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OPINIÃO | A politização do simples depoimento

Ficou claro, mais uma vez, que os processos contra Lula são políticos com viés partidário

por Valdemar Pereira de Pinho*

O depoimento do Lula à Lava Jato foi classificado pela imprensa como o “combate do século”. As caravanas de milhares de pessoas de todas as regiões do Brasil que se dirigiram a Curitiba em apoio ao Lula foram acusadas pela direita de estar politizando o que seria um “simples depoimento” em um “processo normal”. Vamos analisar esse processo e verificar seus antecedentes e seu significado.

1 – A Lava Jato é uma hidra com muitas cabeças, cada uma com objetivos diferentes, mas com um objetivo geral comum. Uma das cabeças investiga um esquema de corrupção gigantesco, que tem sua origem em tempos remotos, pelo menos desde a construção de Brasília. Isso é fundamental no combate à corrupção.

2 – Outra cabeça delimita as investigações à época dos governos Lula e Dilma e aos partidos da sua base teoricamente “aliada”. E, nos seus três anos, e até delação do Léo Pinheiro, ignorou deliberadamente todas as delações envolvendo os governos anteriores e os partidos de oposição a Lula e Dilma. Sempre que isso foi citado os que faziam o interrogatório, inclusive o Moro, diziam que “isso não vem ao caso” e mudavam de assunto.

3 – Desde o início houve vazamentos seletivos de trechos de delações com afirmações sem provas, em sintonia com a imprensa golpista que “interpretava” e “carnavalizava” o que “significavam”. O Moro vazou, ou autorizou, ou sabe quem vazou e não fez nada. Eu fico com as três alternativas.

4 – O Dallagnol montou uma coletiva pra afirmar que o Lula é o chefe da quadrilha, com ilações e suposições, mas afirmou que não tem provas, mas tem convicção.

5 – O Moro determinou a “condução coercitiva” do Lula sem intimação prévia para depor (na verdade um sequestro) com fechamento da rua com forte esquema com armamento pesado. E com a Globo sendo avisada pra chegar antes da ação começar.

6 – Quando Lula foi nomeado pra Chefia da Casa Civil o Moro vazou pra imprensa amiga gravação ilegal de conversa entre ele e a Dilma. A conversa não tinha nada de comprometedor, mas foi a dica pro Gilmar Mendes proibir a nomeação, em um ato ilegal.

7 – Já o Aécio, foi ouvido (por apenas uma hora) discretamente, sem cobertura da imprensa e vazamentos. 8 – Às vésperas do depoimento do Lula a promotoria juntou ao processo um calhamaço de documentos da Petrobrás. A defesa havia pedido acesso a eles em outubro de 2016, negado por Moro, que também negou o adiamento da audiência para que a defesa tivesse tempo de analisá-los.

8 – Moro grava um vídeo pedindo aos seus apoiadores que não façam manifestações, isso depois do fracasso retumbante da manifestação nacional de 26 de março em apoio ao Moro e à Lava Jato. Se o juiz se coloca em um dos lados, quem vai julgar a disputa?

9 – Lula depõe por quatro horas. Ficou claro que não há nenhuma prova de que Lula seja proprietário do triplex. As perguntas foram sobre a opinião do Lula do por que das declarações ou documentos do Léo Pinheiro e outros, ao que ele respondia que deveria ser perguntado a eles. Sem ter nada em relação ao triplex, Moro e a Promotoria enveredaram por perguntas fora do objetivo da ação na qual Lula depunha. O sítio de Atibaia, ao que Lula respondeu que falaria sobre isso quando fosse esse o objetivo da ação. E a opinião do Lula sobre se o PT tinha investigado o mensalão. Como fossem insistentes, Lula lembrou que o mensalão foi investigado pelo MPF e STF e nada o incriminou. Mas que poderiam marcar um debate fora do tribunal para debater com eles todas as questões políticas.

Ficou claro, mais uma vez, que os processos contra Lula são políticos com viés partidário, com objetivo de condená-lo, sem provas, pra impedi-lo nas eleições de 2018. Os milhares que estavam na praça transformaram o ato em defesa de Lula em ato político contra o golpe, as reformas que penalizam a maioria da população e o Fora Temer. Nada mais adequado diante da tentativa de levar o Brasil de volta ao séc. 19. E aos Tribunais da Inquisição da Idade Média, movidos a convicções.

*Valdemar Pereira de Pinho é professor aposentado da Unesp e membro do Partido dos Trabalhadores, em Botucatu.

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