“Estamos todos no Inferno”

Desde que o Temer assumiu o governo em maio de 2016 a economia e o desemprego pioraram e a credibilidade no governo é muito baixa

por Valdemar Pereira de Pinho*

Há poucos dias recebi uma postagem de um artigo com o título acima. Nela o líder do PCC, Marcola, diz coisas interessantes e inquietantes. “Sou um sinal de novos tempos. Vocês no bem e eu no mal e, no meio, a fronteira da morte, a única fronteira. Vocês têm mania de humanismo. Nós somos cruéis, sem piedade. Vocês é que têm medo de morrer, eu não… mas eu posso mandar matar vocês lá fora… Somos homens-bomba. Somos uma empresa moderna, rica. Estamos ricos com a multinacional do pó. Mas meus soldados todos são estranhas anomalias do desenvolvimento torto deste País. E vocês estão morrendo de medo… Somos o início tardio de vossa consciência social… Viu? Solução? Não há mais solução, cara… só viria com uma ‘tirania esclarecida’, que pulasse por cima da paralisia burocrática secular, que passasse por cima do Legislativo cúmplice e do Judiciário que impede punições.” 

Valdemar Pereira de Pinho é professor aposentado da Unesp e membro do Partido dos Trabalhadores, em Botucatu.

Valdemar Pereira de Pinho é professor aposentado da Unesp e membro do Partido dos Trabalhadores, em Botucatu.

Só que o Marcola não disse isso. A “entrevista” foi publicada no jornal O Globo em 23/05/2006 e foi escrita pelo Arnaldo Jabor, cronista da Globo e um dos preferidos de quem é de direita. Em maio de 2006 Lula concorria ao seu segundo mandato e estava à frente nas pesquisas eleitorais. Era preciso assustar a classe média pra tentar reverter essa tendência. Daí o texto. Mas, ele parte de algumas informações reais. Fala das misérias sociais como celeiro de “soldados” para as facções criminosas e orienta como combatê-las: “Peguem os barões do pó! Tem deputado, senador, tem generais, tem até ex-presidentes do Paraguai nas paradas de cocaína e armas.” Ficção?

Essa “entrevista” volta a circular na internet sempre que se quer assustar a opinião pública. Porque voltou agora?

Neste momento, consolidado o golpe, a situação econômica e social degringola. A promessa de que a deposição da Dilma traria o crescimento econômico, o desemprego cairia etc, etc, mostrou-se falsa. Desde que o Temer assumiu o governo em maio de 2016 a economia e o desemprego pioraram e a credibilidade no governo é muito baixa. As medidas de “ajuste” se mostram predatórias dos pobres e da classe média, enquanto não faltam recursos para aumentos de parlamentares e do judiciário, e para a remuneração do capital financeiro e especuladores. O congelamento dos recursos para Saúde e Educação públicas levará ao sucateamento delas e crescimento do setor privado. A “Reforma da Previdência” nada mais é que o fim programado da Previdência Pública e a migração forçada para os planos privados. E quem não tiver dinheiro pra pagar por eles que vá se queixar ao bispo. Como fazer para que o povo engula calado essas “reformas”? A solução é o descrédito no Estado democrático visando a implantação do sonho de todo fascista: um Estado policial e uma “tirania esclarecida”, que querem enfiar goela abaixo de uma aterrorizada opinião publicada. Reza a lenda que Nero pôs fogo em Roma pra justificar a repressão aos cristãos. Hitler usou o incêndio do Reichstag pra implantar o nazismo. Na mídia e nas redes sociais se trabalha para aterrorizar os “cidadãos de bem”. A quem isso interessa?

Enquanto isso, vemos a terrível crise de segurança no Espírito Santo. Que, evidentemente, não é obra do Espírito Santo. Entre 2011 e 2015, a violência no Brasil matou mais pessoas que a Guerra da Síria. A insegurança sempre existiu, só que atingia as populações pobres, “os bandidos”. A greve da polícia liberou uma onda de violência generalizada. Podemos culpar as “Facções Criminosas” por essa violência? Como disse o Jabor, as Facções são “uma empresa moderna”. Não é de seu interesse a violência generalizada, pois logo após virá o aumento da repressão também a elas.

Detalhe: a imprensa não revela o Partido que governa o ES. Logo, não é o PT.

* Valdemar Pereira de Pinho é professor aposentado da Unesp e membro do Partido dos Trabalhadores, em Botucatu.

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