OPINIÃO | Deforma Política

O que está em votação agora em Brasília é, sobretudo, modo e meio de perpetuar a velha política de interesses particulares no poder

por Daniel de Carvalho*

“Que ilusão a minha, achar que quem detém o poder vai reformá-lo!”. Esse foi o desabafo de Giordano Bruno (1548 -1600), filósofo, frade dominicano e cientista, pouco antes de ser levado à fogueira pela Santa Inquisição.

Como, mais de 400 anos depois, ainda acreditar nessa ilusão!? A Lava Jato e outras investigações revelam a trama corrupta de muitos partidos e empresas, políticos e empresários, e nunca antes na história desse país tantos patrões e magnatas políticos ficaram tão expostos, vários deles – de vários partidos – encarcerados ou ameaçados seja em Brasília, São Paulo ou Botucatu, em todo país.

E vem agora a reforma das reformas, a Política. Hahaha! Este governo não foi eleito por nós, e não está buscando reconquistar o apoio político do povo com tais medidas, mas sim garantir que sua oligarquia mesquinha e corrupta não seja extinta da política nacional, Estado a Estado, Município a Município. O que está em votação agora em Brasília é, sobretudo, modo e meio de perpetuar a velha política de interesses particulares no poder. O “Detritão”, que ajuda na reeleição dos velhos caciques, figuras populares das colunas sociais, celebridades do show-biz, e dos bancados por igrejas neopentecostais ou mesmo tráfico e milícias, ou seja, ajuda quem tem dinheiro para publicidade e base propagandesca de campanha, acaba com a ideia de partido, de coletividade e de ideologia política.

O tal Fundo de Financiamento da Democracia, com um montante de R$ 3,6 bilhões para as campanhas, se somará ao Fundo Partidário, que este ano atingirá cerca de R$ 800 milhões – e o PSOL se insurgiu contra esses valores escandalosos que representam quase todo o orçamento do Ministério do Meio Ambiente (R$ 3,9 bi), bem mais do que o orçamento do Ministério da Cultura (R$ 2,7 bi) e do Esporte (R$ 1,4 bi). Supera em R$ 1 bi tudo o que foi destinado para custear o programa Farmácia Popular, em vias de extinção. E em 64% o previsto para os 370 mil bolsistas do CNPq, que, com o contingenciamento, podem não receber nada mês que vem. Quem a defende não busca financiar a democracia, mas o próprio interesse, o de sua casta e fortalecimento de seus conchavos!

Em 2015, o Supremo Tribunal Federal acabou com o financiamento empresarial das campanhas, fonte de corrupção, propinas e favorecimentos que vem sendo a base das investigações e prisões que hoje são capa dos jornais. Agora Suas Excelências querem que valores semelhantes aos gastos em 2014 sejam despendidos nas campanhas, só que bancados pelo Estado através deste Fundo.

Defendem a moral e a democracia, mas não conseguem pensar numa campanha austera, pé no chão, fundada em propagação de ideias e causas. Continuam a imaginar o mundo enganoso de coleta de votos através do marketing milionário, da compra de votos, da propaganda fantasiosa, as superproduções de TVs e Outdoors, e do apoio da estrutura dos mandatos vigentes para ancorar seus interesses no centro de todo curral que agora serão eternamente seus.

Eles não acreditam no financiamento cidadão nem consideram que os recursos públicos do Fundo Partidário são suficientes. Querem continuar comprando mandatos, só que agora exclusivamente com as altas somas de 0,5% da receita líquida da União. Ignoram o interesse social, o debate democrático pela construção inclusiva e justa de Brasil, e querem que voltemos todos aos modelos coloniais ou autoritários dos antigos regimes para assim se estabelecer no poder a qualquer custa. Não aprenderam nada.

Só a luta muda a vida.

Daniel de Carvalho – Presidente do Partido Socialismo e Liberdade – PSoL 50 Botucatu, Conselheiro Municipal de Cultura, Membro da Comissão Municipal de Transporte Coletivo – CMTC, estudante de direito e empresário, em diálogo à coluna do professor de história e deputado federal Chico Alencar – PSoL.

Para ler todos os artigos deste colunista, acesse o hotsite Botucatu Para Todos!

Deixe uma resposta