OPINIÃO | O que temos a ganhar com o desenvolvimento turístico?

Sabemos também, que o turismo botucatuense, não gira em torno somente dos encantos da Cuesta

por Patrícia Shimabuku*

Para ler este texto e responder à pergunta, precisamos deixar as paixões políticas (legendas), mágoas e frustações que nos assombram sobre todas as tentativas de desenvolvimento turístico em nossa cidade.

Acredito que todos, dentro de suas capacidades, contribuíram e foram contribuições importantes. Tais contribuições que fizeram Botucatu ser reconhecida além de seus bons ares, boas escolas e indústrias, mas sim, por suas belezas e encantos.

Então, por que o turístico botucatuense não evoluiu?

Por inúmeros motivos, porém, o mais responsável deles, foram os esforços individuais sem o suporte do coletivo. Não se planeja e não se faz turismo sozinho. O gerenciamento turístico sem considerar uma rede de serviços (privados e públicos) será um fracasso. Poderá ser forte por uma temporada, mas não terá “vida longa”. Se você tem dúvida, da relevância da rede de serviços, faça o seguinte exercício mental: quando você planeja uma viagem de férias ou de negócios, o que você pensa? Qual o caminho (carro, ônibus e/ou avião)? Onde comer? Onde dormir? Quais atrações interessantes o local de destino possui? Ah, dependendo da situação, se o destino é seguro e como é a rede hospitalar!

Refletir e considerar o turismo para Botucatu não é uma questão de “capricho econômico”, mas sim, uma questão sustentabilidade, na verdadeira essência dos pilares do seu conceito (social, ambiental, econômico e cultural). Desenvolver o turismo local é estratégico, além de ser uma questão de respeito com as presentes e futuras gerações. Além de necessário é uma questão de decência. Vou explicar os porquês.

Primeiro ponto, grande parte do território da cidade (proximidades dos setores leste – norte, genericamente) está no entorno do monumento geomorfológico importantíssimo, a Cuesta Basáltica. Assunto abordado em diversos momentos nesta coluna e, não deixarei de considerá-lo em textos futuros. A tal Cuesta Basáltica nos proporciona belezas cênicas e paisagísticas, com seus inúmeros mirantes e cachoeiras inesquecíveis, além que de ser a guardiã (e recarga), do mais importante manancial de águas subterrâneas, o Sistema Aquífero Guarani. Porém, estes territórios não pertencem a Prefeitura (não são públicos), são de propriedades particulares. Uma questão que gera inúmeros conflitos econômicos (uso e ocupação, como por exemplo, empreendimentos como loteamentos) e reflexões técnicas-científicas oriundas dos ambientalistas (vistos muitas vezes como problemas, por “lutarem” pela conservação do território com viés de sustentabilidade e coletividade. Nem todos os discursos ambientalistas são radicais, alguns abordam o desenvolvimento ecológico-econômico. Pare para ouvir e reflita).

Não seremos ingênuos, hipócritas e irresponsáveis. Sabemos das responsabilidades legais que os proprietários destas áreas de fragilidade e importância ecológica possuem. Muitos querem retorno financeiro das mesmas, um direito legítimo. Vivenciamos (e infelizmente será por um período longo) momentos de instabilidade econômica e política. Todos estão à procura de maneiras de como superar o período de crise econômica. E aí, temos a especulação imobiliária associada ao déficit imobiliário (estimado, não caracterizado e estimulado/moeda de troca nos períodos eleitorais) como única vocação e imediata saída econômica para o proprietário. Que no primeiro momento poderá ser uma alternativa viável e segura financeiramente, porém, suas consequências futuras demandarão esforços financeiros, jurídicos e técnicos-científicos de alto nível. Uma das soluções deste problema (econômico x uso e ocupação) será o Turismo mediado pela gestão pública.

Sabemos também, que o turismo botucatuense, não gira em torno somente dos encantos da Cuesta. O nosso município é um dos mais completos, em nível regional e nacional. Podemos encontrar e desenvolver as diferentes segmentações turísticas, além do ecoturismo e o de aventura, como: rural, religioso, náutico, industrial, científico, gastronômico e cultural. O município está geograficamente em uma posição privilegiada, região central do Estado, com acesso às principais rodovias estaduais, além de estar próximos aos principais aeroportos e da capital.

O que nos resta concluir é que falta, somente, vontade política municipal para organizar, buscar recursos em outras esferas políticas e estimular a iniciativa privada, porque recursos turísticos e uma demanda não quantificada o município possui. Então, por que as gestões públicas (anteriores e a atual) não possuem ações efetivas quando se trata do desenvolvimento turístico local? Movimentações e ações sutis existem, mas parecem ser sempre superficiais.

Reforço que o turismo é o único segmento econômico inclusivo e colaborativo, uma atividade econômica com implicações políticas, sociais, ambientais e culturais. Sua ascensão e prosperidade dependem de um gerenciamento com o envolvimento harmônico dos três setores (Poder Público, Inciativa Privada e Sociedade Civil Organizada). O Poder Público (Executivo e Legislativo) é o grande fomentador e articulador, através da busca de incentivos, como a obtenção do MIT (título de Munícipio de Interesse Turístico e a inclusão do município no Mapa de Regionalização Turística, movimentos importantes para o recebimentos de incentivos financeiros para o desenvolvimento turístico local), criação de leis municipais de regulamentação das atividades turísticas, além de fiscalização de atitudes que degradam o meio ambiente (como o descarte inadequado de lixo, atividades que provocam assoreamento de recursos hídricos, destruição de APP e processos erosivos), criação e divulgação de um calendário turístico, etc. A iniciativa privada nos estudos e reflexões de como fortalecer os diferentes segmentos (hotelaria, gastronomia, empresas de turismo receptivo, entre outros serviços como farmácia, postos de combustíveis, etc.). Já a Sociedade Civil Organizada poderá contribuir com as ações de educação ambiental turística bem como com diversos estudos científicos existentes sobre as vocações de uso e ocupação mais adequadas das áreas de importância e fragilidade ecológica. Sem falar no papel fundamental dos conselhos municipais (turismo e meio ambiente).

O turismo em Botucatu será a garantia de geração de emprego, distribuição de renda, melhorias de infraestrutura, conservação do patrimônio ambiental, aumento na arrecadação de impostos e atração de investimentos externos que tanto a cidade necessita. Será o gerador de desenvolvimento local, permitindo o aproveitamento de setores ociosos e inserindo a população na rota da rentabilidade. Com o turismo, a gestão pública “criará uma cidade agradável” tanto para receber o turista quanto para melhorar a qualidade de vida do cidadão que o elegeu.

Por fim, se existem linhas de incentivos financeiros públicos para o desenvolvimento turístico local, como a obtenção do título de MIT ou Estância turística, quais os passos que o município deverá cumprir? A gestão municipal e demais envolvidos estão dando o devido valor para exigências legais que os títulos cobram? Não estamos atrasados, em comparação com os outros muncípios paulistas,  na busca do título de MIT?

* Patricia Shimabuku é farmacêutica industrial, professora e ativista socioambiental.

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