OPINIÃO | O que são afinal os estudos de gênero?

Os estudos de gênero, desde sua origem e em suas diferentes perspectivas, assumem o compromisso de problematizar as relações violentas.

por Ana Paula Brancaleoni

Confusão instalada! Viveríamos tempos em que pessoas mal intencionadas teriam construído falsas ideias para “destruir a família”, “confundir crianças” e produzir adultos “desviados, doentes e perdidos”? Ideias impostas que seriam capazes de produzir pessoas amorfas que não sabem mais se são homens ou mulheres? Estaríamos fabricando transexuais, homossexuais e todo tipo de “transviados”? A Universidade, comunidades acadêmicas, movimentos sociais, organismos nacionais e internacionais de reconhecido compromisso com a promoção dos Direitos Humanos, teriam então estabelecido um conluio de mentiras para deformar a família, as crianças e jovens brasileiros? Descrito dessa forma parece pouco provável que de fato acreditássemos nessa possibilidade. Contudo, através de elaboradas estratégias midiáticas, pautadas na promoção do medo entre a população, vimos crescer nos últimos tempos a crença de que estaríamos sendo submetidos a uma “ideologia de gênero”, termo especialmente cunhado para difundir pânico, desinformação e preconceitos.
Impõem-se, então, a pergunta: a quem serve essa falácia? Antes de respondermos, vale-nos um brevíssimo percurso pelos estudos de gênero. O gênero como conceito surgiu em meados dos anos setenta e se disseminou nas Ciências Sociais a partir dos anos 801. Surgiu com o intuito de traçar uma distinção do sexo como categoria de análise articulada à biologia e a uma abordagem essencialista da natureza. Através da categoria gênero visava-se contemplar a dimensão de construção histórica, social e política do ser homem e ser mulher. Inicialmente a categoria foi acionada de forma binária para se referir e problematizar a diferença entre homens e mulheres. Posteriormente, os estudos de gênero também passaram a incluir a busca pela desconstrução de binarismos que atribuem lugares fixos e naturalizados para os gêneros e que se mantêm atrelados, ainda, a visões essencialistas do ser mulher e ser homem.

Os estudos de gênero, desde sua origem e em suas diferentes perspectivas, assumem o compromisso de problematizar as relações violentas. Apresentam um papel fundamental nas Ciências Humanas e Sociais de denunciar estruturas de opressão colonial, econômica, geracional, racista e sexista que operam em nossa sociedade há séculos. Não se tratam, portanto, de um ataque à família brasileira, mas sim de reflexão sobre um dado modelo patriarcal no qual são reproduzidas relações de opressão às mulheres, crianças e a todos os que não se enquadram no modelo heteronormativo estabelecido. Dessa forma, a preocupação essencial é construir referências que colaborem para relações mais respeitosas, menos violentas, em que caibam a alteridade2.

Mas em que contexto tais estudos ganham ainda mais relevância no Brasil? Cabe relembrarmos aqui alguns dados alarmantes que fazem inclusive com que o país se configure aos olhos de organismos internacionais, como merecedor de especial atenção no que se refere ao fomento de políticas que tenham a questão do gênero como o foco. O Brasil fulgura como o campeão mundial de mortes de travestis e transexuais. Registra-se também que a cada 25 horas uma pessoa é barbaramente assassinada, vítima de “LGBTfobia”3. Além disso, os jornais anunciam diariamente casos de violência contra a mulher, muitos que culminam em feminicídio, atingindo-se a fabulosa quinta posição mundial em registros de assassinatos que têm como motivo do crime o fato exclusivo das vítimas serem mulheres4.

Nas escolas, assiste-se a um sistema “heteroterrorista” em que se visa produzir corpos e sujeitos binariamente organizados, tendo como sina o script previsto para todos que possuem aquele dado genital de nascimento.  Essa redução em si, já é violenta, mas torna-se ainda mais para aqueles que não se enquadram aos ditames. Para esses a sorte é muito ruim. São violentados e muitas vezes expulsos da escola5.

Mas se o quadro é este tão sério do ponto de vista, inclusive, da garantia do direito a vida, por que se contrapor aos estudos que problematizam as raízes que favorecem e sustentam essas violências? É que de fato ao problematizar as desigualdades, opressões e violências de gênero questionam-se relações de poder que sustentam a sociedade patriarcal e machista brasileira. Em uma sociedade em que as elites desejam o Estado cada vez mais “enxuto” no que se refere ao atendimento das demandas sociais de educação, cuidado, saúde e assistência, não é conveniente permitir a expansão do questionamento das violências que estão na base do mesmo sistema; sejam contra mulheres, contra “bixas”, “sapatas”, “trans”, pobres, negros e crianças. É necessário, inclusive, manter os mesmos convencidos de que sua emancipação desagradaria aos céus e instauraria a danação e a desgraça no mundo terreno. Destarte, conservar as estruturas tais como são pressupõe a oposição a estudos que favorecem a emancipação de grupos oprimidos. Logo, os estudos de gênero serão mal quistos em um contexto em que se prima pela manutenção de relações de privilégio e dominação.

Referências
1. RUBIN, Gayle.O tráfico de mulheres: notas sobre a economia política dos sexos. Tradução de Christine Rufino Dabat. Recife: SOS CORPO – Gênero e Cidadania, 1975
1. SCOTT, Joan. “Gender: Useful Category of Historical Analysis”. American Historical Review, v. 91, n. 5, Dec. 1986. p. 1053-1975.
2. MATOS, Marlise. Teorias de gênero ou teorias e gênero? Se e como os estudos de gênero e feministas se transformaram em um campo novo para as ciências. Estudos Feministas, p. 333-357, 2008.
3. GRUPO, GAY DA BAHIA. Assassinato de homossexuais (LGBT) no Brasil: Relatório 2014. Salvador: Grupo Gay da Bahia, 2016.
4. AGÊNCIA PATRÍCIA GALVÃO. Dossiê de Violência de Gênero na Internet. Disponível em: Acesso em: 16 de novembro de 2017.
5. BENTO, Berenice. Na escola se aprende que a diferença faz a diferença. Estudos Feministas, v. 19, n. 2, p. 549, 2011.

Ana Paula Brancaleoni possu graduação, mestrado e doutorado em Psicologia. É docente Programa de Pós-graduação em Educação Sexual (Mestrado profissionalizante) da Unesp/Araraquara e do Programa Multidisciplinar Interunidades de Pós-Graduação Strictu Sensu “Ensino e Processos Formativos” (Unesp São José do Rio Preto/Ilha Solteira e Jaboticabal). É membro do Psia – Laboratório de pesquisas e intervenções em Psicanálise. Atua nas áreas de Psicologia Clínica e Psicologia Social. Realiza atividades de pesquisa e extensão especialmente ligadas aos temas: sexualidade e gênero.