O Bairro abre às nove!

Botucatu foi uma das poucas cidades brasileiras beneficiadas com ferrovias

crônica de Chico Vilela*

A hora é agora; lembranças esmaecem e desbotam, e a memória dos mais velhos como eu vai se tornando aos poucos um tanto perdida em névoas. Após completar um ano de moradia em Botucatu, penso que seja a hora de partilhar algumas considerações com os leitores. Nada de discursos; apenas lembranças e reflexões amenas e leves, sem mais intenção que uma boa e simples conversa.

Num país que tem duas das maiores cidades do mundo (São Paulo e Rio), e grandes com 2 a 3 milhões (BH, Brasília, Recife, Fortaleza, Salvador, Manaus, Porto Alegre, Curitiba, Goiânia), e as médias andam por volta de 500 mil-1 milhão (Ribeirão Preto, Uberlândia, Uberaba, Campinas, São Luís), então Botucatu ainda é uma pequena cidade do interior de São Paulo.

Na listagem decrescente por população do IBGE de 2016, ocupa a posição de número 202, com 141.032 habitantes. Isso a indica como um espaço confortável: como dispõe de todos os serviços urbanos essenciais, gera-se um estilo de vida pacato, gostoso e macio.

Cheguei e me senti em casa. Nasci e cresci (nem tanto) na altíssima (chega a quase 3 mil metros nas Agulhas Negras) Serra da Mantiqueira, Sul de Minas. Mas as cidades, quase todas antes servidas por trens, moram na altitude média de 900 metros, medida na gare da estação. Há profusão de cachoeiras e belezas, e os montanheses têm costumes e jeitos lhanos, elegantes e respeitosos, como os montanheses daqui.

Por esses caminhos, não me surpreendi com o hábito no meu bairro de se dar bom dia aos passantes. Nem com ser chamado de senhor Francisco ou ‘seu’ Chico. Distribuo e retribuo bom dia e chamo todos de senhor ou senhora.

E aprendi que em Botucatu ninguém responde a um ‘muito obrigado’ com o tradicional ‘de nada’. Aqui ainda é comum o ‘deus lhe pague’ e fórmulas semelhantes. Mas a mais fantástica, e que virou costume da cidade e não só do bairro (já ouvi em muitos lugares), é a resposta, mais comum entre mulheres, que pode ser escrita ‘Imagine!’. Falada, vira o real ‘Magina!’ Muitas esticam o i e dizem ‘Magiiiiiina’. É dos costumes mais graciosos desta cuesta cheia de passarinhos.

Fiquei encantado, sim, com os nomes dos bairros: Vila dos Lavradores e Vila dos Ferroviários. O leitor há de entender: nasci numa estação de trem, Santa Helena; meu pai era o chamado ‘agente’ da estação, e cresci (…) em estações sul-mineiras; as estações tinham residências para as famílias dos agentes. Tenho imensa saudade do trem de ferro, seus vapores brancos e seus metais guinchantes.

Botucatu foi uma das poucas cidades brasileiras beneficiadas com ferrovias; aqui, a Sorocabana; a minha era a Rede Mineira de Viação. Foi, sim, em função do café, que viajava até o porto de Santos. Para pensar: (1) há uma opinião sobre transportes rodoviários de minerais, café, soja e similares. Carregar essas cargas em caminhões por milhares de quilômetros até os portos é o mesmo que distribuir água em barris na cidade de São Paulo. Ou então reviver o passado e levar a produção de milhões de pés de café nos lombos de tropas de milhares de mulas até seu destino. Impossível não concordar.

(2) por volta de 1900, havia na Europa inteira 250 mil quilômetros de linhas férreas. O país então mais rico e poderoso era o chamado EUA, que contava com 240 mil quilômetros de linhas, pau a pau com a Europa. O Brasil era ridículo neste aspecto. Piorou com Juscelino, que extinguiu as principais ferrovias e dedicou-se a abrir estradas de rodagem. Deu no que deu.

As tropas de bois, vacas e mulas, com milhares de animais, passavam pelo centro da cidade no seu caminhar para Sorocaba, que era o grande centro do comércio desses animais e de serviços correlatos: contratação de peões e boiadeiros, curtumes de couros, arreios e peças variadas, etc. Por isso, a rua principal era conhecida como ‘rua da bosta’, para alegria dos agricultores, que ganhavam de presente o melhor adubo natural. Botucatu era referência também da trilha conhecida como Caminho do Peabiru, de acesso a países latino-americanos.

A cidade é nova, e foi colonizada também, nos meados e finais dos anos 1900, por migrantes que fugiram das fomes, pestes e guerras européias. Vieram plantar muito café, e, por exemplo, uvas viníferas. Muitos italiani, chiaro; afinal, são dos povos mais queridos e integrados neste país tropical. E também árabes, em especial libaneses, germânicos, chineses, coreanos, japoneses, latino-americanos.

Mais encantado ainda fiquei com o nome popular do bairro: Bairro. Há o Jornal do Bairro, a Loja do Bairro; pergunto: onde o sr. mora, e tenho a resposta: moro no Bairro. Há muitos bairros nos mapas da cidade, mas, na alma do cidadão daqui, e agora na minha, há um só: O Bairro.

Há uma praça da igreja católica, de um quarteirão inteiro, e o sino bate as horas e, com uma só pancada, as meias-horas. A praça é cheia de árvores e bancos, em que velhos e mendigos (poucos, mas há) refestelam-se pelas manhãs, mas com cuidado. Há regiões em que os passarinhos se divertem em manchar as roupas e os cabelos e chapéus, ou carecas, com projéteis brancos que despencam como gotas de chuva. A solução é sair de baixo.

