Vale tudo na campanha eleitoral?

Aqui em Botucatu a campanha não tem tido manifestações expressivas de ódio e intolerância, ao menos por ora

por José Everaldo da Rocha*

Estamos em plena campanha eleitoral, um momento que poderá ser importante para o avanço para uma cidade mais justa e um convívio democrático civilizado. Por isso, é importante refletir sobre o momento eleitoral que vivemos.

Pelo que temos visto em eleições, não só no Brasil, o que menos se discute são as propostas dos candidatos. Infelizmente. Os adversários são inimigos a ser abatidos a qualquer custo. E, para isso, vale tudo. Invasão da vida privada à procura de algum “escândalo” ou preferência sexual não ortodoxa, e por aí vai. O principal trabalho de alguns marqueteiros não tem sido o de trabalhar as propostas do candidato para melhor compreensão do eleitor, mas criar e divulgar “fatos” que desabonem o adversário. Com isso, o processo eleitoral, que poderia ser muito rico para o eleitor formar sua opinião sobre a competência dos candidatos e sua visão de mundo, e para aprofundar as propostas de governo e a sua viabilidade, acaba afastando o eleitor e estimulando a visão de que política é baixaria. Podemos perder mais uma chance de utilizar um momento eleitoral para aprofundar a compreensão sobre o que deveria ser a política como instrumento de aprimoramento da democracia e de construção de uma sociedade cada vez mais justa.

Nos EUA o espetáculo midiático da campanha do Donald Trump conseguiu garantir apoio à sua candidatura pelo Partido Republicano com desdobramentos preocupantes para o mundo todo. Suas declarações fascistas de ódio aos imigrantes, apoio à venda indiscriminada de armas aos cidadãos e à repressão a pobres foi útil para conseguir o apoio da direita mais truculenta nas prévias. Mas, Trump é boçal e parece que tem imenso prazer em ser boçal, declarando que os seus apoiadores do lobby das armas poderiam dar um jeito na Hillary Clinton. Por que estou escrevendo sobre a política americana? Porque a intolerância da direita americana é a mesma da maioria das direitas em todo o mundo. A onda conservadora aproveita este momento para manifestar sua intolerância. Inclusive no Brasil. Vemos nas redes sociais manifestações racistas e de ódio, tendo como pretexto as disputas eleitorais democráticas.

Aqui em Botucatu a campanha não tem tido manifestações expressivas de ódio e intolerância, ao menos por ora. Mas, será que está contribuindo para o aprimoramento da democracia? Os programas dos partidos e candidatos têm sido suficientemente claros para que o eleitor forme sua convicção para um voto consciente? Se depender de alguns panfletos que vemos por aí, não. Uma série de “vou melhorar” a Saúde, a Educação o Esporte etc, aparece em panfletos e postagens. Não estou duvidando das intenções desses candidatos, acredito que eles gostariam, mesmo, de melhorar tudo isso. Mas, essas formulações genéricas expressam, no máximo, apenas a vontade de resolver problemas. Todos, supostamente, têm esse desejo. Mas, se o candidato não souber, e disser, COMO pretende fazer, o eleitor tem direito de duvidar da sua capacidade para ser Prefeito ou Vereador. Também é verdade que a maioria das pessoas não lê e não ouve explicações muito longas, e o candidato tem que ser sintético ao divulgar as suas propostas. Mas, se ficar no “VOU FAZER” sem dizer “COMO”, corre sério risco de não se eleger.

Outro fenômeno preocupante que temos observado nas redes sociais é a intenção de alguns de transformar Deus em cabo eleitoral. A fé de cada um é questão de foro íntimo, e todos nós temos direito de defender nossas crenças. Acontece que a manifestação da fé não garante que o candidato tenha clareza dos problemas prioritários a serem solucionados, nem de sua capacidade para isso. Mesmo porque Deus vai iluminar a todos os que forem eleitos.

*José Everaldo da Rocha é Metalúrgio e Presidente do PT Botucatu

**Os artigos dos colunistas não traduzem necessariamente a opinião do Notícias.Botucatu

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