Festival Nacional de Hipocrisia

O “mensalão tucano”, anterior ao do PT e no qual todos dizem que o PT foi buscar a tecnologia, não teve o mesmo sucesso midiático

por José Everaldo Rocha*

O título da coluna de hoje tem rolado na internet nos últimos dias. Mas o Festival é bem mais antigo na política brasileira, com várias edições repletas de performances dignas de artistas renomados. Tem garantida a divulgação pela chamada grande mídia e o patrocínio de algumas figuras ilustres do campo político, jurídico e policial. Com aplausos da platéia.

Mas nem todas as atrações têm o mesmo sucesso, o que é uma injustiça com alguns que são relegados ao segundo plano, ou nem aparecem na programação. Em algumas edições surgem inovações, a mostrar a criatividade do brasileiro.

O julgamento do “mensalão do PT” teve suporte de mídia 24 horas por dia em todos os canais de TV, repercussão maciça nas redes sociais e comentaristas escolhidos a dedo, tudo pra chegar ao resultado previamente definido e conhecido. Mas foi um grande espetáculo que lançou ao estrelato o seu condutor, ministro Joaquim Barbosa a julgar baseado no domínio do fato. Todas as provas apontavam para caixa doisde doações de empresas. Todo mundo sabia que isso era comum a todos os partidos, mas isso não vinha ao caso, pois não estava no script do show. Era preciso condenar toda a direção do PT para que não ganhasse as eleições seguintes. A inovação foi a interpretação brasileira do “domínio do fato”, rejeitada pelo jurista alemão que a criou, Claus Roxin. Segundo Claus, quando um dirigente passa uma tarefa a um subordinado, não pode ser responsabilizado pela atuação dele, a não ser que ele tenha conhecimento de que a ordem será cumprida de forma ilícita. E a polícia e a justiça tem que ter provas disso. Mesmo sem essas provas, vários foram condenados a penas desproporcionais ao delito.

Já o “mensalão tucano”, anterior ao do PT e no qual todos dizem que o PT foi buscar a tecnologia, não teve o mesmo sucesso midiático. Os autores do script não tiveram interesse em promover seu espetáculo. Depois de dormir por anos no Supremo foi remetido à primeira instância e vai caducar sem chegar a prender ninguém.

Agora temos mais uma edição do Festival, que já dura alguns anos: a operação que, provavelmente vai culminar com o golpe midiático-jurídico-parlamentar no governo da Presidenta Dilma. Mais uma vez com desfecho previsto desde o início da eletrizante trama. Em março de 2014 foi lançada a Operação Lava Jato para apurar um esquema de lavagem de dinheiro e chegou a um esquema de desvio de dez bilhões em propinas, podendo chegar a quarenta bilhões. Corrupção da grossa. Desta vez, vai, era o que todos pensavam. O escândalo foi fartamente usado nas eleições de 2014 e a oposição ao PT tinha certeza que, finalmente, ganharia as eleições. Perdeu, e já no fim do dia das eleições os derrotados sentenciaram que a Dilma não governaria. A Câmara, coordenada pelo Eduardo Cunha, garantia que a Dilma não governasse.

As investigações foram avançando focando exclusivamente o PT e seus aliados. O vazamento seletivo de “fatos” pela força tarefa da Lava Jato em articulação com a grande imprensa, visava acabar com o PT. Muitos vazamentos ilegais que depois não eram confirmados, mas que cumpriam o seu papel de envenenar a opinião pública contra o PT e seus dirigentes. O alvo principal era, e é, a caça ao Lula para evitar que concorra a Presidente em 2018. Moro vaza gravações ilegais, que não apontam nenhum crime, mas que foram usados para evitar que Lula assumisse a Casa Civil do governo Dilma. Moro manda prendê-lo para que preste depoimento sem antes convocá-lo. O tucano Gilmar Mendes, ministro do STF, vem a público pra “condenar” agressivamente o Lula sem provas e a imprensa aplaude. Vários agentes do Estado cumpriram o papel de vazar supostas provas de ilícitos dele, da Dilma e do PT. Investigados, nada comprovaram. O apartamento não é dele. Nem o sítio. As calúnias invadiram as redes sociais. Quando na delação alguém do PSDB e aliados era citado, “não vem ao caso”, como declararam Moro e membros da Lava Jato. Tudo isso com a chancela do Procurador Geral da República, Rodrigo Janot e da maioria dos ministros do Supremo.

Agora vem a Veja e publica na capa que uma delação premiada acusa um ministro do Supremo e, no texto do artigo já faz a defesa do mesmo. É uma acusação em um vazamento de uma delação. Acusação não é prova, nós do PT sempre dissemos isso. Mas tem que ser investigada. Será que vai ser, como todas as outras que denunciam o PT? Eis que surge quem? Ele mesmo, Gilmar Mendes, acusando a equipe da Lava Jato de “falsos heróis” que “combatem o crime cometendo crime” e que avizinham o Brasil do “terreno perigoso de delírios totalitários”. “Não é de se excluir que isso esteja num contexto em que os próprios investigadores tentam induzir os delatores a darem a resposta desejada ou almejada contra pessoas que, no entendimento deles, estejam contrariando seus interesses”. E só descobriu isso agora? Por que apoiou vazamentos quando as acusações foram contra petistas? Como descreveu o jornalista Bajonas Teixeira, “O que se viu repetido em vários blogs foi uma teoria muito simples e clara: Quando as delações atingiam Lula e o PT, Gilmar não via nada de errado. Agora que Aécio Neves e José Serra estão sendo envolvidos, aflorou a indignação à flor da pele do ministro”.

Entra em cena Rodrigo Janot e… cancela a delação premiada. A Lava Jato volta ao seu papel principal de prender Lula e acusar só o PT? Ou acaba? Lembram das gravações das declarações do Romero Jucá?

Declaração de um Procurador da Lava Jato publicada pela Folha: “Éramos lindos até o impeachment se tornar irreversível. Agora que nos usaram para tirar quem queriam, desejam dizer chega”. E o Festival continua.

*José Everaldo da Rocha é Metalúrgio e Presidente do PT Botucatu

**Os artigos dos colunistas não traduzem necessariamente a opinião do Notícias.Botucatu

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