Opiniões, falácias e argumentos

Para um debate produtivo as pessoas precisam admitir a possibilidade que suas certezas não sejam absolutas e estejam abertas ao diálogo

por Valdemar Pereira de Pinho* 

Há alguns dias acompanhei um dos muitos “debates” sobre “religião” que povoam a internet. O que mostra que a crença de que “religião, política e futebol não se discutem” está ultrapassada. Só que a qualidade… A discussão era sobre um vídeo em que um pastor pressiona os fiéis a doarem seus carros que “em uma semana Deus te dará uma Lamborghini”. Os críticos diziam que todos os pastores eram picaretas que exploravam os fiéis, e que a religião era a responsável. Contestados pelos “defensores” da religião, dizendo serem eles “comunistas” e “maconheiros”. Em outros “debates” sobre variados temas a “acusação” é que são homossexuais. Agressões mútuas, imbecilidade e boçalidade são usuais. Será que a imensa maioria se imbecilizou? Não é possível um debate com argumentos, que propiciem troca de conhecimento? 

Valdemar Pereira de Pinho é professor aposentado da Unesp e membro do Partido dos Trabalhadores, em Botucatu.

Valdemar Pereira de Pinho é professor aposentado da Unesp e membro do Partido dos Trabalhadores, em Botucatu.

Embora a internet tenha muito lixo, há sites e blogs com textos e vídeos bem fundamentados, que podem ser esclarecedores sobre argumentos e opiniões. Cito dois deles: Nexo Jornal e Blog do Mensalão (do Suriani, conhecido por Mensalão). Nos dois há vários artigos sobre o tema. No Blog do Mensalão, há sete artigos sobre o que é ou não um argumento, além de três sobre falácias. Cita cinco critérios que uma premissa deve ter para ser um bom argumento e 12 princípios de um Código de Conduta Intelectual para a Discussão Efetiva, que ele desenvolve em 13 artigos bem didáticos.

No Nexo há uma entrevista com Walter Carnielli, matemático e professor de lógica na Unicamp, que sintetiza alguns conceitos fundamentais. “Crenças não são argumentos, embora possam influir neles. Claro que todos têm o direito de ter sua opinião, mas opinião não é argumento”, pois “os mecanismos para formar opiniões podem não ser racionais”. Um bom argumento tem premissas verdadeiras, que apóiam a conclusão. Opiniões nem sempre. “As pessoas podem manter crenças verdadeiras por razões irracionais, ou manter crenças falsas por decisões racionais”. Se um “argumento” tem premissas falsas ou se elas não justificam a conclusão, temos uma falácia (“argumento” enganador, ardiloso, fraudulento). Mas há outras falácias, quando: – se ataca a pessoa, não o argumento: “o médico me mandou parar de fumar. Mas ele fuma!”; – se exagera a conclusão de uma premissa: “você é a favor do aborto? Então você apóia o assassinato de crianças”; – se usa uma premissa verdadeira que não autoriza a conclusão: “Hitler era vegetariano, e veja no que deu”; se inverte o ônus da prova: “claro que OVNIs existem. Prove o contrário”; – se faz uma falsa analogia: “legalizar casamento homossexual é legalizar a pedofilia”. Infelizmente, as falácias dominam os debates.

Para um debate produtivo as pessoas precisam admitir a possibilidade que suas certezas não sejam absolutas e estejam abertas ao diálogo. Bons debates devem servir para construir conhecimento, baseados em fatos comprovados e no confronto de idéias. Quando vira bate-boca, resulta em polarização e extremismo, que é o que mais vemos. Camilo Rocha, citando Grenville Kleiser, afirma que é inútil debater com alguns, como os “dogmáticos” (“que resistem à prova mais evidente da verdade”), os “imperiosos” (“que gostam de se impor sobre os outros”), os “egoístas” (“que se deleitam em ouvir a si mesmos”) e os “rabugentos” (“que se ressentem da contradição, e se ofendem”). Informação disponível há para quem quiser. Se alguém tiver interesse em se aprofundar no tema, vale a pena lê-los.

Como diz o Suriani, “A completa ignorância é resistente até ao melhor dos argumentos”. Felizmente o número dos que buscam conhecimento tem aumentado significativamente.

* Valdemar Pereira de Pinho é professor aposentado da Unesp e membro do Partido dos Trabalhadores, em Botucatu.

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