A falha na comunicação do Centro de Saúde Escola

Longa fila por agendamento de consultas no Centro Saúde Escola ocasionou transtornos a centenas de pessoas

por Karina Sant’Anna*

Segunda-feira, 04, primeira semana de dezembro de 2018. A temperatura máxima em Botucatu chegou a 27ºC. O dia estava ensolarado e bonito, céu azul com poucas nuvens. Às 8 horas da manhã eu saí de casa para comparecer ao posto de saúde mais próximo e fazer agendamento de consulta com o médico clínico geral, a fim de fazer um check-up em 2018. Para minha surpresa, cheguei à Rua Floriano Simões, em frente ao número 16, estava no fim da fila do Centro de Saúde Escola (CSE) – esta rua fica em cima da Rua Gaspar Ricardo, endereço do CSE. Antes de ocupar o meu lugar na fila comuniquei à senhora em minha frente que iria dentro do posto para saber se o agendamento seria só naquele dia, ou se poderia voltar amanhã para marcar consulta. Fui à recepção e uma moça jovem com um jaleco branco me atendeu:

– Bom dia! Lá fora há uma fila enorme, só pode marcar consulta hoje ou posso voltar amanhã? Perguntei.

– O agendamento de consulta é a partir de hoje, estaremos agendando enquanto tiver vagas, assim que acabar as vagas não terá mais agendamento de consulta. Respondeu a funcionária pública. Voltei ao meu lugar no fim da fila, comuniquei aos colegas o que ouvi. Os senhores, a maioria idoso, responderam em conformidade. “Sim, é todo ano assim. Tem que madrugar na fila para conseguir vaga para o início do ano que vem e é bem possível, que muitos aqui só consigam para março, maio…” Bom! Aquela altura já eram umas 8h30 da manhã, conformada fiquei esperando ser atendida. Na fila havia centenas de pessoas: idosos, jovens (bem poucos), mulheres grávidas, mulheres com crianças de colo em pé, embaixo do sol quente. Alguns sentados na calçada ou em banquinhos improvisados com latas de tinta.

Fila na rua Gaspar Ricardo

Por volta das 9 horas passou uma ambulância em direção à rua do posto de saúde, uma senhora idosa havia passado mal em pé na fila, por causa do sol muito quente e porque estava há horas sem se alimentar. Às 10 horas da manhã o vereador Abelardo chegou ao Centro de Saúde Escola, entrou para conversar com os funcionários públicos e interceder pelo povo da fila. Ele tinha sido avisado da situação porque um dos populares ligou para o celular dele para denunciar o sufoco dos pacientes. Minutos depois um homem saiu do posto de saúde com um rolo de senha e distribuiu 373 senhas. Para as pessoas que pegavam números muito à cima de 150 ele pedia que fossem embora, voltassem para casa, que buscassem descansar e se alimentar. Muitas pessoas decidiram ficar esperando, crentes que ainda naquela manhã poderiam ser atendidas.

A orientação do CSE foi que naquele dia, todos que receberam senhas seriam atendidos e poderiam marcar consulta até as 17 horas, quem não tinha conseguido pegar senha deveria voltar no dia seguinte bem cedinho. De repente chegou o carro de reportagem da TV Tem – filial da Rede Globo. Ele tinha sido acionado por um dos populares que queria denunciar a situação. O repórter entrevistou umas três pessoas que estavam na fila, algum tempo depois duas profissionais da saúde foram conversar com o repórter pediram para que ele fosse lá dentro do posto fazer imagens e colher o depoimento da responsável. As 11h30 eu saí da fila porque tinha uma consulta inadiável em Rubião Júnior, subdistrito de Botucatu.

Fila na rua Gaspar Ricardo

Falta de informação completa

Todo esse transtorno com a população de pacientes do Centro de Saúde Escola poderia ter sido evitado se a atendente na recepção tivesse dado a informação completa. Dizer que o agendamento começaria naquela segunda e aconteceria enquanto houvesse vaga é um comunicado muito vago, o que foi responsável por fazer as pessoas madrugarem na fila do CSE, receosas em não conseguir atendimento para 2018.

