OPINIÃO | Esfoliantes cutâneos, uma ameaça ecológica!

Diversas nações estão refletindo sobre o uso das microesferas nos produtos cosméticos

por Patrícia Shimabuku*

A pele é considerada o maior órgão do corpo humano e além da função de proteção outras funções são atribuídas a este órgão, como controle da temperatura, sensorial, estética, absorção da radiação ultravioleta, síntese de vitamina D, absorção e eliminação de substâncias químicas. Possui uma admirável capacidade de se renovar a partir das camadas mais profundas, fato observado desde a antiguidade. Há relatos que a Cleópatra utilizava o “leite azedo” para manter sua pele suave e limpa, assim como o vinho era utilizado pelas mulheres na Idade Média com a mesma finalidade (peeling). Visando melhorar a aparência da pele, a procura por tratamentos estéticos tem aumentado a cada dia. Em meio aos diversos tratamentos e protocolos, a esfoliação é uma etapa fundamental para que se obtenham bons resultados, pois promove uma renovação celular e induz uma repitelização, o que favorece a permeação dos princípios ativos dos cosméticos e cosmecêuticos.

A esfoliação é também conhecida em francês como “gommage – raspagem da pele” ou “peeling, do verbo em inglês to peel = esfoliar”. Consiste em retirar impurezas e células queratinizadas da superfície da cutânea (do latim cutis = pele/epiderme, camada mais externa da pele), afinando e uniformizando a camada córnea para facilitar a aplicação e a absorção dos princípios ativos das preparações cosméticas e medicamentosas, obtendo-se uma pele com aparência mais saudável com melhoria da aparência estética, principalmente nas desordens de pigmentação, queratose actínea e rugas finas. Os esfoliantes cosméticos atuam por mecanismo químico, físico e biológico/enzimático e podem ser classificados com base na sua profundidade de penetração do agente esfoliante na pele.

Por que estamos abordando o tema esfoliante cutâneo na coluna de assuntos ecológicos, socioambientais, turismo e políticas públicas?

Porque diversas nações estão refletindo sobre o uso das microesferas nos produtos cosméticos (sabonetes, géis e cremes) e dentifrícios (“pasta de dente”) para esfoliação por mecanismo físico (remoção da pele envelhecida por fricção entre as partículas esfoliantes e a superfície da pele). Vários estudos afirmam que uma das maneiras de proteger a qualidade da água e a vida dos oceanos é proibir o uso de microesferas de polietileno ou hidrocarbonetos em todos os produtos de cuidados pessoais. As microesferas de plástico são adicionadas a esses produtos para agirem como esfoliantes.

As microesferas (microplásticos) estão entupindo tubulações e contaminando lagos, rios e oceanos ao redor do planeta. Normalmente elas são tão pequenas que passam por filtros de tratamento, poluindo rios com partículas que acabam sendo consumidas ou absorvidas pela vida selvagem em rios e mares. Estima-se que, em um único banho, 100 mil partículas de plástico sejam despejadas no meio ambiente. Por serem tão pequenas, elas são ingeridas por zooplânctons (seres que estão na base da cadeia alimentar marinha), mariscos, peixes e, por tabela, nós, humanos.

O problema com as microesferas é que elas flutuam na água. Por isso, não são neutralizadas pelas estações de tratamento. Ao enxaguar a pele após o uso do esfoliante, essas bolinhas chegam às vias aquáticas pelo ralo da pia ou do chuveiro. As microesferas têm capacidade de absorver poluentes químicos, o que faz com que contaminem a cadeia alimentar e possam ser ingeridas por animais e por humanos.

 

Segundo a reportagem “Reino Unido proíbe microesferas para salvar oceanos do plástico”, publicada em Economia UOL – 09/01/2018, o Reino Unido no início deste ano proibiu a fabricação de produtos com microesferas na tentativa de proteger a vida marinha. “É uma satisfação que a partir de hoje as fabricantes de cosméticos sejam impedidas de adicionar esse plástico prejudicial aos produtos com enxague“, disse a ministra do Meio Ambiente, Therese Coffey. Antes do Reino Unido, outros países tomaram medidas para proibi-las em produtos. O ex-presidente dos EUA Barack Obama assinou um projeto de lei para proibir as microesferas em produtos de enxague nos EUA em 2015. A Nova Zelândia e Canadá também as proibiram, medidas que entraram em vigor neste ano. A decisão do Reino Unido é “a proibição mais forte e abrangente promulgada no mundo e ajudará a impedir o fluxo de microplásticos nos nossos oceanos”, disse Sue Kinsey, diretora sênior para poluição da Marine Conservation Society.

 No Brasil, contudo, os produtos que usam as bolinhas de plástico ainda estão liberados. A mobilização da sociedade civil para a proibição ainda é tímida, com alguns abaixo-assinados pedindo o fim do uso das microesferas. A Associação Brasileira de Cosmetologia já sugere o uso de esfoliantes biodegradáveis ou naturais. Ainda assim, muitas marcas seguem usando microesferas plásticas em produtos de higiene pessoal. Uma iniciativa da fundação holandesa Plastic Soup fiscaliza marcas de cosméticos no mundo todo e lista os produtos que usam as bolinhas plásticas. A campanha “Beat the microbead” (“Acabe com a microesfera”, em tradução livre, link http://www.beatthemicrobead.org/product-lists/ ) disponibiliza em português uma lista de marcas e produtos brasileiros que, em fevereiro de 2016 (http://www.beatthemicrobead.org/ProductTable.php?colour=2&country=BR&language=EN) ainda usavam bolinhas plásticas na composição. O site também mostra, em uma linha do tempo, o que mudou no uso de bolinhas plásticas em cosméticos desde o início da campanha, em 2012.

Existem alternativas para as microesferas plásticas, as microesferas ecológicas (feitas de celulose encontrada nas madeiras e sementes de plantas/frutos). As microesferas ecológicas são mais maleáveis e biodegradáveis, mantem estáveis nas formulações, porém são quebradas quando entram nas redes de esgoto, evitando assim, que parem nas águas dos corpos hídricos.

Procure produtos cosméticos que sua fabricação considerou as questões ecológicas (produção sustentável) como retirada de finitos recursos naturais, a ética em teste animais e humanos, tipos de embalagem e seu descarte. O que adiantará possuir a beleza dos seus sonhos, se você concomitantemente contamina a água, o líquido essencial para manter sua saúde? 

* Patricia Shimabuku é farmacêutica industrial, professora e ativista socioambiental.

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