OPINIÃO | Memórias de um Brasil militar…

No quadro negro nunca me ensinaram a ler as palavras golpe, tortura ou censura

por Alessio Di Pascucci

Fui vítima da ditadura militar brasileira. Passei minha infância e adolescência sem ter a consciência de que vivia num país governado por um regime militar e que sobre a influência dele construía-se minha formação escolar. Fui educado em escolas públicas, e nelas me formei em alienação política entre as aulas de história, geografia, matemática e outras matérias.

No quadro negro nunca me ensinaram a ler as palavras golpe, tortura ou censura. Nenhum professor me disse: Estamos num regime político conseqüente de um golpe militar. Os professores diziam que eu deveria honrar os símbolos do meu país, mas não me diziam que o meu país desonrava com sangue de torturados o verde e o amarelo da nossa bandeira. Inoculavam-me o medo e a obediência ao regime militar enquanto me ensinavam a levantar da cadeira por temor ao superior diretor da escola como se esse fosse um general.

Não fui vítima de choques dados por torturadores militares em porões obscuros. Fui vítima da metodologia educacional adotada no Brasil depois do golpe militar. Uma metodologia pautada na desinformação política como meio de controle social. Um método educacional que nos alienava da realidade do que de fato acontecia no Brasil. Hoje, consciente do autoritarismo que controlou o Brasil após o Golpe de 64, causa-me indignação imaginar que crianças e jovens brasileiros da minha geração eram obrigados a cantar o hino nacional todas as quartas-feiras nos pátios das escolas públicas de todo pais, enquanto cidadãos brasileiros, que não concordavam com o autoritarismo do regime imposto à força, eram torturados das formas mais cruéis e assassinados de diversas maneiras perversas, sem que nós soubéssemos dos seus gritos de dor e sofrimento.

As sequelas da tortura a qual fui submetido podem ser alteradas pela construção de uma consciência mais clara em relação aos fatos que me foram ocultados no passado. No entanto, para muitos que estão vivos hoje e que viveram no período da ditadura militar brasileira, conscientes dos fatos que ocorriam, seja apoiando ou se opondo ao regime, não haverá cura em suas consciências enquanto não forem acesas todas as velas às almas de todos aqueles que morreram por terem colocado suas vidas em risco em nome da Liberdade de um país, que após o golpe de 64, teve toda a extensão do seu território nacional vigiada e controlada por um governo militar autoritário, opressor e assassino.

*Alessio Di Pascucci é poeta, escritor, compositor, ator e cantor