Festival de Inverno

OPINIÃO | Valeu a pena!

A missão foi cumprida. Tudo valeu a pena, sim. Cada minuto. Merecemos, Bauru, nós merecemos

por João Gabriel Falcade, do Linha Esportiva*

Don’t look back in anger. Das letras mais tocantes e bonitas da música mundial. Oásis, um clássico. Uma mensagem de grandeza, de orgulho e paixão. Como uma trilha de encerramento que divide espaço com as lágrimas que não se contentam em mostrarem-se vivas, mas que fazem questão de molhar cada palavra emocionada que esse texto reporta. Essa é a história cujo protagonista é o sentimento. Cujo fim, é agora.

Você fecha os olhos e perpassa por uma linha do tempo mental que vão reagindo à pele, à arrepios de dor e de gratidão. À mente, de supetão, vem 2015, vem a primeira grande chance do Bauru Basket ser dono do Brasil pela primeira vez. Havia no ar e no coração uma sensação de missão cumprida e alegria interrompida. Já era muito, já era histórico, mas precisava de mais. Cabia mais. Não seria tão já. Ficaria pra depois. A primeira dor.

Oásis canta que “Backbeat, the word was on the street.
That the fire in your heart is out”. Que o fogo em seu coração apagou. Fogo? Logo pra nós? O Dragão? Não. Inocência, descrença no que é fé. Não pra essa cidade que respirou basquete quando isso lhe soava pueril, um sonho de uma noite de verão qualquer, uma Monteiro Lobatice. Quem liga? O fogo viveu, ainda que escondido através da reticência, mas pronto para explodir.

Como Renato Russo, como João de Santo Cristo, o torcedor do Bauru Basket foi ao inferno pela segunda vez, viu de perto a cara da degola, do fim. Poderia o sonho ter sad end? Não era coisa para se descartar. Ficar cansado de achar resposta, de ver os porquês? Será que nunca vai acontecer? Flamengo, o algoz, a Winchester 23, mais uma vez. Esbarramos. O fogo, com vergonha, teve disposto a flertar com o fim. Flertou.

Pais e filhos, netos, amores e amizades. O clima habitual. Panela de Pressão, começo de tarde, uma bluzeira que tocava na Air Guitar, um recomeço. Sem os milhões da antiga patrocinadora, a cena parecia subir créditos e colocar fim em tudo. O por do sol, a última peça de imagem, reservava a luz no fim do túnel. Menos poderoso, o projeto se remonta com novos amigos, com novos personagens e antigos heróis. Em acordes lentos, uma nova temporada começava ali! O fogo no coração e a dedicação padrão. Havia um objetivo a se buscar. Uma missão que começou a muitos anos, precisava ser cumprida.

Cambaleante e com dedos julgadores e maldosos, o Bauru Basket agarrou-se ao que possui de mais bonito é fiel. Sua cidade. Pessoas que viveram o início, os meios e os insucessos, que enlouqueceram na alegria, que resistiram na dor e que estava ali, uma vez mais. Os mais velhos, Alex, Jeferson, os novos velhos, Léo, Gui, os que chegaram desacreditados, Valtinho, Gegê, Shilton. Os garotinhos Jaú, Maicão, Stefano, Gui Santos. O mestre Demetrius, dono da missão impossível de substituir a lenda Jorge Guerra. Todos com o peso desumano de não falhar, mas com os braços acalentadores da torcida mais sensacional do basquete brasileiro.

Rir do impossível. Um torneio absolutamente improvável, uma valsa de Boate Azul em que nada faz sentido e por isso mesmo leva um sentido mágico. Favoritos, os quatro primeiros colocados foram eliminados do NBB9. O Bauru teria de enfrentar o tri campeão Brasília. Zebrou. Passou. Dois a zero, desvantagem gigantesca diante do poderoso Pinheiros. Holloway. Será? Será que vamos conseguir vencer? Sim! A final do NBB, mais uma vez, bateu a nossa parte. Seria o terceiro inferno? Será que é tudo isso em vão? Oooooô ô ô, cantaria Renato. Bauru Ê Ô, cantamos nós. Não era só imaginação.

Vocês acham mesmo que essa narração épica de luta e êxtase acabaria de forma simples? Não seria digno. Não seria justo. Não seria o que nossa essência de Loucos prima. Que torcida é essa, aliás. Para chegar ao fim, uma virada histórica. Seriam necessárias três vitórias consecutivas. O adversário já havia batido o Bauru Basket dentro de nossos domínios. Água na Panela. Abalado? On fire. O empate foi tirado a fórceps e a coração. Carregados pelo caráter batalhador deste time cuja hombridade é coisa que jamais será esquecida, o quinto e decisivo encontro ficou marcado.

Antes de levar à epopeia essa história, cabe uma nota. Esse jornalista que escreve pra vocês, fez um trabalho universitário sobre esse time, há 3 anos. Viveu cada minuto dessa história, conheceu senhoras como Donas Arlete e Arlene, conheceu Seu Zé, que hoje levantou o troféu do NBB, conheceu a torcida Loucos da Central, que carregou o ginásio na garganta e na alma. Conheceu pessoas e coisas. Conheceu o Bauru Basket além das linhas. E, agora, mal consegue escrever tamanho é o orgulho, a satisfação, a sensação de dever cumprido e a emoção de poder, enfim, terminar um material com a conquista. Se há três anos o grito ficou entalado, o choro foi de tristeza, agora, nesse próximo parágrafo, será de alegria. É a redenção. É o ponto final da missão. O dia chegou.

Show must go on, a música que toca ao fundo. Queen para quem hoje é o Rei do basquete brasileiro. O quinto jogo foi uma sinestesia inexplicável. Quem viveu, sabe. É um acorde a 180 bpm. Não havia dentro daquele ginásio a chance de não dar certo. Todos sabíamos. Tudo o que se passou. Os sonhos, as chances, os fins, cara do céu, tudo. Olhem essa história. Essa cidade. Esse projeto. Aconteceu. O sonho aconteceu. Tudo parecia estar em câmera lenta. Um momento sobre-humano. Mágica. Taça. A missão foi cumprida. Tudo valeu a pena, sim. Cada minuto. Merecemos, Bauru, nós merecemos. E, com o maior orgulho do mundo, com as mãos trêmulas e com a alma lavada, termino esse texto: o Bauru Basket é campeão brasileiro de basquete. O Bauru Basket é campeão do NBB9.

*João Gabriel Falcade é jornalista, natural de São Manuel, apaixonado por esportes e um dos editores do site Linha Esportiva.

Artigo original em: http://www.linhaesportiva.com.br/valeu-a-pena/

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