OPINIÃO | Educação Socioambiental: desperte o olhar sobre si e seu lugar

A leitura do meio ambiente urbano estimula cognitivamente e traz conhecimento e aprendizagem para a transformação de valores

por Patrícia Shimabuku*

O crescimento não planejado das cidades causa mudanças bruscas na paisagem natural e tem como efeito tanto a perda de referenciais da relação do ser humano com o lugar, quanto o prejuízo direto via impactos ambientais.

A educação socioambiental surge como uma proposta a diversos segmentos da sociedade para a mudança de valores e posturas, tendo como grande desafio aliar educação à sustentabilidade (resgate e reconhecimento das responsabilidades humanas). Entretanto, vivemos em uma sociedade organizada pela padronização dos processos, sistematização das relações e “apostilamento” do aprendizado. O indivíduo é cada vez mais desvalorizado e inserido em um padrão social desvinculado da importância ecológica dos territórios.  A concepção de educação, sociedade e ambiente pressupõe alterações paradigmáticas em relação aos mais diversos aspectos da nossa organização político-social-espacial.

Mas o qual é a proposta da Educação Socioambiental?

A dimensão pedagógica da educação socioambiental refere-se ao conjunto de ações e valores que engloba processos comunicativos ambientais, marcados pelo dialogismo, pela participação, trabalho colaborativo, leitura e entendimento da paisagem com os reflexos das ações antrópicas. As questões sociais e ambientais são indissociáveis no fazer pensar dos atos educativos e comunicativos e, tem foco no “como” se gera os saberes e “o que” se aprende na leitura da paisagem (interação social versus natureza). 

Se pensarmos que educação significa a maneira em que os hábitos, costumes e valores de uma comunidade são transferidos de geração para geração, e que se forma por meio de situações presenciadas e experiências vividas por cada indivíduo ao longo de sua vida, não podemos desvincular o indivíduo do local onde ele vive. Projetos e ações locais determinam as mudanças de atitudes e/ou o despertar de uma consciência para um comportamento ambientalmente responsável.

A leitura do meio ambiente urbano estimula cognitivamente e traz conhecimento e aprendizagem para a transformação de valores, que possam refletir na qualidade de vida do indivíduo, comunidade e conservação ambiental. A linha pedagógica para o desenvolvimento de uma educação ambiental assertiva deverá ser realizada a partir do reconhecimento da comunidade sobre os problemas socioambientais existentes e, a partir deste ponto, os conceitos de importância ecológica, vigilância em saúde ambiental, saúde coletiva e de políticas públicas serão empregados de forma que a comunidade-alvo seja a protagonista da transformação. Sem a sensibilização da comunidade-alvo, formação técnica inclusiva para o empoderamento e, posteriormente reconhecimento das responsabilidades com a conservação dos recursos naturais não haverá transformação social e muito menos a construção de uma cidadania ecológica.

Um exemplo de aplicação da linha pedagógica de Educação Socioambiental foi o desmembramento do projeto “Cuidando do Meio” do Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos de Adolescentes / Cras Norte – Distrito de Vitoriana. O projeto foi iniciativa dos adolescentes devido a indignação com o descarte inadequado de resíduos sólidos domésticos nas vias públicas, terrenos e campo de futebol do Distrito. Diante da temática a Assistente Social, Luciana Machado, entrou em contato com a AAVA, Associação dos Amigos do Vale do Aracatu, para firmar parceria para as questões de Educação Socioambiental, através do Projeto ASA (Aracatu na Sala de Aula).

A AAVA através do ASA primeiramente visou estreitar laços com os adolescentes. Com a problemática sinalizada, os adolescentes, a AAVA e a Assistente Social caracterizaram os locais apontados como pontos de descarte e algumas soluções foram sugeridas. Para o desenvolvimento do projeto, a AAVA utilizou o Biomapa (uma metodologia participativa de diagnóstico, planejamento e gestão socioambiental), visita técnica ao aterro sanitário e a cooperativa de agentes ambientais, além da elaboração de materiais educativos impressos (panfletos e cartazes sobre o uso do PEV, descarte de resíduos não recicláveis, descarte de pilhas e óleo doméstico usado). Para finalizar, foi escrita e encenada pelos adolescente uma peça de teatral “E agora, o que eu faço com o meu lixo?” para a comunidade local.

Sabendo que a problemática do lixo é universal e sua solução está na transformação do comportamento e hábitos da comunidade, associada a padrões de consumo mais racionais, avançar com projetos de Educação Socioambiental é imperativo para qualquer sociedade que almeje melhor qualidade de vida para todo e qualquer cidadão.

* Patricia Shimabuku é farmacêutica industrial, professora e ativista socioambiental.

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