Vozes Verbais

Quando escrevo “sintaxe”, refiro-me à forma de as palavras se organizarem, ordenarem, combinarem, para que estabeleçam comunicação

por Professor Nelson 

Professor Nelson é formado pela Unesp de Assis

Professor Nelson é formado pela Unesp de Assis

É comum, ao caminharmos pelas ruas de nossa cidade, observarmos cartazes que nos chamam à atenção de prováveis inadequações gramaticais. Será que esta frase está correta? É assim mesmo que se escreve esta palavra? Quem não se deparou com construções sintáticas como, por exemplo, “aluga-se salas”; “vende-se esta casa”; “precisa-se de vendedores com experiência” nas quais aparece essa partícula “se”, e, verbos, às vezes no singular, outras no plural. Essa é uma dúvida que está presente no dia a dia do falante da língua portuguesa. As três frases, do ponto de vista comunicacional, estão corretas, pois são capazes de passar a mensagem ao leitor sem dificuldades de compreensão. Todavia, do ponto de vista gramatical, de acordo com as normas tradicionais de nosso idioma, há problemas de sintaxe.

Quando escrevo “sintaxe”, refiro-me à forma de as palavras se organizarem, ordenarem, combinarem, para que estabeleçam comunicação. É importante lembrarmos que a gramática normativa exige que os verbos concordem com seus sujeitos (ou seja, com as palavras, expressões que os conjuguem). Nas duas primeiras frases: “aluga-se salas” e “vende-se esta casa”, os verbos estão na forma passiva sintética; isso significa que seus sujeitos são pacientes, recebem as ações, portanto “salas” e “casa” são as palavras que conjugam os verbos. Se alterarmos estes para a voz passiva analítica, teremos as seguintes construções: “Salas são alugadas” e “esta casa é vendida”. Assim, a construção correta da primeira frase seria “alugam-se salas”, com o verbo acompanhado pela desinência de plural “m”, uma vez que o sujeito “salas” está no plural. Já a segunda frase está correta, porque o sujeito está no singular “esta casa”. A terceira frase “precisa-se de vendedores com experiência” também está correta, pois, neste caso, a palavra vendedores não é o sujeito, trata-se do complemento do verbo, que está na voz ativa, seu sujeito é o agente da ação; entretanto esse agente é indeterminado pelo pronome “se”; ou seja, alguém precisa de vendedores (o verbo deve permanecer no singular).

A grande dica para não confundirmos as duas construções é observarmos a transitividade verbal. Quem aluga, aluga algo; assim como quem vende, vende algo; mas quem precisa, precisa “de” algo. Os dois primeiros verbos são transitivos diretos, regem, pedem complementos sem a necessidade de uma preposição, já o terceiro verbo (transitivo indireto) rege um complemento antecedido por preposição (de). Aquela inversão que fiz nas duas primeiras frases “casas são alugadas”, “esta casa é vendida” não pode ser feita na terceira “de vendedores são precisos”, pois a preposição “de” impede esse tipo de construção.

Por se tratar de uma construção sintática de difícil entendimento, não há por que ficar se martirizando pelo fato de em uma ou outra ocasião não se fazer a concordância verbal adequada. Porém, quando os textos exigirem o uso da norma culta, é importante analisarmos a frase com mais calma e dedicação para que tais falhas não ocorram.

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