Como fica Cuba com Trump Presidente?

Donald Trump mudou de postura, pelo menos, duas vezes em sua campanha na temática sobre Cuba

por Alfredo Juan Guevara Martinez*

Com o Congresso e a Presidência dominados pelos Republicanos, os Estados Unidos mudam sua face política para o mundo, e é esperado que muitas das estratégias adotadas por Obama fiquem para trás. Um dos legados mais marcantes na política externa da administração que agora termina, foram as mudanças realizadas nas relações com Cuba

As iniciativas de normalização das relações com Cuba sofreram, desde o início, oposição da maioria republicana no Congresso, levando a que todo o progresso feito até agora, partisse unilateralmente do Poder Executivo, isto é, do Presidente Obama. Assim, as relações com Cuba foram pauta da corrida presidencial, que contou com dois pré-candidatos conservadores descendentes de cubanos, e descontentes com a mudança na política externa para a Ilha.

No que diz respeito a Donald Trump, o Presidente eleito mudou de postura, pelo menos, duas vezes em sua campanha na temática sobre Cuba. No início da corrida eleitoral ele considerou que poderia ser vantajoso fazer negócios na Ilha, mas na reta final, ao fazer campanha na Flórida para grupos cubano-americanos conservadores, ele afirmou que poderia reverter todas as iniciativas feitas por Obama, caso o governo de Cuba estivesse, em sua visão, desrespeitando direitos humanos e democráticos.

À primeira vista pode parecer simples o que está por vir: um governo composto com Legislativo e Executivo republicanos estaria mais inclinados a reverter todo o processo. Mas isso é simplificar uma situação que hoje envolve muitos mais interesses dos que são visíveis a olho nu. A estratégia de normalização feita por Obama, foi baseada em uma visão macroestrutural de mudanças tanto nos Estados Unidos e em Cuba, quanto no mundo. Se aproximar de Cuba significava projetar uma imagem mais positiva diante do mundo e da América Latina, buscando diminuir a percepção externa de imperialismo. Além disso, a nova estratégia tinha o intuito de promover, passiva e pacificamente, mudanças na sociedade cubana, que com o tempo culminariam em mudanças em seu governo. Bem ou mal, as medidas de flexibilização adotadas por Obama também afetaram a sociedade dos Estados Unidos, com o turismo cada vez mais liberado, a proposta era se aproveitar do envelhecimento das animosidades para fomentar uma mudança cultural na forma como os americanos enxergam Cuba.

Não fosse o ativismo e empenho de Obama em promover o maior número de mudanças possíveis em seu alcance, antes do fim de seu mandato, a aproximação com a Ilha poderia ser revertida sem grandes custos políticos. Porém, a realidade atual demonstra que de fato Cuba tem se transformado, não só por mérito americano, mas também pela iniciativa de seu governo de aproveitar este novo momento para se inserir e projetar no mundo atual. O custo de isolamento de Cuba não é mais tão baixo, na verdade nunca foi, mas como essa estratégia americana foi perpetuada por tanto tempo, ela passou a ser percebida como corriqueira.

Com Trump eleito, ao contexto atual entre os dois países se acrescenta a importância de um terceiro ator, a Rússia de Putin. Se durante a Crise dos Mísseis de 1962, Cuba foi pivô nas relações entre Estados Unidos e a antiga União Soviética – levando à retirada dos mísseis e ao comprometimento americano a não intervir militarmente na Ilha – o cenário atual parece se manifestar como um efeito colateral indireto disso. Não se pode negar que a relevância da influência russa em Cuba sofreu uma diminuição drástica após a dissolução da União Soviética, na verdade, a Rússia como um todo perdeu de forma expressiva sua projeção e capacidade de influência internacional, mas nunca deixou de ser importante, especialmente para Cuba. Basta recordar que durante pelo menos 30 anos, o país do Caribe foi suprido em recursos, tecnologia, armamentos e inteligência de origem russa, e após o fim da Guerra Fria, o embargo americano impediu que a Ilha pudesse substituir essa demanda por alguma alternativa suficiente.

Hoje, vemos no cenário internacional uma re-ascensão do poder político internacional russo, importante pauta nas eleições americanas. Contrariamente a Hillary Clinton, o Presidente eleito Trump se mostrou favorável a firmar boas relações com Putin, ao que o líder russo já respondeu favoravelmente ao parabenizar o republicano por sua vitória. E o que isso tem a haver com Cuba? Apesar de não ter ganhado destaque nos últimos anos, as relações bilaterais entre Cuba e Rússia vem se intensificando, inclusive na colaboração militar. Assim, temos uma combinação de três variáveis importantes: 1. O projeto de política externa proposto por Trump, propõe um fechamento maior dos Estados Unidos para intervenções desnecessárias no exterior, combinado com um possível estreitamento dos laços com a Rússia; 2. O governo cubano tem ganhado maior projeção internacional e voltou – apesar de nunca ter deixado totalmente –  a ser próximo dos russos; e 3. A normalização já é vista de forma positiva pelo mundo e por, pelo menos, uma parcela da população dos Estados Unidos.

Agora o futuro das relações entre Cuba e os Estados Unidos vai depender de como todos esses atores e seus interesses se organizam. É válido pensar que, a curto prazo, ao menos internamente, não haverá nenhuma iniciativa pela revogação do embargo econômico, o Congresso de maioria republicana já se posicionou nesse sentido, mas a normalização promovida por Obama é um tema que ainda está em aberto.

*Alfredo Juan Guevara Martinez é mestre em Relações Internacionais pela PUC-MG, doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP, UNICAMP e PUC-SP) e pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Estudos sobre Estados Unidos (INCT-INEU) e do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais da UNESP (IEEI-UNESP).

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