Nossos “Arredores” pela viola de Osni Ribeiro

O músico botucatuense Osni Ribeiro lançou, no final de dezembro, seu 3º álbum solo “Arredores”

por Flávio Fogueral

O som da viola traz o mundo caipira em sua essência. As melodias e composições mostram mais do que sentimentos; traduzem parte da vida no campo, das vivências e simplicidade que somente o interior pode proporcionar. É nessa toada que o músico botucatuense Osni Ribeiro lançou, no final de dezembro, seu terceiro álbum solo “Arredores”.

Tendo a viola como sua companheira inseparável, o músico botucatuense Osni Ribeiro faz, nas quinze faixas do disco, uma imersão em histórias vividas, com toques particulares do cotidiano. Para quem aprecia a legitimidade do som do interior, há composições antigas e apresentadas nos festivais que Ribeiro participou nos quase 40 anos de carreira. Quatro músicas são instrumentais e versões intimistas de clássicos de compositores como Angelino de Oliveira (Prece de Caboclo), Serrinha (Vou Buscar Boiada) e Raul Torres (Gostei da Morena). Todosos, com raízes fincadas em Botucatu.

Essencialmente tenha como característica as composições sertanejas que frisam por vezes a vida árdua do interior e do homem do campo, o álbum se propõe a trazer um contraponto: as singularidades, as alegrias e saudades interioranas. Oito músicas são de autoria própria de Ribeiro que, ao longo dos anos, captou muito além do cotidiano. Também há momentos em que a viola mostra seu protagonismo, nas canções São Pedro, Rabiola, Porto da Ribeira e Quase Folia.

“Em Arredores eu canto a viola, a saudade das boiadas, as histórias dos homens comuns. Canto sonhos, sonhados juntos, desfeitos ou acalentados. Canto amor, amizade, paixão, esperança. Canto alegrias e tristezas. Canto a vida e sentimentos que nos rodeiam. E ainda, carrego cantares de outros eras, de autênticos mestres da música e da arte”, salienta o músico.

Para trazer o registro das composições, Arredores traz participações especiais e músicos de apoio como Antônio Porto (que já tocou com Almir Sater), Marco Bosco, Steve Neghão, Tico Villela, João Lucas, Guilherme Chiapetta, Toninho Ferragutti, José Staneck, Joãozinho Barroso, Rafael Gandolfo e Zé Cláudio Lino. Há, ainda, a participação dos violeiros Fabius e Jaime Alem e das vozes de Cláudio Lacerda, Marcelo Pretto e Júlio Santin.

Arredores já conta com  shows de divulgação, com a participação de Ribeiro em programas como o Sr. Brasil (apresentado por Rolando Boldrin), na TV Cultura. Na edição de dezembro, o botucatuense tocou clássicos como “Gostei da Morena” e “Paixão Violeira”.

O álbum está disponível nas principais plataformas de streaming musical (SpotiFy, YouTube Music, iTunes, Amazon, Google Play, entre outras). Para os saudosistas, as versões físicas em CD estão à venda em lojas especializadas.

Uma carreira dedicada ao resgate do mundo caipira

Sintetizar quarenta anos de carreira em poucas linhas é o equivalente a reduzir sentimentos e percepções de mundo em parcos minutos de uma música. Nascido em Botucatu, Osni Ribeiro já dedilhava e esboçava composições. Como o próprio músico recorda, a relação com o mundo rural era intensa, já que frequentava sítios, andava a cavalo e conversava com gente que vivia da terra. 

Ribeiro: Em Arredores eu canto a viola, a saudade das boiadas, as histórias dos homens comuns. Canto sonhos, sonhados juntos, desfeitos ou acalentado”

“A música  música caipira era um som que estava com a gente no dia a dia, pelo rádio principalmente, os programas da madrugada, mais tradicionais. Nesse tempo a gente não via viola, estava em “desuso”as duplas sertanejas do momento, já nessa onda de pseudo-modernização optaram por “modernizar” o conceito da nossa música rural por meio de instrumentação, arranjos, figurinos, pensando mais na embalagem do que nos conteúdos”, explana Ribeiro.

Ainda na década de 1980, um grupo de amigos se arriscou a cantar modas de viola e a compor. Iniciou, ainda nesse período, parceria com o Zé Lira (in memoriam) onde estrearam no programa Sertão em Festa, no auditório da antiga Rádio Emissora de Botucatu, a PRF-8. A primeira música interpretada pela dupla, recorda o artista, foi “Cabocla Tereza”.

Os festivais de música eram (e ainda são!) momentos de fomento e divulgação de artistas. Em 1981, a dupla participou do Troféu Chapéu de Palha, realizado em Avaré. Ribeiro compôs suas primeiras músicas caipiras, sendo uma delas censurada pelo Regime Militar (1964-1985), por tecer críticas ao governo do ex-presidente João Batista Figueiredo. Mesmo assim, foram premiados no festival com a moda de viola “Boiadeiro Aposentado”.

A carreira da dupla se desenrolava com shows e participações em festivais. Em 1983 participaram do Festival da Música Botucatuense, onde as duplas vencedoras gravariam um antigo LP (Long Play). Osni Ribeiro e Zé Lira figuraram no álbum com Tavares e Ramiro.

A primeira mudança de rumo ocorreu em 1984, quando Zé Lira resolve parar de cantar. Com isso, Osni passa a fazer dupla com Renato Silvestre. A nova parceria tomou um caminho mais comercial, com diversos shows na capital paulista e em outras cidades do grande circuito musical. Em 1985 gravaram um LP com todas as composições sendo de autoria de Ribeiro, em parceria com Sérgio Parada e Silvio Cassetari. Mas o músico sentia que faltava um direcionamento para as músicas.

Foi durante um show de Belchior, em 1985, no Botucatu Tênis Clube que Ribeiro conhece João Aiz, onde confessa que sentiu-se surpreso com tal musicalidade. Voltou a encontrar Aiz em uma apresentação, quando trocaram as primeiras conversas. Foi a partir deste encontro que a vertente “caipira” tomou forma e despertou o desejo em Osni de compor em tais temáticas, onde incluía elementos da Música Popular Brasileira. Fizeram dupla até 1986 quando intensificaram as apresentações pela região.

Em 1992, já em carreira solo, Osni Ribeiro muda-se para Campinas e tendo contato frequente com artistas, gravou seus dois primeiros discos: Osni Ribeiro (1994) e Bebericando (1996), com estilo eclético, onde as composições variavam desde o samba a modas de viola.

“Esses dois discos trouxeram muita bagagem e também o entendimento que era necessário um conceito, uma identidade definida para levar como um trabalho de palco, a mistura tornava muito difícil fidelizar publico e até mesmo montar os shows”, lembra Ribeiro.

A partir de 1997, voltou a fincar raízes em Botucatu, onde dedicou-se a apresentações e a trabalhar como produtor musical. Nesse contato, passou a auxiliar a secretaria municipal de Cultura, onde ocupou o cargo de secretário até 2017.