As práticas socialistas- avanços e frustrações

A “via chilena para o socialismo”, pretendia “uma transição pacífica, com respeito às normas constitucionais chilenas e sem o emprego de força

por Valdemar Pereira de Pinho* 

Valdemar Pereira de Pinho é professor aposentado da Unesp e membro do Partido dos Trabalhadores, em Botucatu.

Valdemar Pereira de Pinho é professor aposentado da Unesp e membro do Partido dos Trabalhadores, em Botucatu.

A Revolução Russa de outubro de 1917 foi a primeira revolução socialista que conseguiu manter o poder por tempo necessário à implantação de suas idéias. Desde 1903 e até à véspera os revolucionários russos estavam divididos. Os mencheviques acreditavam que a Rússia não poderia ter uma revolução socialista, pois o capitalismo não estava suficientemente desenvolvido. Lênin e os bolcheviques defenderam a passagem diretamente ao socialismo, através de uma revolução dirigida por um partido pequeno composto apenas pela vanguarda revolucionária que pudesse influenciar grandes massas, tese do marxismo-leninismo.  Em outubro de 1917 tomaram o poder e implantaram uma república socialista. Inicialmente o poder foi organizado numa estrutura piramidal de “soviets” (conselhos) com democracia direta nos Conselhos da base. Após uma guerra civil até 1919 o poder dos bolcheviques se consolida e vários países são incorporados na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Essa experiência exitosa influenciou a maioria dos partidos socialistas e social democratas do mundo a adotar o marxismo-leninismo, denominando-se comunistas.

Com o tempo a estrutura de Conselhos foi minimizada e o Partido Comunista passou a ser exclusivo, administrando todas as estruturas políticas e administrativas. A “ditadura do proletariado” foi implantada com uma concepção diferente da preconizada por Marx. Lênin morreu em 1924 e Stálin assumiu o poder. O regime aprofundou a centralização do poder e características totalitárias, com controle e manipulação das informações, repressão aos dissidentes, enviados a “gulags” ou eliminados, como ocorreu com 14 ex-membros do Comitê Central do Partido por “serem agentes a serviço do nazismo”. Ao contrário da utopia marxista, o Estado ficou cada vez mais forte e longe de sua extinção. O autoritarismo dessa experiência foi usado pela direita mundial contra o socialismo. Entretanto, mesmo com dificuldades, crises e invasão das tropas nazistas, Stálin transformou a URSS em Estado moderno, com melhoria da qualidade de vida da população. Outros países socialistas adaptaram os conceitos marxistas à cultura do seu país, com êxitos importantes, mas o fim da maioria das experiências ocorreu simultaneamente ao da URSS, sem conflito armado.

A esquerda não leninista e a dissidência trotskista sempre fizeram críticas ao stalinismo e mesmo ao leninismo. Algumas vozes discordavam que a concepção leninista fosse a melhor para se atingir o socialismo. Rosa Luxemburgo no livro “Reforma ou Revolução” e no ensaio “A Revolução Russa” faz críticas às concepções leninistas, embora apoiasse a revolução. Gramsci propôs uma transformação da cultura, com a criação de organizações político-pedagógicas, com participação mais ampla possível, visando um programa que resultasse em aumento da liberdade e em diminuição da coerção do Estado. Na Itália propôs um “compromisso histórico” entre o Partido Comunista Italiano e a Democracia Cristã para resistir ao fascismo, superar as dificuldades políticas e econômicas do povo e aprofundar a democracia.

Salvador Allende pretendeu implantar no Chile um socialismo “libertário, democrático e pluripartidário”. A “via chilena para o socialismo”, pretendia “uma transição pacífica, com respeito às normas constitucionais chilenas e sem o emprego de força, para uma sociedade de paradigma socializante”. Seu governo (1970-1973) foi sabotado pelo embargo econômico do governo americano. A CIA organizou e financiou o golpe militar de 1973, precedido de assassinatos de apoiadores do governo e sabotagem econômica, inviabilizando a produção industrial e agrícola, levando o país ao caos, inflação, desabastecimento, desemprego, e violência. Esses fatos são mostrados no vídeo  A Doutrina do Choque” de Naomi Klein. A direita mundial não permitiria o sucesso de um socialismo democrático.

* Valdemar Pereira de Pinho é professor aposentado da Unesp e membro do Partido dos Trabalhadores, em Botucatu.

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