Compreendendo as palavras

Nosso vocabulário é repleto de estruturas cujas origens são gregas e latinas

por Nelson Letras 

Professor Nelson é formado pela Unesp de Assis

Professor Nelson é formado pela Unesp de Assis

Num dia desses, estava lecionando processos de formação de palavras, e um aluno questionou sobre o vocábulo “mastodonte”. E o que fiz? Separei a palavra em suas unidades formadoras, mast(o) + odont(e), e relacionei o radical odonte ao seu significado dente – assim como em odontólogo (profissional que trata os dentes) ou ortodontia (correta dentição, corrigir o alinhamento dos dentes). O problema foi que eu não sabia o significado de masto e também não percebia a relação do extinto animal com a palavra dente. Disse ao aluno a verdade: não sei, mas procurarei saber. Na outra aula, vim com a resposta, o antepositivo mast(o) significa seio, mama; a origem do nome mastodonte consiste em dentes (molares) semelhantes a mamas. O mastodonte foi um mamífero pré-histórico semelhante ao elefante, seus dentes molares possuíam formas que lembravam mamilos.

Nosso vocabulário é repleto de estruturas cujas origens são gregas e latinas. Para o significado de muitas delas, precisamos de um dicionário etimológico (que fornece a origem das palavras), mas para outras não, simplesmente devemos pensar um pouco para chegar a seus valores semânticos. Por exemplo: centímetro vem de cent(i) + metro, ou seja, um centésimo de metro, um metro dividido por cem; milímetro equivale a um metro dividido por mil; em quilômetro, quilo significa mil, portanto são mil metros; em quilograma, são mil gramas.

A compreensão pode ser mais difícil quando as raízes dos vocábulos possuem significados menos aparentes. Sabemos o sentido de filantropo, aquele que age em favor de seu semelhante; mas por que este é o significado? Resposta: a estrutura fil(o) de origem grega corresponde a amigo, queredor; e -antropo corresponde a homem. Logo filantropo é o amigo do homem, aquele que ajuda outro ser humano. Dessa forma podemos fazer outras associações: -logia corresponde a ciência, assim, antropologia é a ciência (estudo) do homem; -sofia é um termo também grego cujo significado é saber, por isso filosofia é ter amizade, amor pela sabedoria, pelo conhecimento.
Agora uma pergunta: qual é a forma correta, desinteria ou disenteria? Sei que alguns ficaram em dúvida, o que não é vergonha nenhuma, “eita palavrinha complicada”! O radical dessa palavra é énteron – vem do grego – cujo significado é intestino. O prefixo correto é o dis-, equivale a perturbação, dificuldade. Já o sufixo -ia possui a função de designar um substantivo. E chegamos à resposta: o correto é dis- enter(on) -ia, ou seja, disenteria (perturbação, doença dos intestinos).

Não é um assunto agradável falar de doenças, porém, aproveitando a ocasião e em defesa do conhecimento, cito o sufixo -ite, que significa inflamação, presente em inúmeros nomes médicos como amigdalite (inflamação das amígdalas), cistite (inflamação da bexiga), gastrite (inflamação do estômago), hepatite (inflamação do fígado), rinite (inflamação do nariz), sinusite (inflamação dos seios da face) etc., etc.

Mas chega de falar de doenças. Pra terminar, vamos a algumas curiosidades. É famosa a origem da palavra “você”; trata-se da abreviação de vossa mercê, passando por vossemecê, vosmecê e, finalmente, você. Surgiram ainda as formas vossancê e vossê. Ah, como estou ultrapassado, as abreviações continuaram: ocê, cê, vc. Estas últimas três formas não pertencem à norma culta, mas sim à linguagem do dia a dia, à linguagem mais simples, da internet. Já não tão famosas são as origens de donzela, visconde, motel, vinagre, embora e cadê. Donzela vem de dom + -ela (em que -ela é diminutivo, assim como em magricela), ou seja, é a filha do dom, do rei, do fidalgo; visconde é o vice do conde; motel (essa é boa!) vem da aglutinação de motor + hotel; vinagre, de vinho + acre; embora, de em + boa + hora; e cadê, de que + é + de.

E assim as palavras surgem, evoluem (ou retrocedem), não precisamos conhecer a origem de todas, no entanto não faz mal algum saber um pouquinho (ou poucochinho), pelo contrário, pois enriquece nossa compreensão vocabular.

*Professor Nelson é formado pela Unesp de Assis

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