OPINIÃO | A queda de Temer, os dedos e o Sol

A maioria desse Congresso foi financiada por grandes grupos econômicos. Os dez maiores financiaram sete em cada dez deputados federais eleitos

por Valdemar Pereira de Pinho*

Há vários anos alguém escreveu, poeticamente, no mural do Centro Acadêmico da ESALQ: “O verdadeiro idiota é aquele que olha para o dedo quando você aponta a lua” No dia seguinte outro escreveu abaixo: “O verdadeiro idiota é aquele que olha para o sol quando você aponta o sol”.

As notícias sobre o envolvimento em corrupção de Temer, Aécio e outras figuras do PMDB e do PSDB, causaram perplexidade na maioria da opinião pública. Mais ainda por começarem na Globo e se espalharem para os órgãos de imprensa que só faziam carnaval se o denunciado fosse o Lula. Os blogs da direita atribuiram tudo a uma armação do PT. Uma fervorosa crente dessa conspiração escreveu no Facebook “Claro que sim, a JBS não é do filho do Lula? Aí tem!!” Haja crença.

Num primeiro momento houve certa perplexidade entre os analistas sérios. Por que os promotores e mantenedores do “estado atual” resolveram queimar o Temer e as principais lideranças do PSDB/PMDB? Quem são os que estão agindo e quais os seus objetivos? Se os promotores, procuradores e juízes já tinham há muito tempo todas as delações acusando os que estão sendo linchados, por que agora?

A maioria desse Congresso foi financiada por grandes grupos econômicos. Os dez maiores financiaram sete em cada dez deputados federais eleitos. A maioria deles foi financiado por mais de um grupo, através de doações legais e de caixa dois. Dos 10 maiores financiadores apenas algumas poucas empresas foram investigadas. Das demais os valores revelados são apenas de doações legais, sem caixa dois. Só a J&S, dona da JBS, destinou mais de 500 milhões de reais para financiar 1.829 candidatos aos legislativos e executivos. Para a Câmara Federal a JBS destinou 61,2 milhões e elegeu 167 deputados em 19 partidos. O Bradesco – 61,2 mi, 113 deputados de 16 partidos; Itaú 6,5 mi, 84 deputados de 16 partidos; OAS 13 mi, 79 deputados de 17 partidos; Andrade Gutierres 13 mi, 68 deputados; Odebrecht 6,5 mi, 62 deputados; UTC 7,2 mi, 61 deputados; e Queiroz Galvão 7,5 mi para 57 deputados; Vale 17,7 mi, 85 deputados; Ambev 11,7 mi, 76 deputados. Ou seja, 70% dos deputados receberam financiamento de pelo menos uma dessas empresas. Além disso, há bancadas da bala, da Biblia, do Boi, dos medicamentos, da comunicação etc.  A imensa maioria deles não É de nenhum partido, apenas ESTÁ neles. Fundamental uma profunda reforma política e partidária. Que não interessa à maioria dos políticos nem às empresas que detêm a propriedade deles.

Já foi dito e repetido que a cassação da Dilma teve e tem como objetivo principal a implantação de medidas que não seriam aprovadas numa eleição. O Temer é medíocre, incapaz de elaborar a proposta que está sendo colocada em prática. Ele é o Presidente de fachada, mas apenas faz o que lhe mandam fazer. Esse Congresso aprova o desmonte do Estado e a entrega do nosso patrimônio ao grande capital nacional e multinacional, com ou sem o Temer. Mas, com sua baixíssima credibilidade tornou-se um risco ao futuro do projeto que levou ao golpe. Vejam o crescimento do Lula para as eleições de 2018. Pra evitar isso vale tudo, até jogar os aliados pras piranhas, pra tentar recuperar a credibilidade do golpe e da Globo. Depois eleger nesse Congresso alguém “de confiança” enquanto a maioria do Congresso continua seguindo as ordens. Fundamental condenar o Lula rápido, com ou sem provas. Ou, se não conseguir, adiar as eleições para 2020.

E, como fazem os mágicos, manter os olhos da platéia nos dedos das marionetes ou cegados pelo sol. Pois os dedos que manipulam as cordas são invisíveis. Mas, relembrando Garrincha, falta combinar com os russos. Diretas Já!

*Valdemar Pereira de Pinho é professor aposentado da Unesp e membro do Partido dos Trabalhadores, em Botucatu.

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