O ódio do Coringa

É uma obra que obriga a pensar sobre a sociedade em que vivemos, em um mundo caótico

por Oscar D’Ambrosio*

Pare tudo o que você está fazendo e vá ao cinema! É sério. O filme “Coringa” consegue algo que há tempos não acontecia. É uma obra que obriga a pensar sobre a sociedade em que vivemos, em um mundo caótico, em que faltam detalhes para que tudo possa explodir em uma direção desconhecida.

Pode-se até pensar que isso é bom num primeiro momento, mas a questão central é a motivação para essa transformação. O diretor Todd Phillips consegue, pelo uso da câmara e pelo ritmo da narrativa, valorizar os motivos da violência do protagonista, interpretado magistralmente pelo ator Joaquin Phoenix.

O eixo que faz o filme funcionar está em mostrar como um rapaz oriundo de uma família desagregada que é explorado pelo patrão e pela sociedade no trabalho de palhaço vai crescendo em descontrole até se tornar um assassino. O curioso e significativo, porém, é que esse sentimento de raiva contra a sociedade é assumido pela população.

A ideia de eliminar os poderosos ganha as ruas com máscaras e violência discriminada. O sentimento não é nobre, mas retrata uma percepção de mundo que parece tender a crescer. Se parte da sociedade vive em anomia, no sentido de uma perigosa passividade; outra, como mostra o filme, pode tornar o ódio do Coringa num perigoso sentimento permanente.

Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.