OPINIÃO | Crescimento das áreas impermeáveis e seus reflexos na rede de drenagem

Qual a dificuldade de se implementar sistemas de drenagem sustentáveis?

por Patrícia Shimabuku*

A ampliação de áreas impermeabilizadas no meio urbano, repercute na incapacidade de infiltração de água no solo, favorece o escoamento superficial, a concentração das enxurradas e a ocorrência de enchentes e inundações. Afeta, também, o funcionamento do ciclo hidrológico interferindo no rearranjo dos armazenamentos freáticos e na trajetória subterrânea das águas.

A carência de estudos detalhados sobre o comportamento da drenagem e do relevo local dificultam o planejamento e a gestão das bacias hidrográficas urbanas e rurais. Botucatu apresenta diversas áreas com relevo acidentado que em períodos de chuvas contribuem para o rápido escoamento superficial.  A falta de percepção do Poder Público, das Construtoras e da Sociedade sobre o papel da natureza, em especial aos “azuis urbanos”, conjugada ao uso do solo desordenado, aos diferentes processos erosivos e ao aumento das áreas impermeáveis provocam/provocarão sérias consequências (social, ambiental e financeiras).

As principais mudanças que ocorrem com a expansão urbana, em relação aos processos hidrológicos, são decorrentes do processo de ocupação. O solo passa a ter grande parte de sua área revestida de cimento/asfalto (como edificações, ruas, calçadas etc.), modificando o comportamento da água superficial. A porcentagem da água que infiltra é reduzida, uma vez que as novas superfícies são impermeáveis ou quase impermeáveis. Tais mudanças podem ser divididas em três fases:

FASE 1: corresponde à transformação do natural para o urbano inicial. Ocorrem a remoção da vegetação (descaracterização da paisagem natural) e a construção de casas, galerias e rede de esgoto. FASE 2: engloba a construção de muitas casas, edifícios, comércio, calçamento de ruas, acarretando diminuição na infiltração e aumento do escoamento superficial. FASE 3: corresponde ao urbano avançado, ocorrem muitas edificações residenciais e públicas, instalações de indústrias, aumentando o escoamento superficial, vazão, picos de enchentes, agravando alguns problemas já existentes e desencadeando outros no entorno da bacia e nas bacias vizinhas. Reflexos em toda rede de drenagem.

O recurso mais comum, em drenagem urbana, para o controle do escoamento superficial e das enchentes/inundações é a canalização dos cursos d´água (pluviais e fluviais). Ampliam-se as seções de escoamento e aumenta-se a velocidade das águas por diminuição da rugosidade, aumento do raio hidráulico e declividade. O volume das águas pluviais, ampliado pela impermeabilização do solo, dirige-se para o curso, alterando o regime fluvial e aumentando a amplitude das descargas locais. A velocidade do escoamento se eleva devido ao aprofundamento e ao alargamento do canal, com a redução de sua extensão e, muitas vezes, aumento do declive. Tais mudanças ocorridas nos canais fluviais, através de obras de canalização e construção de casas, associadas à falta de educação ambiental contribuem para graves impactos em toda a rede de drenagem. Não obstante, vários canais fluviais urbanos têm sido cobertos por placas de concreto. Os pequenos rios são geralmente ignorados. Muitas vezes, uma edificação é construída sobre um córrego que são aterrados, desviados ou canalizados sem qualquer critério. Os canais de primeira e segunda ordem somem debaixo de ruas e construções. Para a área da seção transversal dos cursos d´água não ser afetada pela urbanização é necessária que o total das áreas pavimentadas da bacia de drenagem seja inferior a 5% da área total.

 O resultado final das alterações supracitadas observamos em vários pontos de nosso município, seja através de inundações/enchentes, destruições de APPs e nascentes ou através de inúmeros processos erosivos.

Um exemplo ilustrativo destes conceitos técnicos com problemas pós-chuvas é a confluência do Córrego do Tenente com o Ribeirão Lavapés (próximo à rua Visconde do Rio Branco), onde a qualquer chuva mais intensa, a rua Independência vira uma “lagoa”. Grande parte da bacia hidrográfica do Ribeirão Lavapés está urbanizada (alta taxa de impermeabilização) colocando em risco suas APPs e nascentes, através de ocupações regulares e irregulares, canalizações diretas das águas pluviais. Já a microbacia do Córrego Tenente está parcialmente impermeabilizada, porém, há canalizações diretas das águas pluviais do entorno. A construção de um reservatório de amortecimento de águas pluviais, os chamados “piscinões”, está indicada como a solução para a área, no entanto, além de ser uma obra de alto valor, precisa de inúmeros estudos técnicos de curto a longo prazo para que realmente cumpra com eficiência, qualidade e segurança o seu propósito.

Mas, existem outras medidas mitigadores estruturais e não-estruturais com custos e manejo simplificados, que poderão ser tomadas pela gestão pública, construtora e sociedade, como por exemplo, valos de infiltração, bacias de percolação, pavimentos permeáveis, zoneamento e intensificação do gerenciamento do uso da terra, educação ambiental e aproveitamento individual (por lote) das águas pluviais para uso não-potáveis. Infelizmente, o processo de ocupação atual e os projetos desconsideram todos os estudos e técnicas sustentáveis. Cabe ao Poder Público, através da fiscalização, monitoramento e elaborações de editais que visão projetos de drenagem que respeitam toda a bacia e rede hidrográfica e, capacitar a sociedade sobre os modos de preservação dos cursos d´água no meio urbano (manutenção das APPs e nascentes, destinação adequada de resíduos e aproveitamento das águas da chuva). Medidas simples, menos onerosas aos orçamentos públicos e domésticos que necessitam somente, de vontade política e entendimento da sociedade.

Ficam aqui os seguintes questionamentos: Qual a dificuldade de se implementar sistemas de drenagem sustentáveis? Por que não realizamos projetos pilotos com sistemas de drenagem que consideram o comportamento hidrológico da bacia como um todo? Por que insistimos nos piscinões? Por que impactamos primeiro para “tentar” resolver ou “atenuar” os problemas socioambientais? Tantos estudos, tantos maus exemplos locais e ainda insistimos e replicamos os mesmos problemas em diferentes pontos do município.

Conceitos técnicos foram fundamentados no livro Impactos Ambientais Urbanos no Brasil, autor Antonio Jose Teixeira Guerra, editora Bertrand Brasil, 2004.

* Patricia Shimabuku é farmacêutica industrial, professora e ativista socioambiental.

Para ler todos os artigos da colunista, acesse aqui.