Vence o Bastião do homem branco raivoso

Quando Donald Trump se candidatou à presidência, vários grandes veículos de imprensa encararam a entrada do magnata na corrida como uma piada

por Alfredo Juan Guevara Martinez*

Nas últimas semanas, apesar dos escândalos sobre e-mails, os resultados das pesquisas fizeram com que Hillary Clinton fosse  “só sorrisos” e, nos debates eleitorais, era evidente sua satisfação ao perceber que levava a melhor sobre seu adversário. No entanto, como diz o ditado popular, “quem ri por último ri melhor”.

Contrariando a maior parte das pesquisas, Donald Trump será o próximo presidente dos Estados Unidos. Esse fenômeno é visto de forma diferente pelo mundo e pelos Estados Unidos. Dentro do país, a derrota de Clinton deixou claro os efeitos da polarização e cisão da sociedade estadunidense, em que o próximo presidente é visto como um símbolo de ruptura da tradição política. No restante do mundo, a reação ao resultado da eleição foi visto com reações diversas, indo do assombro e espanto a comemoração.

Quando Donald Trump se candidatou à presidência, vários grandes veículos de imprensa encararam a entrada do magnata na corrida como uma piada. Conforme ele foi avançando nas prévias, algumas análises  sugeriam que o apoio recebido por Trump era, na realidade, um deboche com o propósito de passar a mensagem “estamos insatisfeitos com o panorama político”. Já na corrida dos últimos 6 meses, como candidato oficial Republicano, o apoio recebido por Trump e sua agenda política esclareceram que não se tratava somente de um deboche, mas sim de um levante de insatisfação. O que não se sabia era quão grande seria a bola de neve desse levante, de forma que o mapa eleitoral de 2016 – totalmente vermelho – representou um  “tapa na cara” do partido Democrata.

O slogan “A maioria silenciosa está por Trump” veio em resposta às minorias que se sentiram atacadas pelo candidato e se organizaram para apoiar sua oponente. Os dados demográficos das eleições são claros: o eleitor médio de Trump, que o levou a vitória, é homem, branco, acima de 30 anos, das classes B e C. A proposta política de Trump não é exclusividade no mundo atual, seu discurso conservador e inflamado possui certas peculiaridades, mas detém muitas similaridades com movimentos políticos que vem ganhando força ao redor do mundo. A bem verdade é que não se pode negar que nos últimos 20 anos o globo tem sofrido mudanças progressistas gradativas, e a agenda política que Obama pôs em prática é exemplo disso, desde o simples fato dele ter sido o primeiro Presidente eleito, até práticas políticas como o Obamacare e a mudança de relações com Cuba. Como consequência, qualquer transformação social é um rompimento com um sistema “estável”, e um rompimento implica em enfrentar algum tipo de resistência (seja ela passiva ou reativa).

A vitória de Trump é nada mais do que a resistência se sobrepondo às transformações pelas quais vem passando a sociedade dos Estados Unidos, daí o slogan “Make America Great Again”. Considerando que as eleições foram polarizadas, não porque ambos os candidatos eram fortes e carismáticos e representavam ideais distintos, mas sim porque se tratava de “qual era menos odiado”, a vitória de Trump é o equivalente a uma multidão enraivecida, armada com tridentes e tochas, clamando que está cansada de ser “silenciosa”.

Contudo, há de se admitir que é difícil prever o que vem por aí. Hillary Clinton, ao contrário de seu opositor nas primárias, Bernie Sanders, não era uma candidata de ruptura com o sistema, era esperado que seu governo seguisse tradições políticas históricas de todos os governos dos Estados Unidos.  Com a vitória de Trump, já há evidências de ruptura pelo menos no comportamento eleitoral do cidadão americano. Para o bem ou para o mal, o Congresso do país se manteve Republicano, implicando que Trump terá apoio no Legislativo. Agora cabe aguardar para ver se ele vai amenizar sua postura explosiva e se transformar em mais um político usual, ou se teremos um realmente um Muro, banimento de muçulmanos, obliteração do Estado Islâmico, protecionismo econômico contra a China, deportação em massa de imigrantes, “cobrança de aluguel” a membros da OTAN, amizade com Putin, entre muitos outros fenômenos que mais parecem obra de ficção de Relações Internacionais.

Alfredo Juan Guevara Martinez é mestre em Relações Internacionais pela PUC-MG, doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP, UNICAMP e PUC-SP) e pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Estudos sobre Estados Unidos (INCT-INEU) e do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais da UNESP (IEEI-UNESP).

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