OPINIÃO | A complexidade das soluções para o transporte coletivo

A atual configuração do transporte coletivo em Botucatu é o resultado da campanha eleitoral de 2008

por Valdemar Pereira de Pinho*

Nesta semana tivemos na Câmara Municipal uma Audiência Pública sobre Transporte Coletivo. Por iniciativa dos vereadores Rose Ielo e Carlos Trigo, foram discutidos os problemas ligados a essa política pública. Excelente iniciativa dos vereadores que teve apoio de entidades da sociedade na sua divulgação. Ficou claro, mais uma vez, que a organização do transporte coletivo eficaz, eficiente e a custo compatível com as possibilidades financeiras dos usuários, é um desafio aos governantes. A atual configuração do transporte coletivo em Botucatu é o resultado da campanha eleitoral de 2008.

O candidato vencedor das eleições propôs a concorrência entre duas empresas como solução para a eficácia e redução da tarifa. Mas, essa é uma solução viável? Com certeza, não. A solução implantada em Botucatu, como decorrência da proposta de campanha, tem duas empresas, mas não há concorrência entre elas. Cada uma é exclusiva nas suas linhas e horários. E a única coisa que poderia ser diferente era ter apenas uma empresa. O número de usuários em Botucatu inviabiliza essa solução. 

Valdemar Pereira de Pinho é professor aposentado da Unesp e membro do Partido dos Trabalhadores, em Botucatu.

Para que haja concorrência entre duas empresas elas precisariam atuar concomitantemente sobre os mesmos usuários. Concretamente, operar as mesmas linhas com horários semelhantes. Assim, cada passageiro poderia optar pela empresa A ou pela B dependendo de pontualidade, qualidade do ônibus, preço da tarifa etc. Isso é viável? Em São Paulo, com 12 milhões de habitantes, sim. Em Botucatu, com 135 mil, não. Vejamos: as duas empresas concorreriam pelos mesmos passageiros que antes utilizavam apenas uma. O cálculo da tarifa é feito através de uma planilha que calcula o custo médio do quilometro rodado, o percentual de lucro da empresa e o número médio de passageiros.

Para melhor compreensão, se todos os ônibus em todas as linhas rodam 10 mil quilômetros por mês e transportam 40 mil passageiros, temos um IPK (índice de passageiros por quilometro) de 4. Esse índice mais o custo do Km indica o valor da tarifa. Então, se eu tenho duas empresas transportando o mesmo número (ou pouco mais) de passageiros pagantes antes transportados por uma, a tarifa teria que custar aproximadamente o dobro, pois teríamos dois ônibus rodando nos mesmos horários em cada linha. Como os cálculos são feitos pelas médias, uma linha com muitos passageiros tende a “puxar” o custo da tarifa pra baixo, bem como uma linha com poucos passageiros a “puxa” pra cima. ePara que pudéssemos pensar em concorrência teríamos que aceitar dobrar a tarifa que já é bastante alta para a renda média dos usuários.

Então, não há como melhorar o transporte coletivo? Sim, há. Sempre lembrando que é mais fácil propor que fazer. Primeiro, voltar a uma só empresa. Assim teríamos o dobro de ônibus e de funcionários a serviço de todas as linhas, para remanejamentos quando necessário; a manutenção única iria racionalizar os custos; o equilíbrio entre linhas mais e menos rentáveis, também.

Segundo, rever a logística da organização. No final dos nossos governos (2001 a 2008 – Prefeito Ielo) a Prefeitura contratou uma consultoria de Curitiba, especializada em logística de transportes públicos, que trabalhou em conjunto com técnicos municipais, empresa concessionária e conselho de usuários. Após intensos estudos chegou à proposta de trabalhar com dois ou três terminais de integração e a maioria de linhas radiais curtas, ligando os bairros a um dos terminais. Assim, as pessoas poderiam ir de qualquer bairro a qualquer outro com integração nos terminais. Entre eles uma linha circular integrando-os e servindo à população do centro. Algumas linhas tronco longas seriam mantidas, com integração nos terminais. Pelo crescimento da cidade essa proposta deve estar defasada, mas não a sua concepção. Para bairros pouco populosos poderíamos trabalhar com veículos menores (com menor custo de manutenção), até mesmo vans, por que não?

*Valdemar Pereira de Pinho é professor aposentado da Unesp e membro do Partido dos Trabalhadores, em Botucatu

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