O julgamento do século

Neste julgamento do século está em jogo toda conquista dos defensores progressista pela inclusão de cada cidadão ao poder político

por Daniel de Carvalho*

Mãos ao alto, panelas prontas e bandeiras aos céus. Identidades à mostra, todos, acompanhemos o julgamento do século! As câmeras estão atentas em Brasília, a mídia divulga, os grandes e os pequenos jornais ajustam suas câmeras, políticos sorriem para o selfie e preparam-se para cada pronunciamento, um mais importante do que o outro, vemos. Acompanhamos o julgamento. Acusação e defesa prontos, ‘SIM, SIM, SIM’, comecemos.

Temos em andamento o julgamento que tantos esperavam, um julgamento, por exigência, justo e igual como a democracia pede, uma análise equilibrada e aberta entre todos como cidadãos que são e cada ponto destacado será importantíssimo, tudo é posto sob juramento.

Todos postos prontos a julgar réus, jures e juízes, todos atentos para cada palavra que é dita, preparados para criticar seus opositores e apoiar seus defensores. Em meio à torcida, pessoas são agredidas por vestirem a camisa vermelha ‘do mau’. Agressores são cuspidos por seus abusos ‘verde-amarelo’. Todos querem justiça e todos querem fazer justiça, cansados. Estamos todos a postos, vigilantes, mas quem vigia a justiça? A TV, eu, você, o Moro!?

Temos que Dilma Rousseff​ é uma mulher que foi eleita e reeleita para um trabalho e está sendo acusada de um crime. Nós do PSOL temos inúmeras críticas a seu direcionamento e ao não cumprimento do Partido dos Trabalhadores do programa progressista aprovado na eleição 2014, atuando na política econômica como acusaram que faria a direita, e fazemos oposição à esquerda lutando democraticamente para que façam o que foi eleita para fazer. Mas a questão principal desse processo é outra, é este o julgamento do século, um julgamento nosso, meu e seu. Em meio a esse cenário somos todos réus.

Há diariamente a luta por direitos e confronto de interesses. Cada um luta por seus ideias sempre com base em seus próprios motivos. No trabalho, na rua, na padaria, na creche, muitas minorias e afastados do poder, o povo, sofrem diariamente pela falta de poder político e acesso à defesa e à direitos, distância proposital para que tenham dificuldade em se defender com justiça ou acusar com propriedade aos abusos no trabalho, no campo, no hospital, na escola e no dia a dia como um todo.

No processo de julgamento da presidenta, os juízes são os senadores. No dia a dia o ‘juiz’ é quem tem poder. Cabe à justiça julgar, sem câmera que divulgue na TV, sem analistas que a defendem para você, cabe em cada um a melhor decisão na própria luta por justiça mas a questão é: e se formos julgados por corruptos, investigados e réus, pessoas que só querem nos prejudicar para ter em nossa queda seu lucro? Mas isso não acontece com a gente, não…

Ninguém que critique a fila do hospital é inocente por não ter dinheiro para pagar hospital particular. Ninguém que critique a falta de merendas é inocente por não ter dinheiro para pagar uma escola particular. Ninguém. No julgamento do cidadão, os juízes populares são o patrão, são os que tem dinheiro, sobrenome e posses, são os vizinhos e próximos e todos os dias lutamos para que vivamos em uma comunidade que defenda o direito de todos, que haja equilíbrio e justiça para analisar os vários motivos e mediar uma decisão equilibrada.

Temos que lutar para que a justiça do dia a dia seja diferente, seja justa, e que cada cidadão seja incentivado a ter liberdade para lutar e sejam protegido contra os opressores e poderosos que veem ameaça no sucesso das conquistas do povo. Essa é a tradicional luta da esquerda, que haja equilíbrio nessa luta, mas nessas o tiro saiu pela culatra.

Houve uma total inversão de valores e a injustiça que vivemos no dia a dia agora atinge também a chefe política do Brasil, sendo julgada por juízes que já estão decididos, muitos deles réus e indiciados, e apesar da insistência dos ‘direitos humanos’ que defendem a todos, estes juízes também ignoram argumentos e partem do pré-julgamento preconceituoso para atacar quem lhes incomoda. Em Brasília, após ouvirem a acusação e antes de ouvirem a defesa, já foi dito ‘estamos decididos pelo impeachment’. Ontem advogado de acusação pelo SIM ao golpe defendeu que ‘não basta ser honesto para governar o país’ e que o julgamento deve ser apenas parlamentar, sem necessidade de que se comprove o crime.

Vemos um golpe em andamento, um golpe que o povo sempre sofreu com a ausência de direitos e justiça popular, e que agora, para enfrentar a crise, a elite econômica patrocina partidos da direita para retirar do poder a proposta de investimento no combate ao desequilíbrio social em favorecimento aos interesses privados que irão privatizar tudo, cortar investimentos na educação e saúde pública, e assaltar os avanços sociais e populares que vem capacitando todo cidadão a viver com dignidade. A presidenta Dilma vetaria estas propostas, o (vice) presidente Temer não, e elas já estão construídas no Congresso. Tentarão roubar os direitos do cidadão e do trabalhador para garantir o lucro dos empresários, se não por esse impeachment tentarão outro, e outro, e outro. Este processo todo é uma fraude, e está em andamento um golpe.

Neste julgamento do século está em jogo toda conquista dos defensores progressista pela inclusão de cada cidadão ao poder político! Toda luta pela liberdade individual e exposição justa pela defesa de cada trabalhador, está em jogo!

Sempre lutaremos para que todos tenham os mesmos direitos dos que tem tudo, independente de classe social, opção sexual, etnia, religião, e agora graças a dúvida gerada em todo processo de impedimento da presidenta da república, lutaremos para que os julgamentos injustos do dia a dia não façam mais uma vítima. Havendo crime que haja julgamento, havendo justiça que seja penalizada, mas não podemos creditar a criminosos e golpistas na luta pelo poder o mérito de jogar à injustiça qualquer cidadão. Todos, homens, mulheres, negros, lgbtts, indígenas, crianças, pobres, todos estão em julgamento e não podemos mais aceitar sermos julgados pelos interesses econômicos. Este julgamento é nosso, todo e somente nosso. Funcionários públicos, comerciários, estudantes, trabalhadores, moradores da periferia, mulheres, crianças, campesinos, ribeirinhos… Esta fraude ‘anticorrupção’ e seus motivos sem prova de crime já fizeram milhares de vítimas e, se concretizada, a derrubada da presidenta será apenas mais uma para a história.

Ao aceitarmos este golpe seremos golpistas, ao nos calarmos frente ao golpe seremos cidadãos, golpeados mais uma vez. Não passarão! Seguiremos na luta, juntos, ninguém fica para trás! A luta é todo dia e é para valer!

*Daniel de Carvalho é publicitário e Secretário de Comunicação do Partido Socialismo e Liberdade – Botucatu.

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