OPINIÃO | Estudo da Prefeitura demonstra que empresa de ônibus teve retorno financeiro maior que o esperado

O CMTC viu-se pressionado contra a parede: de um lado era claro o sucateamento do serviço de transporte coletivo

por Daniel de Carvalho* e Gustavo Costa**

É fato que falar até papagaio fala, e todos já sabem claramente que papel aceita qualquer coisa, mas ao debruçarmos sobre o que vem de cima e não chega em baixo temos que muito se perde no limbo da burocracia sem que haja a devida análise ou esclarecimento.

Todos acompanharam a saga do trabalhador, estudante e todo usuário do Transporte Coletivo para que houvesse alguma dignidade no acesso à cidade e na garantia do direito ao transporte público – que é pago, e muito bem pago, diga-se de passagem. Rodas voando pela rua, carros pegando fogo, motoristas trabalhando também como cobradores, pontos de ônibus que deixaram de existir ou eram simplesmente ignorados, linhas novas e mais curtas que surgiam assim como as velhas que eram cortadas ou costuradas.

Entre vários problemas e a constante preocupação do cidadão e cidadã que necessitam pagar R$ 3,35 por viagem – valor semelhante às grandes metrópoles com trajetos muito maiores – a Comissão Municipal de Transporte Coletivo – CMTC, usuários voluntários eleitos pela população e que se reuniam frequentemente para debater como melhorar a situação, ouvia sempre que as empresas “estavam tendo prejuízo pois a cidade cresceu além do projetado no contrato, enquanto que o número de usuários caiu” – fato é que, sim, foi ignorado o número de terrenos e casas abandonadas na cidade para construir moradias mais distantes dos benefícios do grande centro, e estudos mostram que cada centavo aumentado na tarifa resulta em mesmo número, em porcentagem, de redução do número de usuários – o simples aumento de 5% da tarifa resulta em redução de 5% dos usuários, visto que o coletivo é o meio de condução da população mais carente da cidade. Qualidade, eficiência e confiança são essenciais para garantir clientes, não é?

Amarrados nessa sinuca desde 2015, em 2016 o CMTC viu-se pressionado contra a parede: de um lado era claro o sucateamento do serviço de transporte coletivo, e de outro era resposta consolidada a suposta falta de recursos para investir na valorização de serviço público terceirizado. O embate por esclarecimentos começou em janeiro do ano passado e em março deste ano houve resposta para o impasse: 14 meses depois veio à Câmara de Botucatu resposta do questionamento com um estudo para analisar essa questão.

Resultado: desde março – quando este estudo chegou à Câmara – até hoje, foi realizada Reunião Pública convocada pelos vereadores Rose Ielo e Carlos Trigo (PDT), tratando sobre a rescisão com as empresas contratadas anteriormente, e em seguida já foi lançada pela Prefeitura audiência para nova licitação, agora com apenas uma empresa contratada e previsão de aumento da tarifa para R$ 3,59.

Mas daquele estudo, o que foi aproveitado, daquela análise mais aprofundada contratada pelo valor de R$ 75 mil? O que ficou claro neste estudo é que a empresa Stadtbus teve retorno financeiro superior ao esperado em contrato, resultado contrário ao dito em reuniões anteriores.

Agora alguns vereadores da Câmara cobram explicações e defendem os interesses do cidadão e do Município. A Prefeitura manteve-se inerte durante todo este tempo, hoje conta com esta análise e assim mesmo reenvia proposta de terceirização semelhante à anterior sem qualquer garantia de que os pontos de fiscalização, qualidade e transparência sejam garantidos. O povo segue como gado gerando lucro para empresários que vivem sem qualquer pressão do poder público, agindo conforme seu interesse. O único fio solto nessa história, e que não há como averiguar sem uma CPI dos Transportes Coletivos, seria esclarecer o porquê da inanição do poder executivo frente a tamanho descaso da iniciativa privada.

Ser povo, hoje, é sofrido e ardido, diariamente bombardeado pela falta de respeito e reconhecimento de seu suor e luta para manter a cidade girando e se movimentando, e isolado cada vez mais do poder de decisão sobre as ações que guiam sua vida e seu futuro. Mas as coisas estão mudando. Apesar do interesse mal explicado de se repetir o ciclo, agora de forma ainda mais obscura sem ao menos um diálogo frente a este detalhamento e estudo, a população segue se unindo de forma autônoma e poderosa além destes interesses tão discutíveis. Crescerão fortes, unidos e visando colher frutos suculentos de uma luta que se torna irreversível: todo poder vem do povo e o povo ainda ditará os rumos de nossa cidade, e deste movimento a primeira pergunta que fica é: há necessidade de repetir este edital como o anterior sem que antes possamos esclarecer e garantir que nada disso se repita?

Só a luta muda a vida.

*Daniel de Carvalho – Presidente do Partido Socialismo e Liberdade – PSoL Botucatu, Conselheiro Municipal de Cultura, Membro da Comissão Municipal de Transporte Coletivo – CMTC, Estudante de direito e empresário.

**Gustavo Costa – Diretor do Núcleo de Estudo do Transporte Coletivo do PSoL Botucatu, especialista administrativo de mercado e membro da Comissão Municipal de Transporte Coletivo – CMTC.

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