OPINIÃO | Práticas Off-roads e sua contribuição para o resgates em áreas naturais

Não podemos generalizar todas as práticas/praticantes off-roads como irresponsáveis

por Patrícia Shimabuku*

Antes de comentar sobre a contribuição da prática, serão necessárias algumas considerações. Para os amantes e defensores do território tão especial (a nossa Cuesta) esse texto soa como uma ofensa ou irresponsabilidade e um tanto contraditório por ser redigido por uma ativista socioambiental. No entanto, não podemos generalizar todas as práticas/praticantes off-roads como irresponsáveis. Reflita: “qualquer atividade (seja ela recreativa ou profissional) existe/existirá o “mocinho” e o “vilão”, por isso, precisamos de regras, fiscalização e punição”. Posso dizer que existe em nosso município e região praticantes responsáveis que também contribuem para a conservação da Cuesta (procure saber sobre os grupos organizados).

Muitos são aqueles que utilizam a APA (Área de Proteção Ambiental, uma categoria das Unidade de Conservação) para abolir a prática na região da Cuesta, porém, em seu Plano de Manejo volume 2 “APA Corumbataí Botucatu Tejupá” não a proíbe, mas sim, cita como atividade permitida desde seja normatizada e em áreas licenciadas. Agora sim, podemos seguir com a proposta do título.

Off-road (fora da estrada) é um conjunto de atividades que utilizam veículos com apelo aventureiro. Os veículos poderão ser de duas rodas (motocicletas), quatro rodas (quadricíclos, jipe, gaiolas e caminhonetes) ou mais rodas que trafegam em estradas sem pavimentação (asfalto) e de difícil acesso. Os condutores são denominados off-roaders ou trilheiros. Hoje a prática é utilizada como lazer, terapia ou competições organizadas, no entanto, nasceu de uma necessidade de guerra.

Os primeiros veículos foram criados durante a 2ª Guerra Mundial com o objetivo de penetrar e deslocar tropas e soldados em locais de difícil acesso. Em termos de competições, as denominações são: enduros, rallysraids, no Brasil, o termo mais utilizado é o Rally.

Como descrito, normalmente, as motivações são desencadeadas pela busca de lazer e aventura (adrenalina), no entanto, elas também poderão ser desencadeadas pelo espírito de solidariedade, empatia e cidadania em emergências e desastres naturais.

Os off-roaders são capazes de chegar a lugares inacessíveis por veículos convencionais. O veículo 4×4 é mais seguro do que um veículo sem tração nas quatro rodas e são previamente preparados para atravessar corpos hídricos, pedras e áreas alagadiças. Sendo assim, poderão auxiliar as equipes de suporte básico de vida e da defesa civil no resgate em áreas naturais, regiões de atoleiros (lamaçal), em casos de enchentes e desmoronamentos e em outros desastres naturais.

A criação de um “Grupo de Trilheiros Voluntários” para auxiliar as equipes de resgate local pode ser uma estratégia cidadã e de solidariedade, uma vez que, em geral, a Gestão Pública não dispõe esse tipo de frota. Esse “Grupo” nos casos de ocorrências em áreas naturais poderá resgatar/transportar pessoas e animais, remover galhos e árvores com risco de tombamento, guinchar outros veículos, levar mantimentos entre outras ações. Porém, como qualquer ação humana precisará de um planejamento que contemple além das questões de segurança, as especificidades ambientais.

O cadastramento dos voluntários e seus veículos, levantamentos das áreas de riscos x acessos x tipo de veículo, caracterização do terreno, especificidades ambientais, treinamento para utilização de radioamador / primeiros socorros e brigada serão necessários. Existem limites que não poderão ser ultrapassados pelo “Grupo” como por exemplo as orientações das autoridades locais.

Além de ser um apoio estratégico para o segmento turístico local, o trabalho colaborativo e um projeto de resgate em áreas naturais são necessários mesmo em áreas sem histórico de ocorrências emergenciais complexas. A prevenção com planejamento sempre será a melhor estratégia.

*Patricia Shimabuku é farmacêutica industrial, professora e ativista socioambiental.

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