Porque não orientar de forma clara e precisa? Com um comunicado geral que avisasse a população quando o agendamento de consultas começaria e quando terminaria e, ainda, quantas vagas existem no total. Isso certamente teria evitado toda a confusão e as pessoas teriam a chance de se organizarem melhor.

Lei do atendimento Preferencial

Algo que gerou muita indignação foi o desrespeito com os idosos, trabalhadores que contribuíram uma vida inteira, com a economia brasileira se veem obrigados a passar por uma situação de intenso desconforto para conseguir atendimento médico e cuidar da saúde. No Brasil há a lei nº 10.048 sobre o Atendimento Preferencial:

– Art. 1º As pessoas com deficiência, os idosos com idade igual ou superior a 60 (sessenta) anos, as gestantes, as lactantes, as pessoas com crianças de colo e os obesos terão atendimento prioritário, nos termos desta Lei. (Redação dada pela Lei nº 13.146, de 2015) (Vigência)

– Art. 2º As repartições públicas e empresas concessionárias de serviços públicos estão obrigadas a dispensar atendimento prioritário, por meio de serviços individualizados que assegurem tratamento diferenciado e atendimento imediato às pessoas a que se refere o art. 1º.

Fila na rua Floriano Simões

Tendo em vista esta lei, porque um cidadão se sentindo desrespeitado com o serviço público de saúde telefona para um vereador? É certo, e de conhecimento da população, que há uma lei punitiva para quem desacatar funcionários públicos. Essa pessoa pode ser obrigada a pagar multa ou sofrer reclusão por 6 meses a 2 anos. Mas e os servidores públicos não tem o dever de respeitar a população? Porque o vereador não exigiu que fosse aplicada imediatamente a Lei de Atendimento Preferencial? Essas são perguntas feitas por várias pessoas da fila, sem resposta que justifique o porquê os funcionários do Centro de saúde Escola ao abrir as portas para o atendimento às 7 horas da manhã, não começaram a distribuir senhas imediatamente, já que havia fila nesse horário.

Ver idosos passar mal em uma fila para fazer agendamento de consulta médica é presenciar o próprio futuro de quem ainda é jovem e produtivo. Que esperança pode ter o jovem brasileiro, se não, contar com o desprezo e indiferença social diante de sua velhice?   

O parecer da Faculdade de Medicina de Botucatu

Em nota a Faculdade de Medicina pediu desculpas pelo transtorno e esclareceu a respeito do processo de agendamento de consultas médicas:

O Centro de Saúde Escola (CSE), unidade auxiliar da Faculdade de Medicina de Botucatu/Unesp (FMB), esclarece que nesta segunda-feira, 4 de dezembro, foi o primeiro dia de agendamento de consultas de pacientes da área de saúde do adulto para o ano de 2018. Os dias e semanas subsequentes também serão utilizados para a continuidade do agendamento.

O CSE informa ainda que os agendamentos para o exercício de 2018 serão realizados em conformidade com a necessidade de cada usuário.

A unidade lamenta possíveis transtornos gerados à população nesta segunda-feira, 4 de dezembro, em virtude do tempo de espera para o agendamento e reforça seu compromisso de zelar pela qualidade do atendimento da comunidade (30% da população botucatuense recebe acompanhamento do serviço).

O CSE está aberto à população de segunda a sexta-feira, das 7 horas às 17 horas.

Agradecemos a compreensão e nos colocamos à disposição.

Atenciosamente.

Supervisão do Centro de Saúde Escola (CSE) da FMB/Unesp

E que venha 2018! Com mudanças positivas para a população brasileira e, quem sabe, fiscalização no cumprimento das leis.

 

Karina Sant’Anna é jornalista e escreveu seu relato excepcionalmente ao Notícias Botucatu. O texto original está no blog Notícias em Foco.