O drama dos quase vencedores

Não saber lidar com as derrotas pode ser pior que a derrota em si

por Oscar D’Ambrosio*

Quem não viu ou ouviu falar de Rocky Balboa, o célebre personagem criado por Sylvester Stallone? Poucos, porém, lembram que a inspiração para esse ícone do cinema foi o real boxeador Chuck Wepner, que, em 1975, ao lutar contra Muhammad Ali, conseguiu derrubar o campeão do mundo, embora tenha sido derrotado por nocaute no último assalto.

Impressionado com a atitude e com a história de Wepner, Stallone criou a saga de Rocky, mas, enquanto seu personagem sempre se reergue, o pugilista real se envolveu com mulheres e drogas e acabou preso, numa espiral descendente que o afastou de todo aquilo que amava e gostava.

O filme “The Brawler”, dirigido por Ken Kushner, conta essa saga, inclusive o episódio em que Wepner, falidos, cobra de Stallone créditos por ter sido a matriz dos lucros obtidos coma história de Rocky. O processo terminou com um acordo entre as partes sem valores revelados, mas que prejudicou a imagem de Stallone na mídia.

Acima de tudo, a falta de sabedoria de Wepner para lidar com a carreira é enfatizada. Além de não se dedicar como deveria aos treinamentos, perdeu a chance de participar do filme Rocky II justamente pelo seu envolvimento com cocaína. Exibições contra lutadores de telecatch e ursos em circos o levaram para um poço ainda mais funcho.

Os excessos conduziram o ex-pugilista a perder o contato com a esposa, os filhos e o irmão, conseguindo se recuperar em parte graças ao amor de sua segunda esposa, Linda, vivida com carisma por Amy Smart. O despreparo para lidar com a fama trouxe deslumbramento e falta de critério nas escolhas existenciais.

O fato é que Wepner quase foi campeão mundial dos peso pesados e quase foi uma estrela de cinema. Fracassou nos dois objetivos. Esse quase que marcou a sua vida torna-se um ensinamento, pois não saber lidar com as derrotas pode ser pior que a derrota em si. Por fazer refletir sobre tudo isso, o filme é uma excelente matriz de questionamentos.

Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.