filhos sem a necessidade da escola. Há alguns associados que se mantêm anônimos, com medo de uma denúncia e de terem algum problema com a justiça, pois, de acordo com esta, a prática da educação domiciliar é ilegal, uma vez que toda criança deve estar matriculada em alguma escola.

Em Brasília, já tramita o Projeto de Lei 3179/12, que propõe a inclusão da educação familiar na LDB, Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional; entretanto o Ministério da Educação se posiciona contra. Assim, os pais brasileiros se veem numa situação paradoxal, porque querem o melhor para seus filhos, mas o Estado os obriga a colocar as crianças em um lugar que está criando uma geração de individualistas os quais acreditam que o mundo é uma competição na qual você somente tem de ser melhor que o outro; individualistas que acreditam que podem tudo sem esforço (afinal não é preciso aprender para se formar); individualistas que não compreendem o significado da palavra “não”; individualistas que, quando chegam num momento importante da vida, o momento do vestibular, entram em pane, pois percebem que possuem pouquíssimo conhecimento e que, naquela situação, da qual depende seu futuro, precisarão se esforçar, precisarão aprender…

O Brasil é muito extenso, existem sim boas escolas em nosso país. Todavia isso não anula o fato de os pais poderem escolher o melhor para seus filhos. Se eles não querem que um ambiente o qual consideram ruim influencie suas crianças, eles devem ter esse direito. É claro também que deve haver um controle do Estado, um acompanhamento, uma avaliação periódica para que exista uma segurança de essas crianças estarem aprendendo. Contudo, nessa situação, surge outro paradoxo: se os alunos da educação domiciliar devem provar que estão adquirindo conhecimento, aqueles das escolas também devem fazer o mesmo; e eles fazem, essas avaliações existem, mas, como já disse antes, elas comprovam que a maioria dos alunos não está aprendendo. E este é mais um exemplo da pseudodemocracia em que vivemos: “quero o melhor para meu filho, mas não posso fazer, sou obrigado a vê-lo crescer sendo influenciado por valores negativos. E enquanto isso a novela das oito faz sucesso, o Faustão continua dizendo “Oloco, meu!”, o Pânico, o The Noite (e muitos outros) continuam ofendendo a sociedade com a ideia de aplaudir um falso politicamente incorreto, que na verdade é um bullying camuflado; e o facebook continua sendo um canal de valorização da imagem, de propagação de mentiras, de afastamento da realidade e de “kkkkk(s)”, que parecem ganhar vida e rir de toda a alienação”.

*Professor Nelson é formado pela Unesp de Assis

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