Sobre "Vocês que defendem os Direitos Humanos e nunca passaram por uma situação como essa!"

Em tempos de raiva… a vida questiona até onde a justiça feita pelas próprias mãos é Justiça, com letra maiúscula

por Olavo Barros*

Depois de recentes discussões acerca da importância dos Direitos Humanos para a sociedade e da insistência das pessoas em falar “Vocês que defendem os Direitos Humanos nunca passaram por uma situação como essa! Bandido bom é bandido morto!”, gostaria de contar um pequeno relato pessoal, sobre o qual não costumo falar muito:

Em novembro de 1989, três meses antes de eu nascer, ao voltar de Suzano para Santo André, meu pai estourou o pneu do carro em que estava e, pelas más condições da estrada, parou num lugar que não tinha acostamento. Ao trocar o pneu, foi atropelado por um caminhão. O Motorista – escrevo com letra maiúscula porque é assim que gosto de chamá-lo – não prestou socorro.

Foi levado ao hospital e ficou alguns dias em coma. Aos 28 anos, ele faleceu. Três meses antes do meu nascimento, depois de menos de dois anos de casamento com a minha mãe, que sonhava ter uma vida inteira pela frente com o homem que ela escolheu.

Depois de conhecer a história e já ter capacidade de refletir sobre ela, na minha cabeça, um pensamento nunca me abandonou: por que o Motorista não prestou socorro? Como ele foi capaz de atropelar alguém e deixar essa pessoa lá, caída na estrada? Se o socorro tivesse sido imediato, poderia ter havido uma esperança…

Durante muito tempo alimentei sentimentos ruins: gostaria de encontrar o Motorista, de alguma forma reabrir as investigações e, assim que o encontrasse, o chamaria de monstro, diria que ele destruiu a vida da minha mãe, que tirou de mim os momentos que seriam vividos ao lado do meu pai e talvez até “fazer justiça com as próprias mãos”…

Mas, graças claro a educação que minha mãe me deu unida aos valores aos quais sempre me identifiquei e tomei para mim ao longo da vida, penso diferente: sim, gostaria muito que a justiça tivesse sido feita na época, que o Motorista tivesse sim sido processado pelos crimes de abandono de vítima e homicídio culposo e, se possível, condenado.

Hoje, o que eu ganharia se, por um acaso, tivesse levado a fundo uma vingança? Se o Motorista tivesse sido linchado, torturado, humilhado ou mesmo assassinado? Se o filho dele, assim como eu, tivesse sido impedido de ter momentos junto ao seu pai? Em que isso aliviaria a dor da minha mãe e a minha? Em que isso ajudaria outras pessoas que passaram e passam pela mesma situação que a gente?

Minha conclusão é muito clara: absolutamente nada. A dor do outro em nada alivia ou repara a minha dor.

Para os indignados com a violência do país, peço que parem e reflitam: do outro lado existe um Motorista, alguém cuja atitude de violência/indiferença você despreza. Ao se vingar, você se torna um Motorista como ele. E depois de tudo que passamos, tudo o que eu e minha mãe não queremos é ser um Motorista na vida de ninguém, porque sabemos bem como é.

Só o que me resta, portanto, é também lançar uma campanha, endereçada especialmente aos “jornalistinhas” de plantão que pregam o linchamento físico e moral contra aqueles estão fora-da-lei e, por algum motivo que eu custo a entender, consideram alguns deles menos humanos que outros: adotem, por favor, o bom senso.

*Olavo Barros é formado em Jornalismo, pela Unesp/Bauru, e atualmente vive e trabalha em sua cidade natal, Santo André/SP. Este texto foi publicado originalmente em seu perfil no Facebook

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