Beatles for ever

Mais importante do que ouvir Beatles ou conhecer Harry Potter é definir os valores pelos quais a nossa existência é pautada

por Oscar D’Ambrosio

A tentação de qualquer comentário sobre o filme “Yesterday”, de Danny Boyle, é começar perguntando se é possível imaginar um mundo sem os Beatles e as suas composições. Mas a obra está muito além disso, pois trata, na verdade, de processo criativo e da importância dos mitos para a cultura contemporânea.

A narrativa tem como eixo um apagão que faz com que sumam da memória coletiva não só os Beatles, mas também a Coca-Cola, Harry Potter e a banda Oasis. O protagonista, músico que tenta em vão conquistar o seu espaço, ganha a atenção da mídia justamente a apresentar ao mundo as canções do quarteto de Liverpool como se fossem suas.

O curioso é que não emplaca com facilidade. Demora a ser descoberto, mas, quando isso acontece, o sucesso mundial vem. E traz junto a solidão, a ganância e o afastamento do seu amor também. Nesse momento, é que a estória se torna mais cativante, pois o êxito, em suas várias facetas, apaga nele a luminosidade da amada, interpretada pela carismática Lily James.

Outro ponto essencial da obra é a presença do cantor Ed Sheeran, interpretando a si mesmo. O reconhecimento dele da sua inferioridade como compositor perante os Beatles é significativa, assim como os comentários da empresária do protagonista sobre o mundo da indústria musical e sobre a possibilidade de sucumbir perante a ganância do marketing.

O filme é muito mais que uma homenagem aos Beatles. Em sua essência está um romantismo que poucas obras contemporâneas contemplam. Existe uma percepção do mundo caracterizada pela convicção de que o mundo pode ser melhor ou pior de acordo com a leitura que fazemos dele.

Mais importante do que ouvir Beatles ou conhecer Harry Potter é definir os valores pelos quais a nossa existência é pautada. Essa característica intrínseca do ser humano de escolher seus caminhos é o maior patrimônio de cada um e nós – e precisa ser preservado acima de tudo, a cada instante, para a construção de uma sociedade melhor, onde, por exemplo, John Lennon, não seria assassinado.

Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.

Sobre Flavio Fogueral