OPINIÃO | Eu sou porque nós somos!

Marielle é uma das 194 militantes sociais executadas nos últimos 5 anos no Brasil

por Daniel de Carvalho*

Problema, apreensão e dúvidas florescem sempre que a indignação e necessidade de lutar por mudanças reais domina a razão de alguém sem poder algum, sem dinheiro ou influência política, sem abertura nas mesas fartas da elite ou poder para divulgar sua proposta, alguém que já se enxergue carente do aceso a seus direitos, à justiça de fato ou a qualquer bem que vemos que são de todos, e dever da sociedade em garantir, como segurança, saúde, educação, transporte, e outros direitos que estão inscritos na constituição, a lei maior, magna e suprema. Em Botucatu, em São Paulo, no Rio de Janeiro, na Maré, na cidade ou no campo, para se posicionar contrário a um sistema excludente, que beneficia poucos às custas do sofrimento de muitos, é um risco à paz individual, à existência como cidadão e como pessoa e, muitas vezes, 194 vezes nos últimos 5 anos, é um risco à vida.

Quando começamos a militância dentro do PSoL Botucatu, uma enxurrada de dúvidas ascendia a passo que dávamos. Estudos das negociatas com dinheiro público dando vez a lobistas que vendiam a proposta deste ou aquele grupo de empresários que, com privilégio e incentivo, fariam a economia local a seu jeito operando com toda legalidade e apoio que uma empresa necessita, mas poucas tem. Neste sentido a população segue excluído da gestão ou de ter qualquer influência na administração pública, fazendo-se presente apenas de dois em dois anos durante a eleição, mas sem qualquer segurança neste meio termo. Levantar pautas como a possibilidade real de mudanças que combateriam o surgimento de comunidades vulneráveis cada vez mais distantes do grande centro e seus benefícios, com a violência e influência do tráfico presentes constantemente em seu dia a dia. Emergir resistente, resiliente, em ambiente tão adverso a liberdade não pede que haja apenas coragem, tem que ser única, e cada passo, cada decisão tomada, é decisiva.

A campanha 2016 foi um grande ponto de virada nesta militância. Uma campanha linda e muito honrosa nos fez andar pela cidade toda com investimento pífio de R$ 2mil reais, sem abertura em vários locais e corpo para expor nossa proposta, de sol a sol, com muitas luas de companheira, andamos e conversamos. Ouvimos que nossa proposta era a necessária mas não seria a vencedora, assim não seria o voto deste ou daquele companheiro. Seguimos. Debatemos, esclarecemos e denunciamos, nos posicionamos, e conquistamos corações e posicionamentos que, como nós, viam que há como termos uma cidade justa e igual, de todos para todos. Mais do que a sensação de dever cumprido, o prazer de nos ver presente no caminho certo, sem qualquer dúvida, e nunca nos curvando para qualquer desejo além de termos uma Cidade limpa de verdade, de dentro dos corações para dentro das portas de toda família de nossa cidade.

Após as eleições celebramos vários momentos ao vermos quantas vitórias haviam acontecido em todo Brasil, com o nosso PSoL florescendo bravamente em várias cidades e capitais. Em novembro de 2016, após as eleições, com muito prazer fomos à São Paulo no lançamento da “Bancada Feminista do PSoL”, uma força grandiosa resultado da luta de mulheres de todo Brasil para que a igualdade e justiça seja o ponto de partida para a construção de novas cidades. Um coletivo que juntas, em várias câmaras do Brasil, uniriam conhecimento e esforços, projetos e ideias, para alinhar as propostas de mudanças de norte a sul do país. Luciana Genro e Fernanda Merlchionna (Porto Alegre), Talíria Perone (Niterói), Áurea Carolina (Belo Horizonte), Sâmia Bomfim (São Paulo), Fernanda Garcia (Sorocaba), Mariana Conti (Campinas), Marielle Franco (Rio de Janeiro).

