Pipoca, coxinha e bala

No Brasil somente 5% dos homicídios são solucionados, contrário aos 65% nos Estados Unidos ou 85% do Reino Unido

por Daniel de Carvalho*

É garantido na Constituição, em seu artigo 5º, que ‘ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado’, mas na prática a teoria é outra, onde a presunção de inocência e o julgamento são feitos em segundos, sem direito de defesa, e cabendo os critérios deste julgamento a cidadãos treinados para ‘solucionar problemas’, objetivo além de qualquer defesa sobre o que está escrito naquele artigo.

No sábado, 25 de junho, Wallace, de 18 anos, morador de Heliópolis, São Paulo, saiu às 18h com seu primo e amigo de 14 e 11 anos para comprar coxinhas. No caminho foram parados por um homem, acompanhado de uma mulher, com arma em punho. ‘Perdeu, ladrão!’, gritou, se identificou como policial militar e solicitou documentos. Wallace, sem seu RG, ao contrário dos amigos que foram liberados, foi lançado contra a parede e espancado, conforme gravação de vídeo, até que uma viatura da polícia militar atentasse à movimentação e o recolhesse no chiqueirinho onde foi levado embora. Wallace, filho de coletor de lixos, foi encontrado por seus familiares três dias depois na Praça da Sé após a família fazer as investigações por conta e ir aos locais frequentados por moradores de rua da cidade.

No mesmo sábado, 25 de junho, Waldik, 11 anos, foi morto pela Guarda Civil Metropolitana, incumbida de proteção dos prédios e espaços públicos de São Paulo, após serem avisados por motoqueiros que um Chevette prata estaria cometendo furtos na região. O carro foi alvejado com um único tiro no vidro traseiro que acertou a cabeça da criança que estava no banco traseiro. Na primeira investigação, o GMC afirmou que revidou disparos mas o advogado investigativo afirma que as janelas se encontravam com as janelas fechadas, sem resquício de tiro do interior do veículo e não houve nenhuma intenção de parar os suspeitos, mas de assassiná-los – “sequer existe comprovação de que os ocupantes do Chevette estavam efetivamente cometendo crimes, e nenhum tiro atingiu a lataria ou os pneus do carro… Na prática, mais uma criança foi assassinada por agentes do estado, agora por guardas municipais”.

Na sexta-feira, 1º de julho, Jhonata, 16 anos, morador do Morro do Borél, Rio de Janeiro, saiu pegar pipoca na casa de sua tia para a festa do irmão caçula na escola. Munido de uma caixa de sacos de pipoca, foi morto com um tiro de fuzil na cabeça ao ser confundido com traficante carregando sacos de drogas. Enquanto a mãe, Janaína, ficou o velório e o cortejo todo agarrada ao caixão de seu filho, se despedindo, o avô, acostumado a viver ‘no lugar errado e na hora errada’, como justificam sempre a violência nas comunidades vulneráveis, questionava “porque não mandaram que ele parasse para averiguação?”. À Divisão de Homicídios, declararam que o jovem morreu após troca de tiros e que Jhonata portava uma arma, não encontrada.

 ‘Todos somos inocentes até que se prove o contrário!’

‘Quem não deve não teme!’

Duas frases. Dois símbolos da distância que há entre as comunidades do Brasil, uma sociedade teórica baseada na Constituição que garante direitos e compromissos do Estado com cada um de nós onde sejamos justamente respeitados e tenhamos, todos, nossa dignidade garantida, valorizados como cidadãos e pilares de uma sociedade igual para cada um de nós, botucatuenses e brasileiros, e outra a imposição do opressor, seja por possuir poder econômico e visibilidade da mídia ou imposição social pela posição que detém, que defende que a investigação deve haver sempre, destacando inclusive que se não houver qualquer dívida com os compromissos sociais assumidos – e exigidos – o cidadão não deve temer esta investigação.

Na prática a teoria é outra. No Brasil somente 5% dos homicídios são solucionados, contrário aos 65% nos Estados Unidos ou 85% do Reino Unido. Temos números de assassinatos cometidos por agentes do Estado semelhantes aos de países em situação de guerra. Em São Paulo, uma em cada quatro vítimas foi morta pela polícia; na periferia a relação é de uma em duas mortes. Vivemos uma realidade onde 70% da periferia é negra. O desprezo programado pela vida merece uma análise específica.

Números que refletem uma sociedade desigual e, mais assustador, especificam um Estado que trata cada área da sociedade de maneira diferenciada. Não havendo representatividade ou respeito a cada um de nós por igual como construtores e representantes de uma sociedade que segrega e cala opiniões da periferia, sem poder algum, o poder público que sustentamos age conforme os holofotes e roupas que se usa, do local onde está o fato e do alcance de sua expressão, e é daqui que brota a raiz da desumanização das relações entre todos e cada um de nós. Precisamos colocar em prática o que é exigido na teoria e combater a todo momento que se cale a voz da periferia que vive além dos direitos e aquém dos holofotes que olham apenas os ‘cidadãos de bem’ e bem vestidos. Não existe local errado e hora errada quando se trata de ações abusivas ou constrangedoras, mas sim cidadãos sem direitos ou oprimidos da expressão de sua realidade que, desta forma, ajudamos todos a manter afastado da problemática urbana coletiva, abafando do debate as histórias como as de Wallace, Waldik e Jhonata, iniciadas em ambientes desprovidos de direitos, carentes de sonhos, e finalizadas em um cotidiano desumano, prático e intolerante. Bandido bom é bandido morto? Mas quem é bandido? Porque ele tem que ser morto? Essa lógica tem que acabar de existir e precisamos de mais amor, por favor. Seguiremos juntos, todos. Só a luta muda a vida.

Daniel de Carvalho  é publicitário e Secretário de Comunicação do PSOL Botucatu.

**Os artigos assinados por colunistas não traduzem necessariamente a opinião do Notícias.Botucatu

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