OPINIÃO | Despertai o pior que há em ti

Na propaganda já nos habituamos à veiculação de anúncio “verossímil” com a expectativa do que teremos

por Daniel de Carvalho*

Nunca antes na história tanto foi dito que isso ou aquilo fora executado com tamanha precisão, alcance e eficiência. Que momento e que pessoas. As vozes e textos que são publicados nas páginas de rede social ou jornais, rádios e outdoors mostram que o que temos hoje nunca foi realizado com tamanha primazia e chiqueza, e não é de hoje, mas da vida, as famílias Doriana com seus sorrisos branquíssimos e roupa engomada, as obras faraônicas com jardins verdes e flores coloridas, os colarinhos brancos com manga arregaçada mostram o trabalhador por baixo daquela realidade de milionário, o abraço no jovem que agrega à imagem de sucesso, o peso da necessidade, transbordando da boa ação o projeto de sociedade igual e justa.

Na propaganda já nos habituamos à veiculação de anúncio “verossímil” com a expectativa do que teremos. Não podemos veicular um boneco do Superman voando sem o texto “este comercial está simulando voo. O boneco não voa”. Carros não se movem sozinhos, aviões não voam espontaneamente, cavalinhos e pôneis de pelúcia não bebem água. Parecido, sim, mas lucrar vendendo o imaterial seria ilegal. Varinhas mágicas que simulam magia também são grandes atrativos para crianças e válvulas de escape para a fantasia educativa em uma realidade paralela, na imaginação.

Mas a ciência e a arte da propaganda evoluíram muito para atingir este nível de trabalho responsável e consciente. No começo houve muita briga, duelos que gostaria de estar vivo para compartilhar, mas de lá só há história. Vender bonecos como se voassem, gera lucro. Vende mais. Que criança não quer um Superman como seu escravo? E aviões, então, voando sozinhos!

Nesta época onde em todo lugar o que existe é o medo e a preocupação com segurança, no combate ao crime sendo mais agressivo e intolerante do que o crime! Que cidadãozinho de bem não quer um jato que o proteja contra os “vilões” de seu universo!? Esta propaganda vem para completar a necessidade das empresas e empresários em facilitar a exposição de seu produto, de seus diferenciais, e assim facilitar sua apresentação ao mercado, mas o tempo e o respeito ao consumidor, ao suado dinheiro que ele teria que dispor para consumir seu sonho. Tem que estar claro: ELE NÃO VOA SOZINHO.

Além da fantástica vida animada dos bonecos e desenhos, temos a realidade prática com os vários objetivos a serem alcançados. Os mesmos que sonham comprar um fantoche que façam o infazível querem a ampliação no atendimento da saúde pública, sendo acessível e eficiente, mas seguimos aguardando o herói que prometa uma nova promessa e cumpra o que, na realidade, é incumprível. Aquele que amplie a educação através de uma nova forma e transforme os projetos de homens e mulheres do amanhã em realidade. A cada quatro anos temos a oportunidade de adquirir o desejado. Superman, Batman, Coringas, Lex Luthors. Grandes heróis e grandes vilões são apresentados, duelos gigantescos que criam asas e voam no imaginário são expostos ao limite nas capas de jornais e ondas de rádio.

Manchete vende. Neste momento há os que voem na propaganda, as que chegam em unicórnios alados sobrevoando a superfície, e aparecem para pedir o voto e sua força para representar seus desejos lá onde ela estará se eleita for. Educação, Saúde, Transporte, Habitação. Tudo será possível e, com estes, todo caminho leva seu direito ao senhor: “se em mim votar, rapidamente terá direito a uma casa; a evitar ficar doente, mas quando ficar, que seja atendido com respeito; que seja incentivado a usar a cidade com auxílio e apoio, com segurança e eficiência; a festa e toda alegria cultural estará aos seus pés, toda cidade colorida cantará unida pela perfeição que será esta nova realidade”.

Aqui tem que ficar bem claro: ELE VOA SOZINHO. É incrível a falta de paralelo que se faz pelos bonecos que lá estão entre esclarecer o que se consome e o que se tem, entre o que se promete e o que se entrega, entre quem teria poder e quem realmente se empodera a cada eleição. Para que o boneco-político chegue aos olhos do voto e força na urna, é necessária propaganda, visibilidade, fantasia, sorrisos no outdoor e promessas nos impressos, fotos retumbantes nas capas e presença certa nos eventos que gerem flash. Sempre há por trás do projeto de super-herói a certeza de que só será realizado o que beneficiar aos que sustentam esta propaganda, que paguem por esta divulgação e coloque o sistema que é apresentado por este mágico que tudo promete. Outdoor, banner, jornal, rádio, anúncio, TV, quem isso sustenta apresenta o que lhe interessa e seria vendável, lucrativo.

No produto “política” não há, e nunca houve, uma real democracia uma vez que são os bonecos que estipulam as leis que eles próprios devem seguir. O poder de orquestrar os objetivos da população nunca esteve de verdade nas mãos do “consumidor”, mas dos que sustentam a construção milionária desta fantasia do amanhã, da esperança de renovação que a cada eleição vem reforçada pelo mesmo rio de dinheiro, os mesmos canais de poder. Enquanto o cliente não for realmente o dono da moral e da verdade, não for nestes a base da ética e da conduta a ser respeitada como consumidores e produtores, como cidadãos e atores políticos, nada mudará. É necessário mudarmos os méritos dos heróis, não para os que são polidos e lustrados pelo dinheiro ou por aquele que investe no polimento e divulgação destes bonecos, mas sim no cidadão, na realidade e no real suor e sangue que é dado para consumir uma realidade que hoje está bem longe da promessa.

Todos sabemos perfeitamente o que voa e o que não voa, só é preciso lançar os sonhos ao ar.

Só a luta muda a vida.

*Daniel de Carvalho – Presidente do Partido Socialismo e Liberdade – PSoL Botucatu, Conselheiro Municipal de Cultura, Membro da Comissão Municipal de Transporte Coletivo – CMTC, Estudante de direito e empresário.

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