Pesquisadores da Unesp desenvolvem técnicas para reciclar bitucas de cigarros apreendidos

Bitucas de cigarro podem levar até 20 anos para se decompor

do G1

Pesquisadores da Faculdade de Ciências Agronômicas da Unesp de Botucatu (SP) desenvolveram técnicas que permitem reciclar as bitucas dos cigarros e transformá-las em um material resistente semelhante ao plástico.

Segundo o professor Alcides Lopes Leão, coordenador da equipe de pesquisadores, a demanda pela pesquisa surgiu justamente da grande quantidade de cigarros apreendida e o enorme volume de bitucas descartadas incorretamente. Uma parceria com a Receita Federal garante o uso desse material que é apreendido.

“A linha de trabalho foi direcionada em como utilizar esse cigarro que foi apreendido, e depois o que fazer com as bitucas”, explicou Leão.

Segundo os pesquisadores, além de a técnica gerar um material resistente semelhante ao plástico, ela conta com um aspecto ecológico, já que boa parte das bitucas vai parar no chão e, por ação das chuvas, acaba indo para bueiros.

A professora Ivana Cesarino explica que as bitucas de cigarro podem levar até 20 anos para se decompor. Elas contêm mais de 6 mil substâncias químicas que podem contaminar rios, mares, causar incêndios e entupir galerias pluviais.

Com isso, o grupo de estudos começou a desenvolver técnicas de reciclagem destes componentes, principalmente com cigarros apreendidos pela polícia.

Processo

O processo começa pela triagem do material que será reciclado, uma vez que, segundo a professora Ivana Cesarino, nem toda bituca pode ser aproveitada. Ela diz que o material precisa passar por uma análise química.

“As bitucas contêm muitos metais pesados, como arsênio e cádmio, e outras moléculas orgânicas, com formaldeído e acetona. Por isso, temos de fazer primeiro uma caracterização química para definir o destino que pode ser dado ao cigarro”, explica a professora.

Após essa triagem, as bitucas que servem para a reciclagem se juntam aos cigarros apreendidos pela polícia. Na sequência, tudo é triturado até virar um pó que é misturado a um polímero. O resultado é um material tão resistente quanto o plástico.

Ainda de acordo com a professora, Outra opção de reciclagem é usar a bituca do cigarro junto com um polímero reutilizado. Essa mistura é levada a uma máquina que, a uma temperatura de 180ºC, une os dois materiais.

A massa é levada a uma prensa e se transforma numa chapa de material resistente, similar ao plástico.

“A partir desse material, queremos produzir produtos como réguas, pentes e brinquedos. A ideia é criar um material que possa substituir o plástico e assim diminuir sua demanda pela indústria”, explica o pesquisador Murilo Gibbin Zanzini.

Menos bitucas nas ruas

Em Botucatu, voluntários de um projeto chamado Cuesta Limpa recolhem materiais descartados irregularmente no meio ambiente. Neste ano, o tema da campanha é justamente a bituca de cigarro.

Segundo Fernanda Bernardi, coordenador do projeto, a campanha primeiramente tenta pedir às pessoas para que não fumem, para não gerar a poluição. Para quem não consegue, os voluntários tentam orientar um descarte correto das bitucas, geralmente jogadas nas ruas.

Sentimento semelhante motivou a empresária Amália Leão a criar uma “bituqueira”, que fica instalada em frente ao hotel onde ela trabalha, no centro da cidade.

Ela explica que era comum ver os clientes do hotel saindo para a rua para poder fumar e jogar as bitucas no chão. Com a criação dessa caixa para descarte correto das bitucas, a empresária conseguiu melhorar a aparência da calçada em frente ao hotel.