Microfones desligados

O direito a se manifestar jamais pode ser sobrepujado pela violência, intolerância, radicalismo ou covardia

por Flávio Fogueral* /foto de Fernando Frazão – Agência Câmara

Há tempos uma imagem não tinha tanto impacto como esta. Para quem decide fazer jornalismo e viver o jornalismo, está sujeito a condições muitas vezes discrepantes, insalubres e perigosas. Isso é um mero detalhe. “Vocês são um bando de carniceiros”, como os flagrados pelas câmeras de televisão de um suposto ‘black blocker’ no Rio de Janeiro, são palavras que todos os dias são proferidas a quem não compreende o papel social da imprensa. Se a realidade é a ‘carniça’, ela merece ser mostrada, sair do obscuro do público. Enfrentá-la.

Observei por longos minutos estas câmeras, gravadores e microfones desligados, colocados em frente ao sangue ainda na calçada do câmera da TV Bandeirantes, Santiago Andrade, morto enquanto cumpria seu dever, sua profissão, sua missão. A escolha que fez e perdeu a vida em atos que vão contra a cidadania. O direito a se manifestar jamais pode ser sobrepujado pela violência, intolerância, radicalismo ou covardia de poucos.

Se há problemas na sociedade, é dever do jornalista mostrar, relatar o que aflige os milhões que estão calados em seus rincões. São os excluídos da sociedade que são mais relegados à cidadania enquanto um gravador, microfone, câmera são desligados.

Um país realmente é democrático quando seus governantes e sua sociedade compreendem o papel da imprensa enquanto porta-voz de cada cidadão. Não importa a vertente ideológica, valores sociais implícitos e explícitos. O direito de falar e ser ouvido é sublime.

O Brasil é um dos países mais perigosos para ser jornalista. O Comitê para Proteção dos Jornalistas apurou que, entre 1992 e 2013, um total de 28 profissionais perderam a vida. No mundo todo, foram 1.041. O mesmo órgão constatou que entre esses jornalistas mortos, a grande maioria cobriam política, guerra e corrupção.

Santiago foi mais um dos que morreram e vão morrer no cumprimento do dever. E a cada jornalista morto, cada microfone e câmera desligados; blocos de anotações rasgados, mais um pedaço da democracia é arrancado de nosso país.

*Flávio Fogueral é jornalista botucatuense há cerca de 10 anos, é assessor de imprensa e colabora com o site Notícias.Botucatu

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