OPINIÃO | Utopias e distopias

O principal mérito do filme está em mostrar como a criação de utopias não é algo tão simples

por Oscar D’Ambrosio

Para onde caminha a humanidade? A pergunta é muito antiga e visceral e o filme ‘Pequena Grande Vida’, de Alexander Payne, aponta respostas de uma maneira original. Tudo começa, talvez na melhor cena da obra, quando a academia científica apresenta a possibilidade de reduzir pessoas ao tamanho de aproximadamente 15 cm.

Sem efeitos colaterais, é criado um mundo paralelo, em que é produzido menos lixo e as condições ambientais são aparentemente controladas. Seria o melhor dos mundos. Porém, as discrepâncias sociais e as complexas relações humanas também são levadas para essa nova civilização. Permanece, nesse mundo paralelo, o preconceito contra orientais e latinos, responsáveis pelas atividades menos nobres de limpeza, por exemplo.

O fato é que a comunidade paradisíaca também é abandonada por muitos para a formação de uma terceira, agora subterrânea, já que existe o risco de destruição desse mundo criados para os ‘pequeninos’, num alerta para a eterna capacidade humana de destruição.

O principal mérito do filme está em mostrar como a criação de utopias não é algo tão simples como parece inicialmente. Mundos ideais podem ser transformados em distopias no momento em que as individualidades progressivamente ocupam o lugar do conjunto. Esse desafio o filme coloca com talento em discussão.

Oscar D’Ambrosio, mestre em Artes Visuais e doutor em Educação, Arte e História da Cultura, é Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de Sâo Paulo.