As confidências involuntárias de Jucá

Mas quem vai, de fato, pagar o pato é o mesmo de sempre: o povo

por Valdemar Pinho*

A conjuntura não para de nos surpreender. Muitos reagiram com ceticismo às afirmações que fiz nas colunas anteriores sobre o complô para o golpe em andamento, com várias etapas agora já cumpridas. As falas do Jucá, Renan e Sarney, do PMDB e Sérgio Machado, que foi do PSDB por 10 anos e é do PMDB desde 2002, confirmam que o impeachment é um golpe com vários atores participantes, inclusive “ministros do Supremo”.

Valdemar Pereira de Pinho é professor aposentado da Unesp e membro do Partido dos Trabalhadores, em Botucatu.

Valdemar Pereira de Pinho é professor aposentado da Unesp e membro do Partido dos Trabalhadores, em Botucatu.

Machado diz: “É um acordo, botar o Michel (Temer), num grande acordo nacional”. E Jucá completa: “Com o Supremo, com tudo”. “Estou conversando com os generais, comandantes militares. Está tudo tranquilo, os caras dizem que vão garantir [o golpe]. Estão monitorando o MST, não sei o quê, para não perturbar”.

Mostra também o envolvimento de promotores e da Justiça. Os episódios de vazamento das gravações entre Lula e Dilma e da condução coercitiva de Lula, às vésperas da votação na Câmara, foram “para poder inviabilizar ele [Lula] de ir para um ministério”, e garantir a sequência do golpe. As investigações da Lava Jato sobre a corrupção na Petrobras (que é fato, disso não há dúvida) até agora foram seletivas tentando atingir exclusivamente o PT e viabilizar o golpe. Nas gravações os interlocutores tentam apressar o golpe como solução para encerrar a Lava Jato antes que atinjam o PMDB e a oposição, “delimitava onde está”. Jucá diz que no PSDB já “caiu a ficha” de que serão pegos “Todos eles. Aloysio [Nunes], Serra, Aécio”. E Machado complementa: “Tasso [Jereissati] também?” Jucá confirma: “Também”.

Jucá chamou o juiz Sérgio Moro de “uma Torre de Londres”, local de torturas no sec. 15 e 16 aonde os presos confessavam qualquer coisa. Machado diz que “Vai todo mundo delatar” e Jucá confirma: “O Marcelo e a Odebrecht vão fazer… Seletiva, mas vai fazer”. Qual seria a seletividade? A mesma que foi adotada pela Lava Jato até agora?

Renan diz que todos os juízes do Supremo estavam “putos” com Dilma por seu veto ao reajuste do Judiciário (de 51% a 78,5%!!) aprovado pelo Senado. Que, graças a Cunha, foi recolocado na Câmara em regime de urgência. Segundo Jucá, Renan não queria o Temer “porque não gosta do Michel, por que o Michel é Eduardo Cunha”
Quem comanda de fato o golpe é a “mão invisível” do “mercado”, cujo objetivo é fazer retroceder todas as conquistas sociais dos governos do PT e fazer o Estado voltar a cuidar apenas dos seus interesses, como foi na maior parte da história do Brasil, exceto Vargas, Jango e governos petistas. E garantir que não haja risco de voltar nas próximas eleições.

O suporte para o golpe vem da parte do Judiciário e da Promotoria Pública que atuam partidariamente, e da mídia praticamente monopolista no Brasil, ambos articulados nos vazamentos seletivos e no carnaval midiático, quando interessa. E o executor é um Congresso cuja maioria é eticamente desqualificada e foi eleita pelo poder econômico. Machado revela como se chegou a isso: “O que a gente fez junto, Romero, naquela eleição, para eleger os deputados, para ele [Cunha] ser presidente da Câmara?”

Quem acreditou (ainda acredita?) que o golpe foi pelas “pedaladas” ou pela corrupção estava desinformado. Para isso contribuiu decisivamente a imprensa partidária e manipuladora, pertencente a poucas famílias, que agora está noticiando secamente as denúncias contidas nas gravações. Onde estão os Mervais Pereiras para comentar com indignação? Se fossem de alguém ligado ao PT, o que estaria acontecendo na mídia?

Mas, por que o vazamento neste momento, se o Procurador tinha a gravação desde março, semanas antes da votação do impeachment na Câmara? Para não atrapalhar o impeachment, óbvio, mas talvez por algo mais.

Temer tem uma tarefa no golpe, mas a escolha de um ministério de incompetentes, corruptos e comprometidos com os interesses do capital multinacional (Chevron etc) levou este governo a um descrédito enorme, complicando muito o cumprimento de seu papel de desmonte do Estado. Se não conseguir, Temer será trocado por outro mais “capaz”.

Talvez Gilmar Mendes? O vazamento pode ser um aviso.

Quanto a Jucá, talvez seja contratado para substituir o pato em frente à FIESP. Mas quem vai, de fato, pagar o pato é o mesmo de sempre: o povo.

* Valdemar Pereira de Pinho é professor aposentado da Unesp e membro do Partido dos Trabalhadores, em Botucatu.

Os artigos assinados por colunistas não traduzem necessariamente a opinião do Notícias.Botucatu.

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