Comunismo- Breve História (Parte 1)

Na verdade, temos que falar em “comunismos”, já que há várias concepções sobre ele. 

por Valdemar Pereira de Pinho*

Afinal, o que é mesmo o comunismo? A maioria das conceituações que se vê circular na internet (não podemos mais escapar dela) são confusas, quando não clichês e senso comum, e chamam de comunismo muita coisa que não o é. Na verdade, temos que falar em “comunismos”, já que há várias concepções sobre ele. 

Valdemar Pereira de Pinho é professor aposentado da Unesp e membro do Partido dos Trabalhadores, em Botucatu.

Valdemar Pereira de Pinho é professor aposentado da Unesp e membro do Partido dos Trabalhadores, em Botucatu.

“Comunismo” vem do grego e latim onde significa algo comum, compartilhado. Para Platão era sinônimo de coisa pública. Segundo a Wikipédia é “uma ideologia política e socioeconômica, que pretende promover o estabelecimento de uma sociedade igualitária, sem classes sociais e apátrida, baseada na propriedade comum dos meios de produção”. Vários autores afirmam que as primeiras sociedades humanas eram tribos que ocupavam um território onde os recursos necessários à sobrevivência eram de todos (comuns), com as tarefas para obtê-los divididas, o “comunismo primitivo”. Só eram propriedade individual os utensílios e ferramentas pessoais. Não havia classes sociais. Com o desenvolvimento da sociedade os agricultores tomaram posse da terra em que trabalhavam, enquanto os coletores continuaram a colheita na propriedade comum, a mata, rios e oceanos. Com propriedade privada a sociedade passou a ter classes sociais. Com o crescimento da população e o desenvolvimento das cidades a produção passa a utilizar escravos.

Há idéias “comunistas” como reação a desigualdades desde os primórdios da história, como de Platão na Grécia (A República 380 a.C), e tentativas de sociedades igualitárias, com Espártaco em Roma (73 a.C) e Masdak na Pérsia (sec. VI), dentre outras. Com o fim do Império Romano do Ocidente (meados do sec. IV), o escravismo foi gradativamente abandonado e os escravos se transformaram em “coloni”, evoluindo para “servos da gleba” no feudalismo desde a idade média e, ao menos, até à implantação do capitalismo na Europa Ocidental entre os sec. XI e XIV, quando os servos libertos se transformaram em assalariados. No final do feudalismo surgiram vários movimentos igualitários, como os “Diggers” de Gerard Winstanley na Inglaterra (sec. XVII). Com a Revolução Industrial (1760-1840) houve um grande crescimento da produção e do capitalismo, mas a riqueza gerada era apropriada por poucos, enquanto as condições de vida e trabalho eram degradantes. A partir do sec. XVIII muitos movimentos e autores elaboraram e praticaram teorias “comunistas”, como Owen (1771-1858), Fourier (1772-1837), Saint Simon (1760-1825), Proudhon (1809-1865) e Bakunin (1814-1876), baseados em cooperativismo e anarquismo. Marx chamou-os “socialistas utópicos”, pois não identificavam os problemas da sociedade como causados pela divisão em classes, os papeis de cada classe na produção e na economia e as consequências na vida social. Junto com Engels, Marx elabora as bases do “socialismo científico”, prevendo o socialismo sucedendo o capitalismo e o comunismo como etapa final da ordem social, com abolição do Estado.

A Comuna de Paris foi a primeira tentativa de implantar um governo socialista como preconizado por Marx e durou de 18 de março a 28 de maio de 1871. Durante sua existência o Conselho da Comuna estabeleceu direção coletiva através de conselhos populares, controlou preços dos alimentos, fixou salário mínimo e medidas para a melhoria das condições de vida e trabalho. Após intensa luta, foi derrotada pelos exércitos da Alemanha e da França, que executaram mais de 20 mil revolucionários. A Comuna teve enorme influência nas teorias e práticas revolucionárias que se seguiram em todo mundo, inclusive na Revolução Bolchevique de 1917, primeira experiência longa de um governo socialista. Apesar de muitos avanços e vários desvios da teoria original marxista, acaba com a queda do muro de Berlim em 1990.

A análise de causas e consequências desses resultados fica para a próxima semana.

* Valdemar Pereira de Pinho é professor aposentado da Unesp e membro do Partido dos Trabalhadores, em Botucatu.

Deixe uma resposta