OPINIÃO | Por que ocorrem as enchentes e inundações na região da rodoviária?

Desta forma, além do piscinão outras medidas deverão ser consideradas e aplicadas durante o planejamento da expansão urbana

por Patricia Shimabuku*

“Chuvas causam inundações e enchentes na região da Rodoviária, alagamentos em diversos pontos da cidade, como por exemplo, no elevado Bento Natel”. Problemas de drenagem de águas pluviais bem conhecidos na vida do cidadão e da gestão pública botucatuense após as chuvas torrenciais. E nessas horas, todos perguntam e são lembrados os tais “piscinões” (nome popular do reservatório de detenção/amortecimento de águas de chuva).

 As considerações técnicas sobre essa complexa obra de engenharia hidráulica já foi tema desta coluna: “Serão os piscinões, a solução para as enchentes urbanas e inundações botucatuenses” em abril de 2017, com as explicações do Professor Álvaro Rodrigues dos Santos (geólogo formado pela USP, pesquisador V Sênior pelo IPT – Instituto de Pesquisas Tecnológicas, ex-Diretor de Planejamento e Gestão do IPT e ex-Diretor da Divisão de Geologia Aplicada, Consultor em Geologia de Engenharia, Geotécnica e Meio Ambiente – Criador da técnica Cal-Jet de proteção de solos contra a erosão e Diretor-presidente da ARS Geologia Ltda.)

Agradando ou não, quanto realmente resolverá este piscinão alocado entre o Loteamento Residencial Spazio Verde e a Rodovia Marechal Rondon?

A realização é justificada a cada chuva torrencial. Precipitações que comprometem a segurança dos que residem, trabalham ou circulam pela região da rodoviária, além dos reflexos na saúde, economia e ecologia local. Ficar discutindo sobre reflexões passadas referentes ao processo de uso e ocupação do local (de quem foi a genial ideia de construir a rodoviária ali, quem aprovou a sua construção não considerou as questões hidrográficas básicas etc.), talvez, só nos sirva para daqui em diante, usarmos a “cabeça” para planejar e desenvolver nosso município de forma racional e técnica.

O que é mais importante neste momento? O que é crucial?

O entendimento da gestão pública (Executivo e Legislativo) dos porquês (causas técnicas) destas inundações e enchentes. E mais importante, como não agravar a drenagem natural/artificial e colocar em risco (futuro) dessa obra de orçamento tão alto (o valor estimado pela PMB é de R$ 9.364.919,09 <nove milhões, trezentos e sessenta e quatro mil, novecentos e dezenove reais e nove centavos> segundo o Edital Concorrência Pública 005/2017, Processo 36.675/17: Contratação de Empresa para Implantação de Reservatório de Amortecimento de Cheias no Córrego Cascata, através de Termo de Compromisso Nº 0351.036-31/2011/MCIDADES/CAIXA/PMBOTUCATU, disponível no Portal Transparência). 

 Por que ocorrem as enchentes e inundações na região da rodoviária?

 O entendimento é simples.

A região fica em um fundo de vale (ou planície de inundação ou várzea), ponto mais baixo de um relevo acidentado, por onde escoam as águas da chuva. Visite a região, observe criteriosamente a paisagem. Nessa região, uma calha (Córrego do Tanquinho) recebe a água proveniente de todo seu entorno (escoamento superficial <enxurradas>, cuja microbacia envoltória já se encontra muito impermeabilizada <asfalto, casas, etc.>) e de outras calhas (confluência dos Córregos do Agua Fria e do Cascata <onde irá alocar-se o piscinão do edital> e Córrego da Vila Antártica. Observe as Fotos 1 e 2 com as principais redes hidrográficas do município e o sentido do fluxo de suas águas.

 

A ampliação de áreas impermeabilizadas (loteamentos, edificações, asfaltamento, etc.) repercute na incapacidade de infiltração de água no solo, aumentando o escoamento superficial, a concentração do volume das enxurradas e consequentemente a ocorrência de enchentes e inundações. Afeta, também, o funcionamento do ciclo hidrológico interferindo no rearranjo na trajetória das águas e no abastecimento dos lençóis freáticos (além de carregar poluição difusa)

 A carência de estudos detalhados sobre o comportamento da drenagem e do relevo local dificultam o planejamento e a gestão das microbacias/redes hidrográficas urbanas. A falta de percepção do Poder Público, das Construtoras e da População sobre o papel da natureza, em especial aos “azuis urbanos”, conjugada ao uso do solo desordenado, aos diferentes processos erosivos e ao aumento das áreas impermeáveis provocam/provocarão sérias consequências (social, ambiental e financeiras). As principais mudanças que ocorrem com a expansão urbana, em relação aos processos hidrológicos, são decorrentes do processo de ocupação. O solo passa a ter grande parte de sua área revestida de cimento/asfalto, modificando o comportamento da água superficial. Para um maior entendimento leia outra pauta desta mesma coluna: Crescimento das áreas impermeáveis e seus reflexos na rede de drenagem.

Desta forma, além do piscinão outras medidas deverão ser consideradas e aplicadas durante o planejamento da expansão urbana (abertura de novos loteamentos e pavimentações). A ocupação das áreas (bairros novos) das cabeceiras de redes hidrográficas <córregos de todo o município> deverão ser analisadas com critérios severos e técnicos.  O lançamento e direcionamento das águas pluviais não deverão ser unicamente pensados com as técnicas convencionais, mas sim, também, com as sustentáveis e inteligentes como drenagem por absorção (valetas, trincheiras, poços de absorção, calçadas drenantes, novas tecnologias etc.). Os moradores deverão ser sensibilizados sobre a importância da taxa de permeabilidade no interior do lote, mas para isso, a Lei de Parcelamento (que está em processo de revisão e atualização) deverá considerar o parâmetro urbanístico necessário para não comprometer toda rede hidrográfica (para isso, o Executivo deverá criar mecanismos educativos e fiscalizadores). Caso ao contrário, o tal piscinão antes de inaugurado já terá sua vida útil reduzida, podendo comprometer a segurança e a tranquilidade da localidade.

Por fim, além dos cálculos hidrológicos necessários para o projeto do piscinão, o modelo de ocupação e de drenagem deverão ser considerados tanto pela Construtora quanto pela Prefeitura. Espero que o COMDEMA, órgãos ambientais e fiscalizadores competentes cumprem o seus papeis com responsabilidade, profissionalismo e ética. Não podemos esquecer dos Senhores Vereadores que deverão acompanhar esta importante obra (edital, cronograma – investimento – execução da obra e as questões socioambientais). Porque, nós, sociedade civil organizada (sentinelas) estamos/estaremos de olhos abertos, SEMPRE!

Não queremos ser lembrados (no futuro) como os gestores, os vereadores e a geração que permitiram mais um deslize, como a construção da rodoviária em uma planície de inundação! Se não tivermos responsabilidade com o futuro, condenaremos a próxima geração (a nossa), meio ambiente e os orçamentos públicos. Pense e Participe!

* Patricia Shimabuku é farmacêutica industrial, professora e ativista socioambiental.

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