OPINIÃO | Escolas sem Partido ou “Que tal ensinarmos latim nas escolas?”

Tudo, e sempre, começa e termina na discussão da educação que pode ou transformar ou doutrinar, libertar ou aprisionar

por Daniel de Carvalho* e Luiz Renato Sassi**

O medo e imposição com marteladas diárias por uma postura contrária às divergências, transpassa o olhar ingênuo do cidadão que em tudo só busca paz, trabalho e segurança para sua família. Enquanto há pressão por eficiência e controle dos gastos no dia a dia de sua vida, o trabalhador e estudante acompanha a elite política e econômica empenhando mundos e fundos gigantescos para enfraquecer posicionamentos divergentes de sua dinâmica de reis e plebeus para que possam governar inertes e imunes a todo escândalo que, blindados pelo medo do desemprego e insegurança, cala e sufoca a todos que não se beneficiam dos hábitos emplumados e mesas fartas dos castelos feudais.

Tudo, e sempre, começa e termina na discussão da educação que pode ou transformar ou doutrinar, libertar ou aprisionar, e aqui mora o maior risco, na força do livre pensar que alimentaria a coragem do povo em agir.

Daniel de Carvalho é publicitário e presidente do PSOL Botucatu

O que seria a tão falada, e pouco explicada Escola Sem Partido? Apesar de hoje insistirem que temas como “direitos humanos” e igualdade de gênero ou respeito à diversidade sejam um tema exclusivo à esquerda (a que ponto de debate chegamos, não!?), ela não diz respeito a não partidarização, mas sim à retirada do pensamento crítico, da problematização e da possibilidade de se democratizar a escola, esse espaço de partilhas e aprendizados ainda tão fechado, que precisa de abertura e diálogo.

Para uma parcela dos políticos, financiados pelo modelo econômico e social de castas ou eles próprios base desta estrutura secular, temos uma “doutrinação em massa” ocorrendo nas escolas via professores “esquerdopatas” que doutrinam os alunos no marxismo para construção de uma “nação comunista”… (MEDO! sempre escrito em caixa alta para parecer estar GRITANDO!!!) Uma opinião que talvez você já tenha ouvido em gravações do século passado ou retrasado, mas ressuscitado por canais modernos, em alguma página do youtube ou facebook. Com medo da liberdade de pensamento e da democracia plena que revelaria a cada estudante e cidadão o poder que há em suas mãos e no sucesso de suas lutas, os defensores dessa opinião dizem que os professores usam o espaço escolar para fazer proselitismo político, induzindo os alunos a seguirem determinada ideologia, mas sequer ousam comparar o que transmitem com o que é conteúdo exigido e previsto pelo Sistema Nacional de Educação, independente de sua orientação política.

Este discurso desde pronto já enfrenta sua primeira barreira, a da coerência com a verdade. A escola é um espaço onde ocorre parte da educação das pessoas. A escola sozinha não educa ninguém, ela contribui com a educação através da “escolarização”, onde as crianças e jovens se comunicam com várias culturas e conhecimentos de pessoas que receberam em suas casas uma educação diferente da que ela recebeu. Como na escola se encontram tantas pessoas diferentes, é de se esperar que exista o conflito de ideias.

Não existe uma visão única e absoluta da realidade e cada um vê o mundo a partir do seu ponto de vista. É a diversidade da sociedade que vemos refletida na escola, especialmente a brasileira fruto de uma mistura de culturas e hábitos de todo mundo, e o trabalho dos professores deve ser direcionado não apenas ao ensino de conteúdos, que é muito importante, mas também para fomentar o respeito às diferenças. Por sinal, os temas da sexualidade e da política são trazidos à escola pelos próprios alunos, e eles têm uma opinião a respeito desses temas devido tanto pela educação que receberam em casa como pela internet e TV.

Todo ser humano precisa na sua formação ter contato com a diversidade que existe no mundo, não é cabível que a escola dê uma formação estreita baseada em vícios e preconceitos que reflitam o interesse de uns enquanto outros seguem sofrendo oprimidos seja por não fazer parte desta casta privilegiada ou por não se enxergar, assim, participante desta sociedade engessada e rígida quanto à diversidade, ficando aprisionada à exclusão. Na escola se deve ter contato com o novo, o diferente, e aprender a se conviver com isso respeitando a diferenças. Já disse o patrono da educação brasileira, há 20 anos atrás: “creio que nunca precisou o professor progressista estar tão advertido quanto hoje em face da esperteza com que a ideologia dominante insinua a neutralidade da educação.

Desse ponto de vista, que é reacionário, o espaço pedagógico, neutro por excelência, é aquele em que se treinam os alunos para práticas apolíticas, como se a maneira humana de estar no mundo fosse ou pudesse ser uma maneira neutra. Minha presença de professor, que não pode passar despercebida dos alunos na classe e na escola, é uma presença em si política. Enquanto presença não posso ser uma omissão, mas um sujeito de opções. Devo revelar aos alunos a minha capacidade de analisar, de comparar, de avaliar, de decidir, de optar, de romper. Minha capacidade de fazer justiça, de não falhar à verdade. Ético, por isso mesmo, tem que ser o meu testemunho. ” Paulo Freire, Pedagogia da autonomia, 1996. Vinte anos se passaram e pouco se mudou em relação aos que mandam e doutrinam a sociedade. Já é hora de respeitar a educação para quebrarmos as correntes colonialistas em nome de uma sociedade justa com cidadãos realmente livres.

[Em nossa página no facebook, PSOL 50 Botucatu, você pode baixar da sessão LOJA o livro “A ideologia do movimento Escola Sem Partido”, onde 20 autores analisam essa proposta reacionária de controle pela opressão e censura a temas divergentes, democráticos.]

*Daniel de Carvalho – Presidente do Partido Socialismo e Liberdade – PSoL Botucatu, Conselheiro Municipal de Cultura, Membro da Comissão Municipal de Transporte Coletivo – CMTC, Estudante de direito e empresário.

**Luiz Renato Sassi – Secretário de Comunicação do Partido Socialismo e Liberdade – PSoL Botucatu, e professor.

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