Veterinários e cirurgiões vasculares de Botucatu operam doença rara em cão

A doença do carrapato é comum em humanos e pode ser resolvida com um procedimento cirúrgico

da Assessoria

Um procedimento cirúrgico inédito, realizado por meio de uma colaboração entre médicos veterinários e cirurgiões vasculares, realizado numa filhote de Golden Retriever, foi notícia nos veículos de imprensa da região de Botucatu na última semana.

Os tutores da cachorra Gaya vieram de Caraguatatuba, litoral norte de São Paulo, procurar ajuda no Hospital Veterinário da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da Unesp, câmpus de Botucatu, a 400km de distância. Desde o início de julho, o animal vinha apresentando falta de apetite e prostração. Após realizar exames em sua cidade de origem, o animal iniciou tratamentos para a Doença do Carrapato e para alterações no fígado.

Após uma semana do início do tratamento, Gaya apresentou acúmulo de líquido no abdômen, diarreia e vômitos. Seus proprietários decidiram então buscar a FMVZ/Unesp em busca de uma segunda opinião sobre o caso. Ao ser encaminhado para a Clínica Médica de Pequenos Animais, o animal realizou novos exames de sangue e urina, foi submetido à drenagem do líquido abdominal e realizou, numa clínica particular da cidade, exame ultrassonográfico abdominal que mostrou a dilatação de vasos hepáticos. Após a análise dos resultados dos exames, a suspeita dos médicos veterinários recaiu sobre a existência de uma doença hepática congênita.

O animal permaneceu em Botucatu para dar continuidade ao tratamento. No dia 29 de julho, foi realizado um novo ultrassom abdominal pela médica veterinária radiologista e ultrassonografista autônoma Danuta Doiche, que possibilitou o fechamento do diagnóstico de fístula arteriovenosa intrahepática, uma anomalia que afeta veias e artérias do corpo.

Considerada rara em animais, a doença é comum em humanos e pode ser resolvida com um procedimento cirúrgico. No Hospital Veterinário da FMVZ/Unesp, Gaya passou por uma tomografia computadorizada, realizada pela equipe do serviço de Diagnóstico por Imagem e por um ecocardiograma, realizado pelo Serviço de Cardiologia em Pequenos Animais, que descartou alterações cardíacas congênitas.

Sob cuidados
O animal permaneceu em Botucatu durante toda semana para acompanhamento diário dos parâmetros e administração de medicações, em “day care” na clínica particular onde haviam sido realizados os exames de ultrassom. Nesse período a médica veterinária Daniela Ferreira Santana, mestranda em Medicina Veterinária na FMVZ/Unesp, com ênfase em Cardiologia de Pequenos Animais, pesquisou e encontrou relatos que descreviam a realização do procedimento de embolização para casos como o da Gaya.

“Olhar um cachorro e falar para o dono que não tem o que fazer é muito difícil. O que temos que buscar enquanto médicos é ir até onde a gente pode. Se não existe nada que possa ser feito, precisamos pensar além e ver se realmente não há alguma outra coisa que possamos fazer para tentar salvar ou pelo menos aliviar a dor do paciente”, declarou a médica veterinária em entrevista ao Portal G1.

Ela fez contato com os médicos Marcone Lima Sobreira e Rafael Elias Farres Pimenta, cirurgiões vasculares do Departamento de Cirurgia e Ortopedia da Faculdade de Medicina da Unesp e docentes da disciplina de Cirurgia Vascular e Endovascular, para avaliar a possibilidade da realização de um procedimento conjunto.

Foi realizada uma reunião entre médicos veterinários e médicos vasculares atrás de uma melhor solução terapêutica para Gaya, com a presença da professora Cláudia Valéria Seullner Brandão, professora do Departamento de Cirurgia e Anestesiologia Veterinária da FMVZ, os professores Pimenta e Sobreira e a médica veterinária Danuta Doiche. No encontro, ficou decidido que seria feita a tentativa do procedimento de embolização dos vasos anômalos, mesma conduta tomada em humanos portadores da doença.

“Eu me sensibilizei, conversei com outros colegas da equipe e começamos a viabilizar material e local”, disse Marcone ao Portal G1. “Enquanto veterinários não tinham know-how [habilidade], porque é um procedimento que se faz em humanos, nós também não sabíamos como funcionava a anatomia do cachorro. Então nos reunimos para conversar e entender. Foi uma troca”, afirmou.

O procedimento cirúrgico realizado no dia 20 de agosto de 2019 reuniu uma grande equipe. Foram três anestesistas veterinários (pós-graduandas Mayara Travalini de Lima, Alice Rodrigues de Oliveira e Nathália Celeita Rodríguez), coordenadas pelo professor Francisco José Teixeira Neto, do Departamento de Cirurgia e Anestesiologia Veterinária da FMVZ; dois cirurgiões veterinários (a pós-graduanda Catarina Borges Cardoso e a professora Cláudia Valéria Seullner Brandão, do Departamento de Cirurgia e Anestesiologia Veterinária da FMVZ); a ultrassonografista Danuta Pulz Doiche; a mestranda Daniela Ferreira Santana; três cirurgiões vasculares (Rafael Elias Farres Pimenta, Marcone Lima Sobreira e Marcelo Sembenelli) e o técnico da unidade cirúrgica experimental Luiz Carlos Edvalter Bardella.

A anestesia e o procedimento cirúrgico minimamente invasivo foram realizados com sucesso, e a fístula principal foi embolizada após localização. Para acompanhamento de parâmetros vitais, medicamentos e analgesia, o animal foi submetido a internação durante quatro dias em clínica particular.

Desde o dia 23 de agosto, Gaya está fazendo terapia medicamentosa em casa, apresenta-se em bom estado geral, ativa, não acumulando líquido abdominal e se alimentando normalmente.

Para Silvia Benedicto, a tutora de Gaya, a união em torno da cura de sua cachorra foi um gesto de solidariedade, como ela declarou em reportagem do Portal G1. “O carinho deles com ela é lindo de ver. O que eles fizeram é impagável. A Gaya é como se fosse uma filha pra mim, então eu tenho muita gratidão por todos esses profissionais.”