"Só a conscientização pode parar o Ebola", diz pesquisador

Especialista não crê na erradicação do Ebola devido ao estilo de vida das populações afetadas pelo vírus

da Assessoria da Unesp

O professor e pesquisador Jean Philippe Chippaux, do IRD (Institut de Recherche pour le Développement) – Instituto para o Desenvolvimento de Pesquisas – localizado na França, esteve em Botucatu entre os dias 1º e 5 de dezembro. Ele pertence ao Programa de Pós-Graduação em Doenças Tropicais da Faculdade de Medicina de Botucatu/Unesp (FMB) e ministrou a Disciplina de Tópicos Especiais: “Distinguished Tropical Diseases”, além de apresentar a conferência “Outbreaks of Ebola virus disease in Africa: the beginnings of a tragic saga”, no dia 2 de dezembro.

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“O problema é que não temos medicamentos ou vacinas, mas o número de mortos é de aproximadamente 30%, 35% dos casos”, diz Chippaux

Já no dia 3, Chippaux participou, no Departamento de Doenças Tropicais da FMB/Unesp, de reunião clínica com a presença de alunos do 5º ano de Medicina e também médicos residentes, quando abordou o mesmo tema envolvendo o vírus Ebola.

O especialista também participa de projetos em parceria com o Cevap/Unesp e o Instituto Vital Brazil (IVB), em Niterói, entre eles, o desenvolvimento de um soro contra o veneno de abelhas. Nos dias 4 e 5 de dezembro, acompanhou os professores Benedito Barraviera e Rui Seabra Ferreira Junior ao IVB para a inauguração da nova planta de produção de Soros Heterólogos, em Niterói (RJ).

Estudioso sobre a doença que tem matado milhares de pessoas na África, professor Chippaux, durante sua estadia no Brasil, concedeu entrevista onde fala da epidemia que tem sucumbido as regiões afetadas. Confira os principais trechos: 

É possível erradicar o Ebola, assim como aconteceu com a varíola no passado?

Jean Philippe Chippaux – Não acredito que seja possível erradicar o Ebola. Não se trata de uma doença de alta transmissão como o vírus Influenza ou as Meningites, por exemplo. Não há transmissão pelo ar ou por vetores (Ex: mosquitos). A transmissão ocorre somente por contato direto. Teoricamente, é fácil parar a transmissão, porém, devemos levar em conta o comportamento das pessoas que vivem nas áreas afetadas. O contato com os doentes e com os mortos em decorrência do Ebola deve ser evitado, mas é isso que as pessoas não entendem. Não há riscos de a epidemia atingir os países mais desenvolvidos, já que é uma “doença de pobre” (países socialmente precários), de pessoas que vivem próximo a florestas e com um sistema de saúde deficitário.

Foram essas condições que facilitaram o avanço da epidemia?

Jean Philippe Chippaux – Na África, todas as regiões de florestas são altamente povoadas, cerca de 100 milhões de habitantes. Podemos até apostar em uma estratégia de vacinação, já que teremos uma dentro de um ou dois anos, mas será um produto muito caro e não sabemos quem e como vamos imunizar as pessoas. Teríamos que imunizar todos os cerca de 800 milhões de habitantes das cidades, onde também há risco de transmissão.

Além disso, temos cinco medicamentos passando por ensaios clínicos, que poderiam curar a doença, mas são drogas que têm efeitos colaterais. Há, também, uma grande dificuldade para a distribuição desses medicamentos. A logística de tratamento não é viável na África atualmente, pois não temos uma saúde pública eficaz e também faltam recursos. A única alternativa é mudar o comportamento daqueles que vivem nas regiões de florestas para que eles parem de tocar nos corpos dos mortos, deixem de comer animais silvestres e também levem rapidamente para um hospital as pessoas com sintomas do Ebola. É um processo educativo.

Então a vacina não seria efetiva neste momento?

Jean Philippe Chippaux – Em Guiné, Serra Leoa e Libéria tivemos 15 mil casos de Ebola em 2014, o que não é muito, se comparado com outras epidemias. O problema é que não temos medicamentos ou vacinas, mas o número de mortos é de aproximadamente 30%, 35% dos casos. Nada pode parar a epidemia, pois é um problema de educação, logística, falta de profissionais de saúde, de medicamentos (só estão disponíveis remédios para combater os sintomas). Esse é o problema na África.

Estamos longe de termos um tratamento para o Ebola?

Jean Philippe Chippaux – Há ensaios clínicos de fases 2 e 3 em Guiné, Serra Leoa e Libéria, com medicamentos antivirais, vacinas, mas não há recursos para disponibilizá-los à população. Não temos pessoas interessadas em investir. São necessários milhões.

O fechamento das fronteiras dos países afetados pode diminuir o impacto global?

Jean Philippe Chippaux – Não acredito que haja uma eficácia em fechar as fronteiras. Isso não funciona com o Ebola. Não há como impedir as pessoas de transitarem entre os países. Fechar as fronteiras implicaria em um grande problema econômico. Seria um erro. Não apenas para a economia dos países, mas para o controle do Ebola também. Não poderíamos mais receber medicamentos, profissionais de saúde, não poderíamos mais construir hospitais, pois não teríamos materiais.

Voltamos ao ponto de que o caminho é a educação das pessoas?

Jean Philippe Chippaux – Sim. Na África, as pessoas têm um ritual que implica em preparar o corpo do ente que faleceu antes do sepultamento. Eles precisam lavar e beijar o cadáver antes de se despedir. Eles também guardam pertences daquele parente que morreu e esse objeto pode estar infectado. Por outro lado, para o doente, o apoio da família é o tratamento básico. Como dizer que eles não podem tocar no paciente?

Qual deve ser o futuro do Ebola?

Jean Philippe Chippaux – Difícil. Mas uma possibilidade é que seja desenvolvido um soro, como os antivenenos ou antitetânicos. Seria uma estratégia de profilaxia que poderia funcionar, mas, seguramente, o que é efetivo de fato é evitar o contato com os doentes. Atualmente, para cada pessoa infectada estima-se que haja outras 100 que tiveram contato com ela e devem ser monitoradas. Nem todos desenvolverão a doença, mas, talvez 10, sim. Se dermos um soro “antiebola”, que é mais barato, para essas pessoas, vamos interromper a transmissão. É uma estratégia que podemos propor, pois na África conhecemos bem a utilização de antivenenos, já que são registrados cerca de 500 mil casos de envenenamento por ano, especialmente em áreas rurais.

Há algum antídoto para o Ebola sendo desenvolvido?

Jean Philippe Chippaux –  Está em fase experimental. Precisamos de um ano aproximadamente para desenvolver esse produto.

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