Mídia e manipulação da Opinião Pública

A localização da notícia no jornal é fundamental. Se está na primeira página ou nas interiores, se é no alto ou no pé da página

por Valdemar Pereira de Pinho*

A mídia, incluindo a imprensa, pode manipular a formação da opinião pública? Há vários estudos comprovando ser possível, e como isso é feito no mundo todo e no Brasil. A imprensa se declara com um papel de guardiã da democracia, com isenção, imparcialidade e equilíbrio. O que ocorre na prática nem sempre é isso e, muito frequentemente, é o oposto disso. O mais comum tem sido a manipulação das informações para atingir os objetivos de alguns grupos, aos quais se associa por interesses ou ideologia, ou por ambos. Como eu disse no artigo anterior desta coluna, não há neutralidade na mídia, como não há neutralidade em nenhuma área da sociedade. Esse “ter lado” é socialmente determinado. Ruim é isso não ficar claro para todos e não existir o contraditório. O pensamento único e a ilusão da verdade absoluta são uma catástrofe. É um tema complexo e precisarei de mais de um artigo para abordá-lo.

O americano Noam Chomski, cientista cognitivo, filósofo, comentarista e “o pai da linguística moderna” afirma que “quando você não pode controlar as pessoas pela força, você tem que controlar o que as pessoas pensam…”, através da “fabricação de consentimento e criação de ilusões necessárias”. Isso ocorre não só na formação de concepções políticas, mas também na criação de “necessidades” de consumo e estilos de vida. Os profissionais dos meios de comunicação assumem um “viés social”, originado como “inclinação ou tendência de uma pessoa ou de um grupo” que tem inferências e julgamentos parciais sobre a realidade. Esses submetem cada notícia ao crivo de “cinco filtros”, determinados pela Propriedade (ligação a grandes grupos econômicos), Financiamento (quem gera lucro para o jornal é a publicidade; o número de leitores é importante para conseguir mais publicidade), Fonte (as notícias publicadas são geradas por um número limitado de agências, ligadas a grandes grupos de mídia), Pressão de grupos (pela manutenção da linha de acordo com seus interesses) e Prestígio profissional (segundo normas comungadas por seus pares). Isso resulta em notícias que atendem aos interesses do meio de comunicação ou de quem eles representam, nem sempre (ou raramente) aos interesses da maioria da sociedade.

A localização da notícia no jornal é fundamental. Se está na primeira página ou nas interiores, se é no alto ou no pé da página, se é no primeiro caderno ou nos demais, muda tudo. A maioria dos leitores lê as manchetes principais e os subtítulos e só avança para o texto se o assunto for especialmente de seu interesse. Mas forma uma concepção baseada na manchete. Você, leitor, que lê a manchete e o texto, já percebeu que algumas vezes um não corresponde ao outro? As notícias que não interessam, mas não há como não noticiar, são confinadas ao rodapé dos cadernos internos do jornal. No rádio e TV o tempo de duração da notícia, se é ou não seguida de comentário, qual a posição do comentarista sobre a questão e qual o horário de divulgação fazem toda a diferença na formação da concepção do cidadão.

As redes de TV têm cada vez mais “especialistas” como comentaristas. Todos os economistas que eu vi na Rede Globo têm a mesma concepção neoliberal, crêem na “mão invisível” do mercado e defendem a redução drástica do Estado, e seus comentários e prognósticos são coerentes com essa concepção. Como nunca há quem comente baseado em outras concepções, o telespectador que é leigo em economia (a imensa minoria), só pode concordar com esse “pensamento único”.

Há alguns meses atrás a Rede Globo mostrou que uma escola do interior do nordeste estava funcionando em uma estrebaria porque o prédio da escola estava com as obras paralisadas. Em seguida entra o comentarista durante três minutos, dizendo com voz grave que “essa é a situação da educação neste país, onde o governo coloca a educação na estrebaria e blá, blá blá”. Não foi informado que era uma escola municipal rural, provavelmente a única naquela situação, mas a crítica era “ao governo”. Será que a audiência atribuiu o problema ao município ou ao governo federal? Coisas como essas eram repetidas nos noticiários de todos os canais de TV até ser consumada a primeira parte do golpe.

E a manipulação das manchetes nos jornais, rádios e TV como arma política? No exemplo da desvalorização do Real, a mesma notícia que teve duas manchetes e tratamentos opostos em momentos diferentes: “Dólar dispara e as viagens ao exterior despencam”, com subtítulo “agências de turismo pretendem demitir funcionários” (logo antes do impeachment da Dilma); “Dólar alto atrai turistas estrangeiros e aquece o turismo interno”, e texto sobre impacto positivo nas agências de turismo (logo após a posse do Temer). Claramente a intenção era passar um viés negativo no primeiro caso que, com a mudança de governo após o golpe, se transformou em viés positivo.

Na sequência deste artigo, na próxima semana, vou tentar sintetizar os mecanismos e estratégias da manipulação política, segundo estudiosos da mídia.

*Valdemar Pereira de Pinho é professor universitário e membro do Partido dos Trabalhadores de Botucatu

**Os artigos dos colunistas não traduzem necessariamente a opinião do Notícias.Botucatu

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