Quanto brilho e luz vimos nesse momento, a vitória de campanhas que enfrentaram todo sistema de homens ricos em sociedades machistas de norte a sul do país, projetos de poder que se vê claramente eternizados com campanhas milionárias sobre palanques pirotécnicos e promessas coronelescas de centralização de poder sobre si e “confiança” de que estariam fazendo o melhor. Não estávamos sozinhos nesta luta. Marielle brilhou. Foi a segunda vez que vimos seus posicionamentos, e foi dos momentos mais sensacionais na confirmação do que estávamos fazendo. Sua liderança, sua coragem e hombridade intransigente destacando sempre que “Eu sou porque nós somos”, frase de sua campanha, nunca esquecendo de onde vinha, pobre da favela, mulher mãe negra lésbica, e para onde iríamos juntos, sempre juntos, todos, sempre.

Mari foi arrancada de nós por defender que ninguém fosse deixado para trás, que nenhuma pessoa fosse esquecida ou enfraquecida, vivesse a margem da sociedade por ter nascido em um berço menos brilhoso ou com sobrenome menos pomposo, por ser do gênero que é constantemente condicionado a ser única força da família e da casa, tendo jornada tripla de trabalho, ou por ter a certeza de que a abolição não aconteceu de fato até hoje. Enquanto muitos hoje reclamam que ninguém fala pelos milhares de vítimas da desigualdade e abandono, Mari gritava e lutava, e como lutava. Muitas mentiras são propositadamente e maldosamente criadas para tentar macular sua linda história, e esta tentativa, este medo que sua voz se eternize em nossos corações, na verdade é uma ameaça a todos nós. A todos que em suas caminhadas por justiça ouvem: mas vocês são isso, temos medo que vocês façam aquilo, me disseram que vocês são ligados àqueles, criminalizando e prejulgando todos que apontam que há alternativa a realidade cruel e predatória que persegue, oprime e mata. Toda tentativa de pisotear nesta flor que foi brutalmente arrancada de nós é uma ameaça a toda primavera que floresce a cada dia, um atendado a cada pétala que fortemente resiste frente à brutalidade que este sistema corrupto de fofocas e favorecimentos faz para tentar denegrir todos que são ameaça a sua hegemonia.

Marielle é uma das 194 militantes sociais executadas nos últimos 5 anos no Brasil, e há uma rede de mentiras via rede social querendo criminaliza-la e lança-la à vala de uma morte comum. Não foi isso, ela foi morta pois ela em si só era uma intervenção humana, a ação que o Rio precisa para mudar seu estado de caos e desespero. Toda vez que vemos, ouvimos ou lembramos uma mensagem da nossa amiga e ídolo Marielle, pensamos que poderia ser a rede difamando algum de nós, que busca envergonhar sua família, apagar seu nome e manchar sua honra que em cada segundo ela tanto defendia. Eu sou porque nós somos. Resistimos ontem ao lado de Marielle, e seguiremos fortes com Mari em nossos corações, honrando sua história em todo passo que dermos.

Agora há uma unidade em todo Brasil para evitar que mais mentiras se propaguem em nome dessa guerreira, e pedimos a todos que receberem mensagens, imagens ou comentários caluniosos que enviem a imagem e o telefone/nome [email protected] [email protected] para [email protected], para que a rede de calúnias seja quebrada e a honra deste nobre colega de luta seja preservada. E para conhecer ainda mais sobre Mari, foi criado o site que está acessível a [email protected]: www.mariellefranco.com.br/averdade. Visitem, vejam, estudem. À sombra de Marielle só floresce amor e resistência.

O mundo não se esquecerá desta grande mulher.

É uma honra te admirar, hoje e sempre.

Seguiremos juntos, todas e todos.

Daniel de Carvalho – proprietário da DC Design Comunicação, Presidente do PSoL 50 Botucatu, e estudante de direito.

Para ler todos os artigos deste colunista, acesse o hotsite Botucatu Para Todos!