OPINIÃO | O desmoronamento da pesquisa cientifica no Brasil

Cortar bolsas de pesquisa significa frear o desenvolvimento do País

por Cesar Martins*

Temos acompanhado intensa divulgação nas mídias acerca dos cortes nas bolsas de pesquisa da CAPES e do CNPq, ambas organizações do governo federal. As bolsas de pesquisa destas instituições beneficiam milhares de estudantes e pesquisadores do Brasil, que representam os recursos humanos responsáveis pela produção do conhecimento, da inovação e dos avanços tecnológicos que o País tanto precisa.

O CNPq e a CAPES foram criados em 1951 e, desde então, têm norteado o desenvolvimento do País, formando recursos humanos e produzindo ciência e inovação de qualidade. É esta ciência que proporciona o mundo que vivemos atualmente. Ciência possibilita o entendimento não só como o mundo funciona, mas como usá-lo de forma sustentável em nosso benefício.

César Martins é diretor do Instituto de Biociências de Botucatu

Particularmente no Brasil, a ciência na agricultura nos trouxe alimentação de melhor qualidade e também em grande quantidade, suficiente para ser exportada, gerando divisas que fazem hoje a diferença positiva na balança comercial do Brasil. É a ciência que coloca água limpa nas nossas torneiras, nos permite viver em residências confortáveis e seguras, sem falar na melhoria da nossa saúde, claramente exemplificada pela extensão da nossa expectativa média de vida que era de 45 anos na década de 1940 para mais de 77 anos nos dias de hoje.

Nesse sentido, cortar bolsas de pesquisa significa frear o desenvolvimento do País e retirar da perspectiva do brasileiro um futuro melhor e soberano. Ciência não é gasto, é investimento.

Além do fomento direto à pesquisa, as bolsas representam impacto de grande relevância na formação de recursos humanos que vai do ensino médio (Iniciação Científica Jr, Olimpíadas de Matemática), graduação, mestrado, doutorado, pós-doutorado, entre outras). A associação das Olimpíadas de Matemática com bolsas para alunos do ensino médio são um modelo fantástico, pois cria um perspectiva inclusiva a alunos em vulnerabilidade social.

Em Botucatu, a Unesp (com suas 4 unidades que incluem IBB, FCA, FMB, FMVZ) tem mais de 5.000 alunos de graduação e pós-graduação. Neste conjunto de dados, o IBB tem cerca de 980 alunos de graduação sendo que 120 deles são bolsistas de Iniciação Científica e, destes, 60 recebem bolsas do CNPq, no alvo dos cortes do governo federal.

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Na pós-graduação, o IBB tem hoje 412 estudantes, sendo 270 bolsistas. Destes, 218 são da CAPES e CNPq, também no foco dos cortes. Se nos espelharmos nestes dados acerca da situação no IBB e multiplicarmos isso pelas 34 unidades da Unesp espalhadas pelo estado de SP, assim como estendermos esta perspectiva para as quase 3 centenas de Instituições de Ensino superior do País, é possível imaginar o cenário trágico que se avizinha.

É por isso que o contexto das bolsas de pesquisa, em foco no  momento, tem grande relevância e precisa ser ressaltado. Defender a ciência do nosso País é uma questão de cidadania. Sem ciência, certamente não teremos um país melhor para se viver e, sobretudo, soberano.

 * Prof. Cesar Martins é do diretor do IBB/Unesp, destaca impacto do corte das bolsas CAPES e CNPq