Comunismo- Parte 2: teorias e seus conflitos

O valor pago ao trabalhador por hora trabalhada é apenas o necessário para repor sua força de trabalho.

por Valdemar Pereira de Pinho*

De forma bastante simplificada, Marx e Engels analisaram o capitalismo do sec. XIX e identificaram por que o sistema capitalista gera riqueza para poucos e pobreza para a maioria. Suas características centrais decorriam da divisão da sociedade em classes, definidas pelas relações na produção de bens e serviços. A propriedade privada dos meios de produção e distribuição condiciona a existência das duas classes “fundamentais”: os proprietários desses meios (burguesia capitalista); e os que não os possuem e, por isso, só lhes resta “vender” a sua força de trabalho (proletariado). Estes só têm (quando têm) propriedade dos bens pessoais necessários à sobrevivência. O valor pago ao trabalhador por hora trabalhada é apenas o necessário para repor sua força de trabalho. Identificaram também outras classes intermediárias, não decisivas nas suas análises. A comercialização dos produtos por um preço superior ao custo da produção e distribuição gera um valor excedente, riqueza apropriada pela burguesia.

Valdemar Pereira de Pinho é professor aposentado da Unesp e membro do Partido dos Trabalhadores, em Botucatu.

Valdemar Pereira de Pinho é professor aposentado da Unesp e membro do Partido dos Trabalhadores, em Botucatu.

O futuro proposto por Marx e Engels (e discípulos posteriores) é a transformação da sociedade capitalista em socialista numa primeira etapa e, depois, em comunista. Mas isso só seria possível após desenvolvimento máximo do capitalismo. Nas sociedades pós-capitalistas (socialista e comunista) os meios de produção seriam propriedade coletiva. O resultado da produção seria distribuído a cada um segundo sua capacidade de trabalho (no socialismo) e a cada um segundo suas necessidades (no comunismo). No socialismo a gestão dos meios de produção seria do Estado, que teria o papel de desenvolvê-los e fazer a “acumulação de capital” necessária para avançar ao comunismo. Sem propriedade privada a sociedade não teria classes sociais, apenas alguns extratos durante a transição. No socialismo o regime político seria a “ditadura do proletariado” sobre a minoria que teve a propriedade privada dos meios de produção, para que não voltasse a obtê-la, mas seria democrático para o restante da população. No comunismo o Estado deixaria de existir e as decisões seriam tomadas por todos, por consenso. O “internacionalismo proletário” seria regra, pois o conflito burguesia X proletariado existe em todos os países. A questão era, e é, como isso seria aplicado.

Desde sua formulação a teoria marxista teve apoiadores e críticos entre a esquerda. A Associação Internacional dos Trabalhadores (Primeira Internacional – 1864-76) era composta de várias organizações de trabalhadores com diversas posições de esquerda, desde cooperativistas e democratas radicais até anarquistas. A divergência principal foi entre Marx e os anarquistas, que propunham a extinção do Estado logo após a revolução, sem fase intermediária do socialismo, alegando que isso perpetuaria a centralização do poder. A Segunda Internacional (Internacional Socialista – 1889-1916; 1920-1940; 1951até hoje), criada por partidos socialistas e operários era composta por duas grandes correntes, uma marxista e outra possibilista ou moderada, incluindo trabalhistas e social-democratas. Os moderados defendiam transformações políticas através de reformas sucessivas até chegar ao socialismo, o reformismo. Em 1903, no Partido Operário Social Democrata Russo, Lenin critica os reformistas (mencheviques) e teoriza o marxismo-leninismo com sua corrente (bolcheviques), a revolução feita por um partido formado só pela vanguarda de revolucionários. Rosa Luxemburgo, importante líder da Internacional Socialista na Alemanha, tem uma posição ambígua. Aceita o reformismo como etapa de um processo que supere o capitalismo, elogia o ímpeto revolucionário dos bolcheviques, mas demonstra preocupação que os bolcheviques implantem um Estado totalitário.

Contra os prognósticos de Marx, a primeira revolução socialista que chegou ao poder ocorreu na Rússia, um país capitalista atrasado e com resquícios feudais. Isso gerou várias dificuldades e é apontado como um dos motivos do retrocesso final da experiência. Desde então vários países tiveram experiências socialistas, que analisarei em seguida.

* Valdemar Pereira de Pinho é professor aposentado da Unesp e membro do Partido dos Trabalhadores, em Botucatu.

Deixe uma resposta