OPINIÃO | Ecomedicina e geografia médica

Atualmente, pouco valor tem-se dado aos estudos sobre ecomedicina e geografia médica

por Patrícia Shimabuku*

As transformações na natureza datam com maior magnitude e de forma contínua, desde que o homem deixou de ser nômade e passou ao comportamento “sedentário”, com o domínio das técnicas da agricultura, irrigação e domesticação de animais. As primeiras aglomerações (comunidades/clãs que posteriormente tornaram-se em cidades) foram no entorno dos rios e mares.  A partir daí, iniciaram-se os processos de interferências nas relações entre homem x meio ambiente x agente x vetor, sendo que, tais interferências levaram/levam ao surgimento/aumento/agravamento de doenças. O modo de ocupação, uso e a interação do homem com a natureza (de forma irresponsável) vão além da degradação ambiental, atingem as esferas de saúde, economia e das relações entre localidades e nações.

Os estudos sobre ecologia médica (medicina ecológica ou ecomedicina) iniciaram-se com Hipócrates em seu tratado “Ares, Águas e Lugares”, porém, só teve condições de se desenvolver após a comprovação das teorias de Darwin e Pasteur e, seu progresso vieram com as investigações epidemiológicas sobre o ciclo complexo das zoonoses no século XX. Em linhas gerais, é a ciência que estuda as doenças e seus fatores relacionados ao homem, ao meio ambiente e seus desequilíbrios.

Atualmente, pouco valor tem-se dado aos estudos sobre ecomedicina e geografia médica, no entanto, Hipócrates em 480 a.C, em seus estudos, já demonstrava a relação entre os fatores ambientais e o surgimento de doenças.

Poucos também, são os profissionais da área de saúde que recebem o devido saber sobre epidemiologia e, poucas são as bibliografias nacionais que tratam com profundidade este assunto. Segundo Ávila-Pires em sua obra, Princípios da Ecologia Médica, menciona: “em geral o homem declara guerra à doença, às pragas e aos parasitas, sem levar em conta, as organizações que as gerou, nem o papel que desempenham em seus ecossistemas.  Combate-se o efeito ou sintoma, mas não controla-se ou elimina-se a causa”. A medicina ocidental contemporânea compreende a doença como a relação entre o agente etiológico, alterações fisiopatológicas e seu conjunto de sinais e sintomas. O doente e seu ambiente “quando analisados” estão em segundo plano. A prioridade médica tornou-se a doença e não o paciente.  

Toneladas de substâncias químicas são despejadas na superfície do planeta, diariamente, de forma intermitente e muitas vezes cumulativa. Tais substâncias contaminam os finitos recursos naturais, alimentos, animais e a própria vida. A cada dia, os seres vivos estão cada vez mais, menos saudáveis, que é um paradoxo, se analisarmos todo o avanço tecnológico, científico e o acesso as informações. Além do respirar, a alimentação é uma das principais interações do homem com a natureza, sendo a sede por água, a dependência mais íntima.

O ser humano não está isolado do meio ambiente, por mais que ele não queira defender/conservar a natureza, em suas atividades econômicas, sua saúde e sua sobrevivência dependem, exclusivamente, dessa relação direta. Entender o processo saúde – doença em qualquer comunidade é mais importante, do que a visão simplista de descobrir sua etiologia e remediá-la. Se faz necessário, entender o ser humano em seu meio físico, biológico, comportamental, social e econômico e suas inter-relações. Esses fatores são determinantes e condicionantes na ocorrência/prevalência das doenças. A saúde pública tem uma proporção significativa nos orçamentos públicos e, a promoção da saúde e manutenção do meio ambiente ecologicamente equilibrado e saudável.

A globalização, queda das barreiras políticas, livre trânsito de pessoas, produtos, alimentos, animais, plantas são importantes. Estes processos são um avanço no processo civilizatório da humanidade, porém, não podemos omitir a sua contribuição para as chamadas doenças emergentes e reemergentes. Com um pouco de reflexão e estudo, as contribuições são claras e seus reflexos resultam nas alterações do padrão clássico da geografia da saúde e da doença (epidemiologia). Em alguns momentos, usam-se como justificativa a teoria miasmática (mal) disfarçada na concepção popular da poluição ambiental por fatores mesológicos, que na realidade é o relaxamento das ações de controle, monitoramento e fiscalização sanitária.

A ecomedicina e a geografia médica contribuem para as bases do entendimento dos mecanismos do processo saúde – doença. Visa o equacionamento das medidas gerais e específicas do controle racional das enfermidades. Essas ciências quando associadas às ferramentas de geoprocessamento e o georreferenciamento fornecerão subsídios assertivos para os programas de vigilância sanitária. Além disso, poderão ser o elo do reconhecimento e da conscientização sobre as consequências dos impactos ambientais.

Um exemplo de como a ecologia e urbanização contemporânea interferem na promoção de saúde é a destruição de áreas verdes (principalmente dentro do perímetro urbano), que consequentemente, levam ao desaparecimento de sapos, um dos principais predadores “naturais” do mosquito Aedes aegypti.

Reflita como a ecologia, geografia e o modelo de urbanização da nossa cidade interferem na sua saúde e qualidade de vida! 

* Patricia Shimabuku é farmacêutica industrial, professora e ativista socioambiental.

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