Falar em árvores, nunca havia visto um pé (em verdade, pés juntos) de caquizeiro, mesmo com infâncias vividas em cidades pequenas, cheias de casas com quintais. É uma árvore mágica. Em certa fase, perde todas as folhas, fica pelada, e sobram milhares de galhinhos. Imaginei que iriam secar e cair. Nem um. Até o dia em que vi um pássaro pequeno pousar na ponta de um galhinho e balançar. Os galhinhos são vivos, fibrosos, firmes, não iriam cair secos. Logo vieram as folhas, depois os cachos de frutos. Colhe-se até o meio da saia, depois nem escadas chegam, mais de 5 metros, e os passarinhos ganham um aeroporto com restaurante exclusivo.

Árvores implicam passarinhos. Entre os comedores de caquis, têm vindo muitos pica-paus carijó, que vi pela primeira vez. Têm a cabeça vermelha ou negra, o peitinho amarelado e as asas sarapintadas, como as galinhas carijó.

E no Bairro encontram-se raridades, como as ruínas da ferrovia e os leitos quase secos de outrora grandes rios. Outra raridade são os carros diários de som. Anunciam de tudo, liquidações, oportunidades, ofertas, novidades. O recente circo que aportou na cidade chegou a anunciar-se sonoramente de helicóptero, além de muitos carros chiques e importados pelas ruas.

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Há sons clássicos feito o do carro dos ovos. O mote é fixo, como o famoso mote da pamonha de São Paulo, que virou música, tema de filme e sei-lá-mais-o-quê: “pamonha, pamonha, pamonha / pamonha de Piracicaba / o puro creme do milho”. O nosso dos ovos também é saboroso: “ovos fresquinhô / ovos de qualidade / uma bandeja de 40 ovo por 10 real”.

E anunciam-se falecimentos, em que o tom solene acaba por trair seu recado. Fá-lê-cêu nés-tá-cí-dá-dê … E o carro vai falando e passando, e quase nunca conseguimos ligar os nomes dos falecidos com os horários de cultos, endereços e outros dados. Para uma dona de loja na avenida principal, a major Mateus, os dados vão se perdendo, e os nomes dos mortos morrem de novo em cada esquina.

Claro que há modernidades; a cidade é industrial, fabricam-se aviões e ônibus; e comporta universidades e empresas de tecnologia de ponta. Mas ainda restam rastros de tempos anteriores aos marketings e emebiêis da vida.

Foi uma alegria conhecer Ramón Dias, ou Diaz, talvez. Ramón toca e ocupa uma sapataria, uma portinha sem placa, em que não há arquivos, nem classificações, nem qualquer possibilidade de encontros dos serviços sem intensas procuras. A sapataria de Ramón lembrou-me a de Berinha, de Barão Geraldo (Unicamp), em Campinas, em que os calçados consertados são acondicionados em caixas e colocados em prateleiras, sem identificação. Mas Ramón supera Berinha em vasta margem. Guarda os serviços prontos em sacos plásticos, amontoados no chão ou em exíguas prateleiras, num espaço mínimo.

Foi curioso o primeiro encontro. Apresentei-me, perguntei-lhe o nome, e ele disse Ramón Dias(z). Soou-me espanhol, e indaguei sobre a origem. Ele deu uma bela risada e me disse: ‘Não, sou baiano mesmo’. Mais um morador querido do Bairro.

Como Ramón, muitos profissionais tradicionais existem e operam no Bairro: barbeiros, fotógrafos de papel, afiadores de facas e alicates, velhos farmacêuticos sábios, consertadores de jóias, açougueiros fabricantes de linguiças puras deliciosas, comerciantes de tudo o que não se oferta muito nas lojas, mas são vitais para os viventes. Filtros de barro, chapéus variados, ferramentas raras, bugigangas úteis, vasos e adubos, botinas, utilidades agrícolas, apetrechos especiais de cozinha, panelas de barro e ferro, miudezas infinitas.

O relevo da cuesta, em que, ou se sobe, ou se desce, explica as águas que correm todo o tempo ao longo das calçadas, já que as donas de casa lavam diária e obsessivamente varandas e garagens. E o relevo explica também o rio que passa em minha rua e em minha paulinha vida toda vez que a chuva é forte, fato que, aqui, é feijão-com-arroz, coisa de quase toda chuva.

Minha pequena rua é plana, como se fosse uma curva de nível no morro. As águas descem com fúria da morraria, mas se tornam rios ao encontrar ruas planas. A água chega a dar nas canelas, antes de invadir garagens e jardins.

Logo nos inícios de morador do miolo do Bairro, era inverno bravo, fui a uma compra às 8 horas e pouco, meio cedo. Tudo fechado. Seria um feriado, vai que eu não sabia… Mas as entradas das lojas e negócios estavam apinhadas de meninas e senhoras e raros rapazes, as moças encorujadas apertadas umas com as outras para se reduzir o tiritar do frio. Então, entendi: os trabalhadores chegavam antes, claro, e esperavam sentados nos degraus e escadinhas, no tempo.

Afinal, o Bairro só abre às nove.

Coda: os poderes precisam abrilhar os olhos para esses trabalhadores que chegam mais cedo, já que os horários de ônibus são restritos. Que tal abrigos com pias, sanitários, bancos e recursos para mantê-los quentinhos. Ou proteger com vidros os abrigos existentes. Ou então encarar a situação de que as meninas sentadinhas nas beiradas das lojas passam a ser moradoras temporárias de rua. E com chuva, vão para onde, némês…

*Chico Villela (72), é escritor e editor, escreve sobre Geopolítica e Política Internacional e atualmente realiza revisão de teses e monografias. Contato pelo e-mail [email protected]

**Os artigos assinados por colunistas não traduzem necessariamente a opinião do Notícias.Botucatu.

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